sexta-feira, outubro 23, 2026
varrer os pés
Esta foi uma das crenças que mais ouvi durante toda a minha infância e juventude. Quando se varre os pés, a pessoa fica viúva! E que cuidado se tinha para que isso não acontecesse!
No contexto daquele tempo, ter os pés varridos era uma grande possibilidade. Basta pensar nas famílias numerosas, que enchiam casas muito humildes e pequenas. Crianças, jovens e adultos acotovelavam-se nesses espaços exíguos, cada um entretido com a sua tarefa. Não era de espantar que os pés fossem apanhados pela vassoura, enquanto a casa era varrida.
Imagino que a superstição pode ter nascido como uma forma de garantir que o espaço ficasse devidamente desimpedido durante a realização dessa tarefa doméstica. Ajudava muito, sem dúvida. Mas o mais certo é que alguém tenha, realmente, ficado viúvo depois desse incidente e a história tenha passado de boca em boca.
Atualmente os aspiradores substituem as vassouras na maioria dos casos e as casas já são lugares vazios, sem pés que se atropelam e atrapalham as tarefas domésticas. Já ninguém alerta para que a desgraça seja evitada. "Afasta-te, cuidado com os pés."
Da minha parte, o único risco que corro é o de varrer os meus próprios pés e se tal acontecesse, não ficaria viúva. Mas lembro-me sempre disto quando pego numa vassoura. Por alguns instantes, aquece-me o coração a memória de um tempo em que todas as regras pareciam estar estabelecidas e bastava cumpri-las para estar a salvo.
sábado, julho 26, 2014
dar no porco
Dar no porco. Como é possível que esta expressão popular me tenha passado ao lado durante tantos anos? Dar no porco é dar errado. Dar no porco é dar para o torto.
É verdade que hoje em dia está tudo ao contrário, pois ora agora! Só depois de de ter vivido tantas coisas que deram no porco, aprendo este dito popular.
Lembro-me e comento que na Alemanha o porco está associado à sorte. Cada terra com seu uso.
Este passeio que tanta admiração causou à minha mãe deve ter já cerca de um ano. Se fosse hoje, mais admirada ainda ficaria. Cada vez mais porcos bailam por aqui e por ali, na nossa linda terra.
quarta-feira, julho 16, 2014
o iró
Guardámos imenso respeito ao poço, junto ao qual tínhamos obrigatoriamente de passar quando às vezes, ao domingo, íamos às Fontes visitar os meus avós paternos. Eu perguntava sempre se era verdade que tinha lá um iró e eles diziam que sim e o meu pai voltava a calcular a medida do bicho. Mas a verdade é que eu duvidava. Duvidava até que existisse neste mundo algum animal chamado iró.
Pensava comigo mesma que os meus pais tinham inventado a história do iró para evitar que nos aproximássemos demasiado do poço e caíssemos lá dentro. Havia muitos poços para guardar a água de rega, mas aquele era enorme, era o maior das redondezas, e fazia fronteira com o caminho estreito, o perigo era maior. O iró, para mim, era uma espécie de "velho da saca", a figura usada para obrigar as crianças a se comportarem bem, a comerem, a se lavarem, a irem dormir à hora certa. Secretamente, achava que os meus pais tinham sido inteligentes ao inventarem semelhante figura só para nos protegerem do perigo que o poço representava.
Há pouco tempo lembrei-me da história do iró, confrontei os meus pais e, para meu espanto, havia de facto um iró no fundo do poço do Ti João Duarte, no meio do lameiro, perto da bucha do poço, que parecia uma cobra e devia ter à volta de um metro de comprimento. O iró é, afinal, uma enguia, uma espécie que eu julgava que nem sequer existia na ilha.
sexta-feira, setembro 27, 2013
ver amores
Fui ao mar para ver água
ao jardim para ver flores
à Igreja para ouvir missa
ao adro p'ra ver amores
Quadra popular recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, no tempo em que o adro da igreja ainda era um lugar para ver amores. Tenho saudades desse tempo em que o mundo tinha o tamanho de um adro. Em que as pessoas trocavam olhares antes de entrarem e depois de saírem da missa. Em que um dia, depois de muitos domingos nesse jogo de trocarem olhares, talvez trocassem algumas palavras.
Saudades do tempo em que estava tudo à vista, em que as pessoas falavam com os olhos e com palavras ditas mesmo de verdade, palavras com som. Da simplicidade desse tempo em que ninguém sonhava que um dia existiriam computadores e aquilo a que chamamos redes sociais.Estamos enganados.
As verdadeiras redes sociais cabiam no adro de uma igreja.
terça-feira, julho 31, 2012
fura-se com uma agulha
O meu pai sorri, indicando o local onde improvisou, com a ajuda de um amigo, o curral para as cabras.
São três. Uma maior e duas mais pequenas.
- Aquela é filha, mas esta vê-se logo que não é!
Junto à estrutura improvisada, discute-se o possível parentesco entre os três animais, comparando cores e tamanhos.
- O que é que elas iam comer? Ardeu tudo...
O meu pai justifica assim aquela compra inesperada, mas eu sei que mesmo que o dono das cabras não tivesse ficado sem nada que lhes deitasse, mais tarde ou mais cedo ele arranjaria maneira de arranjar uma cabrinha para comer silvados à volta de casa.
Está-lhe no sangue. O porquinho, a cabrinha, as galinhas que já tivemos, os coelhos que já não temos.
Demoramos um pouco junto ao curral, saboreando a quietude do fim da tarde, e inventariando de memória os locais ali à volta onde ainda deve ser possível conseguir-lhes algum alimento.
- 'Tão magrinhas, vão engordar, garante o meu pai.
Um dos animais, em particular, está magríssimo. É só pele e osso.
Já no terreiro, quando o comento, aprendo com a sabedoria da minha mãe esta nova expressão popular: "Fura-se com uma agulha".
Ao que me é dado perceber, esta expressão, sinónimo de magreza, só é utilizada quando quando nos queremos referir a animais. Bem pensado.
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
entromizado
Não me lembro de ter ouvido esta expressão durante a infância. Não me lembro de a ter ouvido nem da minha avó nem da minha mãe. Esta expressão veio ter comigo recentemente e de vez em quando dá um ar da sua graça, pela voz de alguns colegas de trabalho.
" - Fiquei entromizada!"
Explicam-me que entromizado é um sinónimo de impressionado, mas com algumas nuances. Utiliza-se perante uma atitude inesperada, algo que com que não contávamos, "mas mais no gozo".
Todos os dias fico entromizada com situações e atitudes que vejo à minha volta.
terça-feira, janeiro 24, 2012
o despacho de Dezembro
Penso nisto tudo mas falha-me um pormenor importante, ressuscitado por uma conversa dos meus pais.
- "Hoje é o despacho de Dezembro". Então não é? Os meus pais olham para o céu cinzento e para a chuvinha miúda e têm a certeza de que é este o tempo que deverá caractarizar o mês de Dezembro deste ano. Mas quando começamos a descer para o Funchal, já não chove, apesar do cinzento do céu, coberto de núvens. - "Aqui não chove, mas no Norte deve estar a chover bem!" Não se sabe.
O que se sabe é que segundo a tradição popular os primeiros doze dias de Janeiro representam os requerimentos para o tempo respeitante a cada um dos meses do ano e os doze dias seguintes representam os despachos, ou seja o tempo que realmente deverá caracterizar cada um dos doze meses. Seguindo este raciocínio, o dia 24 de Janeiro é de facto o despacho de Dezembro.
Dezembro de 2012 deverá ser um mês de céu cinzento, com algum chuva miudinha, mas pouca, muito pouca para aquilo que deveria ser no primeiro mês do Inverno.
quarta-feira, janeiro 11, 2012
o balanço
Lembro-me de o ver a escolher bem o ramo adequado, não só o mais forte, mas também aquele que ficava no melhor lugar e tinha a altura ideal. Depois vi-o a tomar balanço, com o corpo inclinado para trás e em seguida para a frente e de repente a corda estava a voar sobre o ramo e no instante seguinte já estava cá em baixo. O meu avôlito amarrou-a bem, experimentou o peso, e disse que podíamos brincar no balanço.
O balanço ficava a meio do terreiro dos meus avôlitos. Uma de nós sentava-se, outra ia para trás e empurrava. Com mais força, mais, mais, até quase voarmos e tocarmos com uma ponta do pé num ramo da ameixeira branca. O cabelo voava. Sentíamos um frio na barriga. Era tão bom. - "Vamos se embalançar?" Não precisávamos de mais nada.
O balanço não se manteve ali por muito tempo, pelo menos na minha memória não foi muito longo o tempo desse balanço. Talvez estivesse a forçar demasiado o tronco da ameixeira, certo é que atrapalhava quem queria passar no terreiro. Durou pouco tempo esse balanço, mas foi o único que me ficou gravado na memória com esta nitidez.
Todos os nossos balanços foram semelhantes àquele, feitos com uma corda grossa atada ao tronco de uma árvore. Os balanços da minha mãe foram bem diferentes, pois nesse tempo eram as próprias crianças que os faziam, entrançando cascas de vime verde. Os balanços eram ainda mais preciosos para as crianças dessa geração porque só existiam em Junho, o mês dos balanços.
Em Fevereiro e Março era a altura de podar os vimes. Estes eram amarrados aos molhos e colocados de pé em poças de água junto às ribeiras, para rebentarem. Aos poucos, durante cerca de três meses, os vimes iam criando raízes e ficando com folhas. Depois de retirados da água, a base dos molhos era colocada sobre uma pedra e malhada com o malho. Era por aí, pela parte da casca que tinha ficado meio desfeito, que se começava a descascar o vime branco.
As crianças rodeavam os adultos eufóricas e iam recolhendo as cascas para os balanços. Basicamente faziam uma trança, com vários molhinhos de vimes, tendo o cuidado de ir acrescentando mais vime ao longo da trança, gradualmente para ficar bem seguro. Depois elas próprias procuravam um ramo e atiravam a trança ligando cuidadosamente as duas pontas, com outras cascas de vime.
Se eu só me lembro do balanço do terreiro dos meus avôlitos, já a memória admirável da minha mãe conseguiu guardar todos os balanços da sua infância. Um balanço que a Ti Filomena deixou fazer num ramo de nespereira que se estendia por cima da vereda que ia para as Eiras; um balanço no ramo do carvalheiro que ficava em cima do bardo e se estendia sobre o caminho ao pé da casa da Tia Carolina do Pinheirinho; um balanço na pereira que existia em casa do Ti Noé; um balanço na nespereira que havia à frente das casas da Turquia; um balanço em casa do Ti José Mirando, que acabou por ser mudado para outro local, abaixo do ribeiro.
- "Traz-me uma cartinha!" Era assim que as crianças pediam a quem se embalançava que tentasse agarrar, com as mãos ou com os pés, pequenas folhas de árvore, para provar o quão alto tinham conseguido ir.
Junho era o mês dos balanços, o mês em que se descascavam os vimes verdes. Quando os balanços começavam a secar, ainda tentavam salvá-los, metendo-os em água para amolecerem, mas mais tarde ou mais cedo acabavam-se os balanços. Até ao ano seguinte, na época dos vimes.
Ouço estas memórias e sinto beleza em tudo. Nos objectos, nos gestos, nas emoções e nas palavras. Fico contente por sempre ter usado a palavra balanço. A palavra baloiço foi uma novidade aprendida muito mais tarde e nunca me soou tão bem.
terça-feira, janeiro 10, 2012
ter um pai nosso nas coisas
Os donos da casa não disfarçam o orgulho. Aqui e ali comentam pormenores sobre a construção, sobre decisões que tomaram, escolhas difíceis, procuras complicadas ou até opções inicialmente erradas.
Reparamos nos tapassóis de madeira com dobradiças de ferro, admiramos o alpendre, experimentamos os sofás da sala. A dona da casa abre armários, explica a origem de alguns objectos, mostra o jogo de panelas, retira copos do aparador, abre panos e toalhas bordadas para melhor os admirarmos, chama a atenção para a poupança de espaço na cozinha.
Depois da agradável visita, a minha mãe vira-se para mim e exclama: "Ela tem um pai nosso nas coisas!" Foi esta a sua maneira de dizer que as coisas estavam todas extremamente organizadas, incrivelmente limpas, sem merecerem o mínimo reparo. Ter um pai nosso nas coisas é isto, é uma capacidade que algumas pessoas possuem e outras nunca conseguem alcançar, ainda que sejam católicas fervorosas e rezem o pai-nosso diariamente.
sábado, janeiro 07, 2012
nem fome nem frio
Respondem, com esta expressão, a uma queixa minha de que está muito frio, como ainda não tinha estado este Inverno. Já não é possível andar com roupas leves.
"Até à Festa não há fome nem frio!"
Explicam-me que o rigor do Inverno só começa realmente em Janeiro, altura em que chega a maior força do frio, e altura a partir da qual escasseiam os produtos da terra, frutos ou legumes.
Está mais frio do que antes, o ditado confirma-se.
Está frio mas não chove, como deve acontecer no Inverno. No meio de tantas anormalidades, até a chuva anda distraída e não vem no tempo certo.
terça-feira, janeiro 03, 2012
história da bicha fera
A cena do rabinho de lagartixa representava uma espécie de pausa ao meio da história, era a parte em que podíamos descontrair, a parte em que sorríamos e respirávamos fundo, pois todo o resto era assustador.
Sempre que a minha mãe contava a história da Bicha Fera, eu tinha esperança que ela dissesse que os dois pequenos se tinham perdido acidentalmente na floresta. Mas a minha mãe contava sempre a história tal como ela era, era assim mesmo nesse tempo.
Os dois pequenos protagonistas desta história comportavam-se mal. Por isso, a madrasta pediu ao pai deles que os abandonasse na floresta. O pai levou-os para a floresta com o pretexto de irem à lenha e quando lá chegaram sugeriu que eles fossem para um lado e ele para o outro, reunindo-se depois no ponto e partida.
Já carregados com dois molhinhos de lenha, os dois pequenos voltaram ao local combinado mas não viram o pai de ponta nenhuma. Esperaram mas ele não chegou. Então, começaram a chamar: "Traz, traz, quanta lenha meu pai faz! Truz, truz, quanta lenha meu pai fez!" Nesta parte, a minha mãe chamava várias vezes, imitando o eco da floresta.
A certa altura, eles lembraram-se de que tinham comido tremoços pelo caminho e decidiram seguir as cascas. Mas a certa altura já não havia mais cascas para seguir e eles continuavam perdidos e estava já a anoitecer. Foram andando, andando, andando, até que avistaram uma luzinha no escuro.
Andaram até chegarem junto a uma pequena casa, onde uma velha estava a fazer malassadas. A velha colocava as malassadas no parapeito da janela e os pequenos, esfomeados, iam-nas tirando sem que ela se apercebesse. A velha tinha um gato cego de um olho e pensando que o roubo era obra sua, ia dizendo: " Sape gato de olho torto, cego-te um e tiro-te o outro. Sape gato de olho torto, cego-te um e tiro-te o outro."
Até que decidiu ir à rua e encontrou os dois pequenos, que tratou muito bem e convidou para entrarem. Meteu-os na caixa do pão, uma caixa igual à que havia na cozinha dos meus avós e em todas as outras cozinhas de antigamente.
A velha ia alimentando as duas crianças pelo buraco da fechadura da caixa e de vez em quando queria saber se eles já estavam gordinhos. Mas os pequenos eram espertos e quando ela lhes pedia para meterem o dedo pela buraco da fechadura, eles metiam um rabinho de lagartixa que tinham na algibeira.
Era aqui que nós ríamos. Parávamos. Respirávamos. Que engraçado! Que bom eles terem levado a lagartixa na algibeira! Bem feito para a velha.
A velha começou a desconfiar por eles estarem sempre magrinhos, apesar de toda a comida que lhes dava e um dia decidiu abrir a caixa. Qual não foi o espanto quando os viu tão gordinhos! Então, disse aos pequenos para irem à lenha e deu-lhes um pão, uma garrafa de vinho e peixe, dizendo: "Vocês comem o pão e trazem o pão, comem o peixe e trazem o peixe, bebem o vinho e trazem o vinho."
Pelo caminho, os dois irmãos começaram a chorar por não saberem o que fazer em relação às coisas que tinham de comer e trazer ao mesmo tempo. Apareceu-lhes então Santo Antoninho, que era o padrinho de um deles, e recomendou-lhes que comessem o miolo do pão e levassem de volta a côdea, que comessem o peixe e levassem de volta as espinhas e que bebessem o vinho e levassem de volta a garrafa cheia de água. Disse-lhes ainda para não obedecerem à velha quando ela lhes dissesse para irem para a frente do forno bailar, que antes lhe pedissem para os ensinar. Os pequenos ficaram mais sossegados e pararam de chorar.
A velha ficou satisfeita com a solução encontrada pelos pequenos para as coisas que lhes tinha dado para levar e trazer e começou a aquecer o forno. Quando já estava quente, disse-lhe que fossem para a frente da porta do forno bailarem para se aquecerem, coitados, tinham vindo da serra e estavam gelados. Mas eles disseram-lhe que fosse ela primeiro para os ensinar como fazer, e assim que a mulher começou a bailar ao pé da porta do forno, pegaram na pá e empurraram-na para dentro do forno.
A mulher começou a arder e a gritar e saiu-lhe um cachorro pela boca que fugiu pela porta fora porque, afinal, ela era uma bruxa. Acabava assim a história da bicha fera, uma das histórias que mais vezes ouvi durante a infância e que nunca me tinha lembrado de contar à minha filha. Contei-lha um dia destes, fazendo pausas aqui e ali para me tentar lembrar - algumas partes tive de confirmar depois com a minha mãe.
Divertimo-nos a comparar a história de Hansel e Gretel dos livros infantis com esta versão madeirense e fizemos uma pausa para sorrir na parte em que o rabo de lagartixa metido pelo buraco da fechadura da caixa serve para aldrabar a velha. Estive tentada a começar dizendo que os dois pequenos se tinham perdido acidentalmente na floresta, mas acabei por fazer como a minha mãe fazia e contar a história tal como ela é.
quinta-feira, dezembro 15, 2011
tempo da cabra afanada
- "Lembro-me de minha mãe apontar para baixo da Ribeira das Cales, em direcção à cidade", conta minha mãe, que só depois da nossa conversa anterior sobre particularidades meteorológicas, se lembra deste pormenor.
-"Não sei bem como era que eles diziam...Parecia-me tempo da cabra afanada."
Tempo muito rigoroso era esse tempo de sudoeste, com muita chuva, vento e nevoeiro.
"- Era um desabrigo!"
domingo, dezembro 04, 2011
Tempo de cima, tempo de baixo...
É por isso que está mais frio, mas chove muito pouco, apenas alguns chuviscos de vez em quando, e não há nevoeiro.
- "E verdade que está frio, mas este tempo é menos aborrecido do que o tempo de baixo", explica minha mãe.
Meu pai descreve o tempo de baixo: - "É um nevoeiro terrível, não se vê nada, e com muita chuva." Tempo de baixo. Tempo do Sul. Tempo do mar.
O Tempo da Ribeira das Cales também é muito aborrecido. A minha mãe recorda-se que a minha avó detestava esse tempo:"É muito desabrigado!" Esse tempo de oeste traz também um nevoeiro desgraçado e chuva forte.
O tempo de Machico é mais ou menos. O meu pai encolhe os ombros: "Não é muito mau. É parecido com o tempo de cima."
Em breves minutos estão descritos os tempos.
Hoje o tempo está de cima, da serra. Está frio, mas não chove nem há nevoeiro.
quinta-feira, dezembro 01, 2011
ainda vai ter Natal
Pego numa dessas peças e espanto-me por a ter deixado de lado, esquecida. Já não me lembrava!
- "Ainda vai ter Natal", afirma prontamente a minha mãe.
Não conhecia a expressão "ter Natal" como sinónimo de "ser estreado".
A todos os outros, muitos, significados de Natal, junto-lhe este. Contente.
Os tempos são de crise mas o Natal expande-se em sentidos e significados.
quarta-feira, novembro 30, 2011
enxógalhar
Enxógalhar é um pormenor que pode fazer toda a diferença. A palavra enxógalhar é de tal forma habitual que só por acaso me ocorreu tratar-se de uma palavra que não existe no dicionário. O dicionário diz que a palavra correcta é agitar, eu digo enxógalhar. Digo enxógalhar porque todos me perceberão melhor e também porque esta é uma daquelas palavras que têm o sabor, o cheiro e as cores da infância. A palavra enxógalhar pertence às pessoas simples que talvez saibam mais do que as pessoas que sabem coisas muito complicadas.
terça-feira, novembro 22, 2011
ficar com as calças na mão
A primeira vez em que ouvi esta expressão era ainda criança.Talvez tivesse sido o meu pai, talvez o meu tio, talvez o meu avô. Um deles usou esta expressão numa conversa de pessoas grandes e suscitou a minha curiosidade
- Fiquei com as calças na mão!
Na altura em que ouvi esta expressão pela primeira vez, eu não sabia ainda nada sobre metáforas. As palavras tinham o sentido literal, apenas esse e mais nenhum. Foi por isso que eu imaginei o quadro, muito provável na época, de alguém que ia fazer as suas necessidades no meio de um pinhal, ou atrás das canas de uma fazenda, ou num poio mais afastado do caminho, e era surpreendido por outra pessoa que por ali andava, antes de ter tempo de voltar a compor-se.
- Fiquei com as calças na mão!
Era mesmo isso que acontecia por vezes. As pessoas trabalhavam no campo, faziam longos percursos a pé, e quando precisavam utilizavam um destes lugares, supostamente mais escondidos. Ora, como eram muitos os que procuravam lugares mais escondidos para o mesmo fim, nada mais normal do que muitos serem literalmente apanhados "com as calças na mão".
- Fiquei com as calças na mão!
Por ser uma possibilidade tão real e possível, e deveras embaraçosa, é que as pessoas a transformaram numa bela metáfora. Uma pessoa fica com as calças na mão quando é apanhada desprevenida, totalmente desprevenida. Quando é apanhada desprevenida e fica sem saber o que fazer, porque já foi apanhada de qualquer maneira.
São poucos os que não estão com as calças na mão!
quinta-feira, outubro 27, 2011
a discrição do padre
Contaram-me a história que eu vou contar a propósito de uma conversa que surgiu como as cerejas a partir de outra história que também aqui hei-de contar e que surgiu como as cerejas, a propósito de um simples um copo de vinho.
Pois bem.
Havia um padre que passava muito na Rua dos Netos. Entrava sozinho no bar do senhor José, e pedia dois cálices de aguardente. Vendo-o sozinho, perguntavam-lhe: para quem é o segundo? Ele respondia que era para um colega, que vinha atrás, mesmo atrás, já devia estar quase a entrar.
O padre bebia de um único gole o seu cálice de aguardente. Depois dirigia-se até à porta, como quem procurasse o suposto colega, olhava para um lado, olhava para o outro e voltava para junto do balcão. Com um encolher de ombros, bebia o segundo cálice, enquanto explicava, fingindo surpresa, que o colega, afinal, não apareceu.
Ora bem.
Segundo a interpretação do colega que me contou esta história, guardada carinhosamente por entre as memórias do tempo em que a Rua dos Netos era a nossa Rua por ser a rua da rádio, o Padre com quem talvez eu também me tenha cruzado mas não me lembro, era um padre discreto. Não queria dar nas vistas, não queria parecer demasiado ávido por bebida, não queria ser criticado. O padre que bebia dois cálices de aguardente no bar do senhor José queria tanto passar despercebido que acabou ficando na história.
segunda-feira, outubro 10, 2011
uma frigideira mascarrando uma panela
Esta expressão era utilizada com propriedade nos momentos em que alguém criticava outra pessoa, sem se aperceber que cometia os mesmos erros, aqueles que apontava, talvez até mais alguns, e quem sabe bem mais graves.
Antigamente tanto as panelas como as frigideiras andavam sempre mascarradas porque eram colocadas directamente sobre as pedras do lar, apanhando com o fogo da lenha praticamente em toda a superfície. Ora, uma frigideira tem menos superfície para mascarrar do que uma panela.
A expressão faz sentido e tem piada. O que eu gostava era que não se tivesse banalizado tanto o contexto em que encaixa como uma luva.
sexta-feira, outubro 07, 2011
cravos e rosas
Foi o qu'o craveiro deu
Toda a gente tem inveja
Daquele cravo ser meu
Eu sou cravo, tu és rosa
Qual de nós se estima mais
Os cravos andam pelas janelas
E as rosas pelos quintais
Rosa que 'tás na roseira
deixa-te 'tar fechadinha
qu'eu vou lá fora e venho
Rosa tu vais seres minha
Não quero amor alto
Que não me caiba na porta
Quero um amor rasteirinho
Com'um craveiro na horta
Menina por ser bonita
não julgue que mais merece
quanto mais bonita é a rosa
mais depressa desvanece
Minha avó chama-se rosa
minha mãe Rosa Maria
Eu também me chamo Rosa
Minha mãe c'a rosaria
Daqui até à minha terra
é tudo caminho chão
é tudo cravos e rosas
plantados por minha mão
Muitas quadras populares, como estas que recolhi no Sítio da Ribeira dos Pretetes (Caniço) em 1986, mencionam estas duas flores tão comuns: cravos e rosas.
Normalmente, o povo utiliza a imagem do cravo para se referir aos rapazes e a da rosa para se referir às raparigas. Cravos e rosas nos jardins. Rapazes e raparigas nas eiras, nos adros das igrejas, nos bailaricos, nos afazeres diários, à distância exigida pelas convenções da época, mas nunca separados.
quinta-feira, outubro 06, 2011
dívidas e pecados
A minha mãe utilizou esta sábia expressão, numa conversa simples que tivemos hoje à tarde.
Vim embora e trouxe-a comigo, presa ao ouvido.
Penso: é bem verdade. As minhas dívidas e os meus pecados, mais ninguém paga senão eu.
Penso: que máxima interessante. Se cada um pagar pelas suas dívidas e pelos seus pecados, tudo está certo no mundo.
Mas depois penso no mundo. Depois penso no mundo em ponto pequeno onde vivo e trabalho. Depois percebo que já não e bem assim. Depois entristeço-me. Porque até as máximas mais universais começam a perder actualidade.
domingo, outubro 02, 2011
de arrancar castanheiros
O meu pai deixou a enxada a meio do poio, no local exacto onde cavara as últimas semilhas e onde deveria recomeçar a tarefa, sacudiu a terra das botas d'água, lavou as mãos no poço de lavar, entrou na cozinha, sentou-se à frente do prato fumegante, esfregou as mãos de contente e exclamou: - "Esta é de arrancar castanheiros."
Duas colheradas depois, voltou a gabar a sopa e a usar o dito dos castanheiros. Contive-me. Deixei passar mais um bocadinho, mas algumas colheradas depois lá estavam as minhas inevitáveis perguntas sobre a expressão "de arrancar castanheiros", às quais respondeu com bom humor. Graças a um prato de sopa à moda da minha mãe, fiquei a saber que os castanheiros são as árvores mais difíceis de arrancar. Por isso se diz dos pratos mais substanciais, daqueles que dão muita energia, que são "de arrancar castanheiros".
terça-feira, setembro 27, 2011
um maranho
Repetem gestos mecanicamente, enquanto conversam.
Retiro o cartão multibanco, espero que me passem a máquina, confirmo o preço, escrevo o código, escuto a conversa.
- "É um maranho que nunca mais acaba!" resume o funcionário, encerrando o diálogo sobre o assunto do momento, o assunto de que todos falam e que a todos diz respeito: a dívida da Madeira. Um maranho!
O povo foi ao adjectivo emaranhado, que significa embaraçado, enredado, e decidiu encontrar-lhe um substantivo. E aqui está ele: um maranho. Tomara que não estivesse!
quinta-feira, agosto 18, 2011
bebé com cuspo na boca
Olho com atenção para a bebé e reparo que na verdade tem um pouco de espuma na boca minúscula, onde parece formar-se uma muito mais minúscula bola transparente, tipo bolinha de sabão.
Aquilo que não passa de um pequeno pormenor, motivo de distracção para nós, ganha outra dimensão com a chegada da avó. A avó aproxima-se e de repente tudo está explicado: " - Coitadinha, tem comichão!"
Comichão. A avó é a única pessoa a saber que a bebé sente comichão, por causa desse pormenor a que ninguém tinha dado importância. "- Quando os bebés têm cuspo na boca é porque sentem comichão."
Este é um dos muitos atributos das avós: desvendarem os mistérios do mundo.
sábado, julho 09, 2011
pôr o soalho num prato
Um "soalho num prato" é um soalho impecavelmente limpo. Tão limpo que cintila e faz pena pisá-lo. "Está num prato", exclama a mulher, voltando a admirar o trabalho de outras mãos. Há mãos assim, especiais. Mãos que fazem brilhar as coisas em que tocam. Mãos que conseguem pôr qualquer soalho num prato.
Mais tarde, a explicação que procuro: "Então não vês que está tão limpo como o fundo de um prato, pronto a se deitar o comer dentro? Até está luzindo!"
quarta-feira, junho 15, 2011
muito mal ouvisto
A senhora Maria Isabel dizia estas palavras de repreensão como se fossem palavras de carinho. Afagou o cão que acabava de acusar de ser mal ensinado, e reafirmou: "Ele é muito mal ouvisto." Depois, ainda com a mão afagando a cabeça do animal, perguntou: "É, não é?"
O cão só queria brincadeira e voltava a colocar as patas da frente sobre o colo das visitas, indiferente ao facto de a dona o ter apelidado de "mal ouvisto".
A cena deliciou-me tanto com a expressão que não ouvia há muito tempo. Mal ouvisto.
Quem é que nunca foi mal ouvisto?
Lembro-me de a minha mãe se queixar de eu ser mal ouvista quando na dolescência me pedia para eu fazer alguma tarefa doméstica, exactamente na hora em que estava no auge o episódio do Sandokan ou do Tarzan, na televisão acabada de ser instalada em casa. Ou quando me custava sair da cama para percorrer quase hora de caminho nos piores dias de Inverno, até chegar à escola. E quando. Quando tanta coisa. Cenas semelhantes às que vim a viver com a minha filha, apenas com a diferença dos nomes dos programas e dos canais de televisão, e do computador no lugar dos livros.
Nada mais normal do que as crianças e os adolescentes serem mal ouvistos, não em exagero mas na medida certa.
E os adultos? Também. Acho que os adultos podem e, em alguns casos, até devem ser mal ouvistos. O mais difícil é conseguirem sê-lo com os motivos certos, nos momentos certos e na medida certa.
segunda-feira, maio 23, 2011
Amigados
Na infância proibiram-me a palavra amigo. Uma palavra ondulante, bonita, que aprendera no livro da primeira classe, e que eu senti orgulho em usar pela primeira vez, quando anunciei que um amigo da escola ia lá a casa brincar connosco. Planeávamos fazer manteiga a partir do polén amarelo que saía da flor do pinheiro. Planeávamos procurar ninhos, planeávamos construir uma casa com ramos de acácia e muito mais.
A minha avó e a minha mãe disseram-nos que a palavra amigo não era uma palavra bonita. A pessoa que vinha brincar nessa tarde era, sim, um colega. A palavra colega não tinha problema nenhum e podíamos dizer as vezes que quiséssemos. Amigo, porém, era uma palavra proibida. Uma palavra má.
Matutei naquele episódio durante muito tempo sem chegar a qualquer conclusão. Apalavra era bonita, e ondulava quando se dizia, todas as palavras deviam ser assim, ondulantes. Então, porquê? Mas nesse tempo não se explicava nada às crianças. Era assim e acabou-se a conversa.
A memória desta proibição e a dor de ter sido privada de uma palavra tão bonita durante anos, tornou-se mais nítida quando, há poucos dias, ouvi uma conversa entre um casal de idosos. Conversavam e eu percebi que tentavam esclarecer quem era quem, não faço ideia a propósito de quê. Era uma daquelas conversas dos velhos - velhos também é uma palavra bonita - que, de repente, sentem necessidade de se localizarem num mapa. Lembram-se dos que já morreram, dos que enviuvaram, dos que embarcaram e voltaram, dos que nunca mais viram.
- Aquele que era amigado com a Filha de não sei quem, não sei de onde?
- Esse mesmo. Deixou a mulher e amigou-se com ela, quando arranjou aquele trabalhinho lá em cima.
Amigados. Eram amigados.
Lembro-me mais desta palavra, mas as pessoas também utilizavam amancebados como sinónimo de amigados. Os amigados eram aqueles que juntavam os trapinhos sem a bênção do casamento pela igreja. Eram casos tão raros que de imediato se tornavam no assunto do momento na freguesia inteira e até fora dela, e como pude comprovar, ainda hoje são óptimas formas de identificação de conhecidos e vizinhos de outros tempos.
Uma vez, ouvi numa conversa entre adultos: " O marido da Maria arranjou uma amiga para os lados do Funchal e agora nem sequer vem a casa." Foi talvez o primeiro caso do meu sítio. E presumo que seria ainda pior se fosse ao contrário: "A Maria arranjou um amigo".
Foi por isto que me roubaram uma palavra ondulante e bonita.
Mas. Aquilo que nos tiram, cresce sempre em nós com mais vigor. Hoje, a palavra amigo e a palavra amiga sãos dos maiores tesouros que carrego para todo o lado.
domingo, maio 22, 2011
alguém te perguntou?
- Vou convidar este, aquele e mais outro...e tal, porque eles ajudam-me muito quando eu preciso, porque sempre me dão a mão, são meus amigos...
- Alguém te perguntou quantos anos tens?
A conversa pareceu-me tão a despropósito que fiquei sem saber o que dizer.
- Não sabias desta moda antiga?
Tantas coisas que ainda desconheço! Não, não sabia. Nunca tinha ouvido. O que é que a data dos anos tem a ver com aquilo que estava a ser dito?
- "Nada. Mas era isto que se dizia antigamente, quando alguém se dava à maçada de explicar algo que não lhe tinha sido perguntado."
E pelos vistos a resposta tanto podia ser desta forma interrogativa, como na afirmativa: "Ninguém te perguntou quantos anos tens." Ponto. Ou seja: ninguém está interessado nessas justificações, porque ninguém as pediu. Ponto.
Nesse tempo vivi-se e sentia-se tudo de forma mais simples. Se não fosse feio, eu teria inveja.
sábado, maio 21, 2011
sábado, domingo e segunda
A "- Dizem que não há sábados sem sol..."
B:"- Minha mãe sempre disse: não há sábado sem sol, não há domingo sem missa e não há segunda sem preguiça."
C:"- Eu cá sempre ouvi dizer que não há sábado sem sol, nem há noiva sem lençol..."
Eu conhecia apenas a versão do sábado com sol e da noiva com lençol e fiquei surpresa com este achado. Que engraçado!
Não há sábado sem sol, não há domingo sem missa, não há segunda-feira sem preguiça.
Esta versão, que alarga o ditado até à segunda-feira, coincidindo com a tradição do Dia dos Mestres, é dita em Santo António. A tão curta distância, no Caniço, o dito resume-se ao sábado, ou talvez seja aquilo que sobreviveu do mais completo.
O sol apareceu, naturalmente. Cumprindo a tradição. Caminhamos para a missa do domingo e depois para a preguiça da segunda-feira.
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domingo, maio 01, 2011
o dia dos mestres
Sempre ouvi dizer que a segunda-ferira é o dia dos mestres, mas confesso que ainda não percebi exactamente porquê.
Um colega de trabalho explicou-me que o dito estará relacionado com os trabalhadores da construção civil, que "passavam o fim de semana na venda, na bebedeira e, na segunda-feira ainda estavam de ressaca e trabalhavam muito pouco ou nada."
De acordo com esta versão, a segundo feira seria o dia dos mestres, pelo facto de estes passarem o dia praticamente na vadiação, sem render no trabalho. Assim sendo, tinham uma "folga extra" porque sabendo disso, as pessoas não gostavam de os contratar nesse dia.
Para a minha mãe, a interpretação é diferente e não está relacionada com os mestres da construção civil mas sim com os da obra de vimes, arte a que se dedicavam grande parte dos homens do sítio.
A segunda-feira, sendo o primeiro dia útil da semana, era o dia que os trabalhadores da obra de vimes dedicavam à preparação do material que usariam para os fundos, para as bandejas, os cestos e para todos os objectos que tinham de encomenda.
Chegavam à tenda mais tarde, por volta do meio-dia, e dedicavam-se a aguçar os vimes, colocando-os de seguida de molho no poço que havia para o efeito junto à tenda. No que ficava do dia, iam para casa descansar, às vezes depois de encetar o trabalho tapando uma bandeja. No dia seguinte começariam a sério.
Os mais malandros, tiravam mesmo o dia de folga: só quando chegavam, na terça-feira de manhã, é que ainda iam preparar os vimes e acabavam por só começavar a trabalhar na quarta-feira de manhã. Claro que aos sábados também era dia de trabalho.
No meu sítio, quase ninguém se dedicava à construção civil e esta explicação tem lógica. No sítio da pessoa que me deu a primeira explicação, não era costume fazer obra de vimes. Talvez haja tantas explicações quanto as freguesias ou localidades. Fico à espera de outras.
sábado, abril 02, 2011
puxar pelo focinho
- "Deveras?"
- "Então não! Mas eu mesmo quando lhe disse aquilo era para lhe puxar pelo focinho."
O falar mais, e ainda por cima com brabeza, foi o resultado de algo que fora dito de propósito. Uma verdade que, surgida de repente, dita cara a cara, desmascarando, sem alaridos, a inveja e a mentira da outra parte, feriu e desatou ainda mais uma língua desde sempre habituada à maledicência.
- "Puxei-lhe pelo focinho, sim senhora", acrescentou sem conseguir esconder um sorriso de satisfação. Quando as pessoas não têm razão, ou calam-se ou exaltam-se para lá dos limites. Basta dizer-lhes, serenamente, uma pequena verdade. Sem acusar, sem gritar, sem nada disso. Pode ser uma simples pergunta que toque no lugar certo. Puxar pelo focinho. E depois ficar calmamente a ver a reacção.
Acabo de ouvir a expressão "puxar pelo focinho" e voltei a achar piada a este sinónimo de desafiar, espicaçar e, na minha terra, de "enfuguitar um bespreiro".
Ninguém reage bem a alguém que, mesmo na brincadeira, lhe puxe pelo nariz. Nem sequer as crianças e muito menos os adultos. Haverá reacção pela certa.
Não nos faltam ocasiões para "puxar pelo focinho" de alguém. Na maioria das vezes, porém, fico quieta. Prefiro gastar a energia em actos mais positivos e úteis.
sábado, março 05, 2011
Pensava que já tinha morrido!
Ela ficou espantada com o tamanho da minha menina e até disse que parecíamos irmãs e eu agradeci-lhe o elogio com outro sorriso.
Sentada numa cadeira do corredor, mesmo à entrada do gabinete para onde fazíamos fila, uma mulher olhava atentamente para a minha interlocutora. De repente, exclamou: - Não é a senhora Maria José de lá de cima, mãe do José, que trabalha nos carros do Caniço?
O senhora Maria José abanou a cabeça, exibindo outro dos seus simpáticos sorrisos.
- Sou sim senhora. Dele e de outros. Tenho mais filhos.
A mulher sentada, sem mais demora, continuou: - Ah, eu pensava que já tinha morrido. Ainda hoje quando fosse comprar o passe, tinha a ideia de perguntar ao seu filho se já tinha morrido.
A senhora Maria José não levou a mal e continuava sorrindo: - Quem já morreu foi o meu marido, já há mais de vinte anos.
E a outra, mesmo depois destas explicações, insistia: - Pois eu cá pensava que a senhora já tinha morrido!
Acho que a conversa ficou por aí. E mesmo que tenha continuado, eu já não ouvi mais nada porque chegou à minha vez.
Passei o resto do dia a pensar na naturalidade com que ali se falou da morte. Algo que só as pessoas sábias e antigas conseguem fazer. Antigamente, a morte era enfrentada de forma muito mais natural.
Lembro-me que os velórios dos bebés eram autênticas festas, onde as pessoas se divertiam durante toda a noite.
Lembro-me de a minha avó me ter levado pela mão, ainda bem pequena, a casa do Ti José Miranda, onde o homem estava deitado dentro do caixão, vestido com o seu melhor fato, meias negras com ar de novo, mas sem sapatos.
Lembro-me de ter sido levada pela mão a casa de uma amiga da minha avó, no Cabeço, onde ela tinha ido de visita com o bordado. A certa altura a mulher, idosa, abriu uma caixa de madeira e mostrou-lhe a roupa que tinha guardada para quando morresse. Mostrou a roupa cmo se mostrasse um tesouro. Era um longo vestido branco, como se fosse um vestido de noiva, porque essa senhora nunca tinha casado e merecia entrar no céu vestida de branco.
Tudo isto mostra como a morte era mais natural. Porque toda a gente acreditava em Deus e acreditava no céu.
Por isso é que as pessoas aceitavam a morte com serenidade, e preparavam-se para ela. É urgente voltar a acreditar para viver sem medo.
quinta-feira, fevereiro 10, 2011
Porco gabado
Automaticamente, preparo-me para estender o microfone. Vamos gravar? De que se trata exactamente? Quando se concretizarão essas ideias?
Quem? Como? Quando? Onde? Porquê?
Calma. Alto lá, diria o meu avolito.
Pausadamente, divertido, o meu interlocutor justifica o silêncio: - "Porco gabado não chega à Festa!"
Sem outra alternativa a não ser concordar, divirto-me também e registo a expressão mais certa do que muitas outras. E que é apenas uma maneira bem mais engraçada de dizer que o segredo é a alma do negócio ou talvez que não se deve contar com o ovo no cu da galinha. E o mau olhado? E a invejidade?
Porco gabado não chega à Festa. O melhor é apresentar o trabalho feito e deixar as palavras para depois.
segunda-feira, fevereiro 07, 2011
quem dá o que tem
- Tinha, mas dei. Na altura não pensei que viesse a precisar.
- Pois então, paciência! Nunca ouviste dizer: "Quem dá o que tem, a pedir vem"?
O objecto não interessa, porque podia ser um qualquer. O ditado é que tem piada e talvez venha a ser mais lembrado nesta altura de crise.
É claro que conhecia o dito antigo, mas sem nunca o ter levado muito a sério, talvez pelo meu feitio de não deitar fora coisas que supostamente e remotamente ainda me possam vir a ser úteis. Claro que a falta de espaço acaba por nos tornar mais flexíveis nestas questões. E claro que não é bom ter em casa coisas que não têm uso. E claro que fico contente quando posso oferecer algo que faça mais jeito a outrem num determinado momento. Nem se pensa mais nisso. Nem nada disso está em questão.
O que é para aqui chamado é este ditado antigo, que talvez volte a fazer sentido para muita gente em tempo de vacas magras: "Quem dá o que tem a pedir vem".
domingo, janeiro 30, 2011
alpardinha

Alpardinha é o meu momento preferido do dia. Alpardinha é o momento entre a tarde e o anoitecer em que todas as coisas adquirem uma cor misteriosa e um sossego sem nome. Há um silêncio que parece de espanto. Um silêncio que nos prepara para o descanso da noite mas que nos dá tempo para olharmos para trás e nos despedirmos de um dia que pode ter sido alegre, que pode ter sido triste, que pode ter sido tudo, que pode ter sido nada.
Tenho saudades de percorrer os caminhos da minha terra quando está alpardinha e se ouve aqui um barulho de água correndo numa levada, ali uma porta que se fecha, além um cão ladrando ao dono que chega a casa. Tenho saudades dos momentos entre a tarde e o anoitecer em que todas as coisas adquirem uma cor e um silencioso misteriosos.
Sempre associei alpardinha ao fim da tarde. Mas o meu pai também diz que está alpardinha quando o dia ainda se espreguiça. É alpardinha também esse momento de uma estranha cor, em que o sol ainda não saiu e a noite, preguiçosa, demora em retirar-se. Por uma questão de horários de trabalho, esta é agora a única alpardinha que posso apreciar. Olhá-la-ei com mais atenção. Apesar das saudades da verdadeira alpardinha. As saudades por vezes não nos deixam ver.
sábado, janeiro 01, 2011
Um povice
Lembrei-me da palavra "povice", antigamente muito utilizada para referir aglomerados de pessoas para além do normal.
- Estava um povice!
Se estava! Mas valeu a pena.
Bom ano.
quinta-feira, dezembro 16, 2010
a consciência numa folha de vinha
- "A consciência estava numa folha de vinha, passou uma cabra, comeu a folha de vinha, lá se foi a consciência."
O Quê? É isso mesmo. Esta expressão muito antiga, segundo percebi, é utilizada para reforçar a ideia da ausência de consciência, que se reflecte nas atitudes de uma pessoa em relação aos outros.
A conversa continuou, mas eu já tinha desligado. Pensava na imensa quantidade de folhas de vinha de repente comidas por um qualquer animal que passava. De contabilização impossível!
segunda-feira, novembro 29, 2010
requinquesta e recuesta
Ao quinto dia antes da Festa, o meu avô chamava requinquesta e ao quarto dia chamava recuesta. Seguiam-se a revéspera e a véspera de Festa.
O ensinamento do meu avô ficou bem guardado num cantinho da memória da minha mãe, e há dias, quando nos referíamos aos dias que antecedem o dia de Natal, ela revelou-os. Nunca os tinha ouvido em mais lado nenhum, e questiono-me se outros pessoas usariam as mesmas expressões, ou se ele as teria inventado.
Mas a que propósito o meu avolito inventaria duas palavras? O mais provável é que ele também as tivesse herdado dos seus antepassados. Seja qual o caso, aqui ficam registadas mais duas palavras e eu estou mais rica. Sinto-me afortunada com este tipo de heranças, mais do que se herdasse uma fortuna em bens materiais.
sábado, novembro 13, 2010
a restolhada das galatrixas
As galatrixas fizeram uma restolhada em cima do zinco do telheiro e conseguiram arrancar-nos algumas gargalhadas. A minha filha olhou para mim, depois olhou para o avô, depois para mim: " - Galatrixas? "
Rimo-nos todos e o avô continuou a falar das galatrixas, embora ela lhe explicasse que o nome correcto é lagartixas.
O nome galatrixa levou-me de volta à infância, era assim que ouvia chamar aos pequenos animais que os rapazes da escola conseguiam apanhar pela cabeça fazendo um laço na ponta de uma erva rija comprida. Depois deitavam atrás das raparigas para as assustar.
No campo, muita gente ainda diz galatrixa e não é difícil perceber porquê. Basta dizer as duas palavras para perceber que é muito mais fácil dizer galatrixa do que lagartixa. Este é um fenómeno que acontece também com outras palavras, dizia-se a forma mais fácil e pronto. Para quê complicar? O importante era que os outros percebessem do que se falava. Quem é que não entende o que é a restolhada das galatrixas?
sexta-feira, outubro 29, 2010
quando a maré deita....
- "Ora essa! Quando a maré deita, é que se aproveita!"
E foi assim que, sem estar à espera, fiquei a conhecer mais um ditado madeirense, ouvido na infância do meu interlocutor, nascido e criado no Porto da Cruz.
Quando a maré deita é que se aproveita: as oportunidades devem ser agarradas no momento em que aparecem. Não antes, não depois, mas no momento em que nos surgem à frente. Antes não é o momento certo e depois já o momento passou.
Parece fácil. Parece.
No entanto, nem sempre o ser humano consegue actuar com esta precisão. Enquanto pensa, indeciso, a oportunidade desaparece e normalmente não volta, pelo menos dos mesmos termos. Pior do que isso, muitas vezes não conseguimos reconhecer a oportunidade deitada pela maré. E se não reconhecemos a oportunidade, como aproveitá-la?
A primeira sabedoria é esta: reconhecer o que está à nossa frente.
sábado, outubro 16, 2010
trancas de ferro
Ouvi no meu sítio esta versão do conhecido ditado "Casa arrombada, trancas à porta" e resolvi registar a particularidade. Não bastam as trancas à porta, é necessário uma tranca de ferro.
E isto não se aplica apenas às portas físicas, aplica-se também a outras portas, as mais importantes, que são as nossas portas emocionais.
Mas é pena! Porque as trancas de ferro são difíceis de destrancar, mesmo por dentro.
terça-feira, outubro 12, 2010
destrocar dinheiro na bandejinha da missa
Durante o ofertório, alguém ia circulando entre os presentes com uma bandejinha de vimes e eu gostava de ouvir o tilintar das moedas por entre o côro das orações, quando alguém as atirava com mais força e de uma altura maior.
Quando a bandejinha chegava ao pé da tal senhora, em vez de atirar uma moeda de baixo valor, ela atirava uma maior, ou então uma nota de vinte escudos, daquelas que tinham a imagem do santo António de Lisboa, e começava a remexer em todo o dinheiro da bandeja retirando troco, de forma a que a sua oferenda fosse exactamente o valor que ela decidira.
Aquela operação demorava uma eternidade e ninguém se conseguia aperceber de quanto ela retirava realmente da bandejinha de vimes onde todas as outras pessoas tinham colocado o seu humilde contributo. De maneira que as pessoas suspeitavam - ou talvez não, talvez dissessem aquilo devido ao curioso da situação apenas - que ela talvez tirasse mais do que colocava. Quem sabe?
O meu olhar de criança fixava-se nas mãos da mulher escolhendo troco e eu não percebia. Se a bandejinha era para colocar dinheiro porque é que ela o retirava? Já no longo caminho de regresso a casa, a minha mãe explicava-nos a tal operação do destrocar.
Lembro-me sempre disto naquelas situações - que infelizmente não são poucas - em que por trocas e baldrocas a pessoa que supostamente está a dar, acaba ficando com mais do que aquilo que deu. Vejo alguém convocar toda a comunicação social para a entrega de um donativo e lá está, na minha memória, bem viva, a imagem da mulher que destrocava o dinheiro na bandejinha da igreja.
segunda-feira, outubro 11, 2010
uns peneirinhos
Esta desculpa foi usada para cancelar um compromisso, ou alterá-lo talvez, não tenho a certeza. Sei que os peneirinhos foram responsáveis pela mudança de planos de alguém que falava ao telefone junto à tabacaria, quando ali passei.
Deduzi que os peneirinhos eram nada mais nada menos do que a bezegaiazinha que caía nesse momento. Uma chuvinha muito fina, como se a chuva fosse peneirada algures no céu e à terra chegassem uns fiozinhos muito finos, tão finos que quase não molham.
Estamos no Outono e estas chuvinhas finas fazem parte da época. Nunca tinha ouvido serem chamadas de "peneirinhos", mas faz todo o sentido, então não!
Os peneirinhos deixam a paisagem lavada e brilhante. O Outono é bonito, escrevia eu no caderno de redacções, porque as folhas das árvores ficam com cores bonitas e caem no chão.
O frio ligeiro torna-se aconchegante porque apetece mais estar em casa com uma manta à volta dos joelhos e apetece mais tomar chá e até apetece bordar e apetece ler e parece que há mais tempo para falar com as pessoas. O tempo é uma ilusão, eu sei que o tempo é um fato à medida e por mim ele continuará a tornar-se maior no Outono, mesmo sendo os dias bem mais pequenos. Os peneirinhos têm de tornar-se em chuva a sério quando tiver de ser, é essa a lei da Natureza. Só espero que tudo aconteça com conta, peso e medida.
domingo, outubro 10, 2010
não dizer batatas duas vezes
Este foi sem dúvida o dito mais engraçado que a minha memória registou nos últimos tempos.
É muito mais do que engraçado, chega a ser delicioso, e é utilizado para fazer referência às pessoas que tentam armar-se em mais do que aquilo que são.
A explicação é muito simples: uma pessoa que se quer fazer mais erudita do que na realidade é, tenta dizer batata em vez de semilha, partindo do pressuposto de que semilha é o termo do povo, usado pelas pessoas de menos instrução.
Mas quando as coisas são forjadas em vez de naturais, normalmente não correm bem. à segunda, sai semilha onde devia sair batata e entorna-se o caldo, melhor dizendo-se descobre-se o engano e o que sobressai é o ridículo da situação.
Nada como cada um ser aquilo que é. Mas quando a sociedade dá mais valor à aparência do que à essência, é muito difícil resistir à tentação de tentar parecer. É de tal forma difícil, que todos aqueles que dizem batata à primeira e semilha à segunda merecem a minha compreensão e solidariedade.
segunda-feira, setembro 27, 2010
pragas e prissões
- "Minha mãe sempre dizia que pragas são como prissões". As coisas que a minha avó sabia!
- "Ora porquê? As prissões saem de um lugar, dão a volta e vão ter outra vez ao mesmo lugar." Imagino a procissão da padroeira, ao ritmo do hino da banda, mas logo me concentro no resto da explicação: - "Quem roga pragas, elas acabam por vir ter com a pessoa, como as prissões."
Na minha terra as pessoas mais antigas ainda dizem "prissão" em vez de procissão, penso que por uma questão de economia.
Nunca tinha ouvido este dito que compara as pragas às procissões, mas se a minha querida avó que Deus a tenha o dizia é porque deve ser verdade. A comprová-lo existem vários provérbios talvez mais modernos como "quem faz mal ao seu vizinho, o seu já vai pelo caminho" e aquele outro bem mais utilizado de "virar-se o feitiço contra o feiticeiro."
quinta-feira, setembro 02, 2010
fazer ramelas
Não sei o que é que as ramelas têm a ver com a inveja, talvez o ponto de ligação seja o olhar, tal como na crença popular do "dar olhado"que é afinal uma forma de invejar, tão forte que acaba por causar mal à outra pessoa.
"Fazer ramelas" é uma inveja bem mais inocente e que até pode ser levada na brincadeira, pelo menos é essa a impressão que me ficou de todas as vezes que ouvi a expressão.
Às vezes digo quem me dera isto, quem me dera aquilo, gostava disto e daquilo, queria a, b, ou c. Mas pensando bem há bem poucas coisas que me façam ramelas. Talvez nenhuma. O ter faz na verdade pouco diferença; o SER é que faz a diferença toda.
terça-feira, agosto 31, 2010
o sustento e o ensino
Agarrei a frase no ar, fora de contexto, quando passava junto às duas mulheres que conversavam dentro de uma loja. Apercebi-me que falavam sobre uma criança. Provavalmente a propósito de alguma birra ou cena de má educação. Talvez a tivessem presenciado, quem sabe?Talvez eu a tenha perdido por instantes.
- "Quem dá o sustento, dá o ensino".
Agarrei no ar o antigo ditado que mantém uma actualidade indiscutível e decidi de imediato que merecia ser registado e metido pelos olhos dentro de muitos pais que hoje pensam que basta dar o sustento, e que o resto fica com os outros, não importa se é a televisão, o computador, a escola, os colegas, os avós ou sei lá que mais.
- "Quem dá o sustento, dá o ensino." Ensino no sentido de educação, de valores, de ideiais. As crianças não precisam de ter todos os jogos que same no mercado nem todos os últimos modelos de telemóveis nem as roupas de marca que entenderam. Sem isso vivem bem. Mas não vivem bem sem o ensino. Assusta-me ver tanta gente a pensar o contrário e a fazer o contrário do ditado que apanhei no ar, fora de contexto, quando passava junto a duas mulheres que conversavam dentro de uma loja.
domingo, agosto 29, 2010
nascer ao domingo
Quem nascesse ao domingo tinha assegurada uma espécie de protecção especial: nenhum mal ou bruxaria poderia afectar a pessoa ao longo da vida.
Não sei se isto é verdade.
Só sei que nasci num sábado, mais um bocadinho e estava lá.
terça-feira, agosto 24, 2010
rabalhusca
Os modos rabalhuscos, dependendo de onde vêm, e das circunstâncias em que acontecem, conseguem deixar-me ora triste, ora irritada, ora furiosa. Gostaria de conseguir fazer como a minha avó, de me rir muito e achar piada.
Porém ela já não está cá para me ensinar como se faz isso.
quinta-feira, agosto 19, 2010
quem fala sozinho
- "Tem dinheiro no banco!"
- "Como?"
-" Tem dinheiro no banco".
E eu sem perceber.
-"Então nunca ouvi este dito antigo? Já minha avó dizia: "Quem fala sozinho tem dinheiro no banco!"
Ao lado, outra pessoa confirma: "É verdade, sim senhora, minha avó dizia a mesma coisa. Não me diga que nunca tinha ouvido, e gosta tanta destas coisas!"
É verdade. Gosto destas coisas mas nunca tinha ouvido este dito, que engraçado! Porquê? Qual a relação entre falar sozinho e ter dinheiro no banco?
- "Olhe, também eu fazia essa pergunta a minha avó, mas ela nunca soube me responder. Era uma coisa que ela já ouvia dos pais dela..."
Talvez as pessoas que tinham mais posses tivessem tendência a falarem muito consigo mesmas, deitando contas à vida, fazendo as contas do dito dinheiro, enquanto as outras, sem posses nenhumas, iam vivendo o dia a dia sem contas para fazer. Quem sabe?
quarta-feira, agosto 18, 2010
Quem não poupa nem herda
Hoje não resisto a registar um provérbio que ouvi recentemente e diz assim: "Quem não poupa nem herda, não tem senão merda." No tempo em que o ditado foi inventado talvez fosse verdade, mas hoje todos sabemos que não.
Poupar e herdar já não são as formas mais habituais de ter algo de seu. Bem pelo contrário: Quem mais tem normalmente nem herdou, nem poupou e muitas vezes nem trabalhou.
Eis um bom exemplo de evolução da língua e dos costumes, em que os sábios ditados de outros tempos ficam totalmente desactualizados.
terça-feira, agosto 17, 2010
O enjoo do fumo
Enjoo é um mal-estar normalmente com vómito, uma náusea, aquilo que muitas mulheres sentem durante o início da gravidez, aquilo que muitos sentem ao viajar de barco. Mas esse sentido só aprendi muito depois de ter aprendido o outro, o que a mulher do Ribeiro Serrão, ainda com a voz assustada, usou para se referir ao mau-cheiro. Na minha infância, enjoar era cheirar mal e não havia mais conversa. Enjoar também pode ser utilizado com sentido figurado, já ouvi e já usei. Por isso digo que não se suporta o enjoo do fumo nem se suporta o enjoo de tantas outras coisas, que não vale a pena aqui mencionar, para bom entendedor meia palavra basta.
segunda-feira, agosto 16, 2010
uma gavela de bicharada
Logo reparo em mais esta palavra da infância, a palavra gavela. A minha contava que quando ia ganhar dias na ceifa, nas chamuscas, fazia gavelas de trigo que mais tarde era debulhado na eira. Uma gavela é portanto uma mão-cheia, um punhado de espigas cortadas, amarrado com uma das palhas. Mas como acontece com muitas outras palavras, o sentido alarga-se a outras situações. Uma gavela passou a significar uma determinada quantidade, que não sei precisar e dependerá de quem utiliza a expressão. Uma gavela de bicharada serão quantos animais? Coitado o homem! Mesmo que fosse só um.
Maldito Lume!
domingo, agosto 15, 2010
Está tudo abrasado!
Sentia-se o desespero na voz da mulher que descrevia assim a paisagem à sua volta, depois de uma noite inteira a tentar salvar uma casa humilde das chamas.
-"Está tudo abrasado!"
Lembrei-me que na infância também usava a palavra "abrasado", em vez de queimado. Está correcta mas não sei proquê caiu em desuso.
Tocávamos numa coisa quente e dizíamos: - "Abrasei-me". O sol estava muito quente e dizíamos que estava abrasando.
Graças à mulher do Sítio do Ribeiro Serrão que descrevia assim o que via à sua volta, lembrei-me desta palavra-memória. Gosto de me lembrar. Mas não assim, por motivos tão negros. Preferia tê-la esquecido para sempre.
quarta-feira, agosto 11, 2010
O gófio da Ti Joaquina
A minha bisavó Joaquina fazia gófio com centeio, que semeava, mondava, ceifava, malhava. Antes de levar ao moinho os grãos de centeio, a minha bisavó Joaquina que eu só conheço através destas memórias, torrava-os numa panela. Era por isso que a moleira ficava muito aborrecida quando a via chegar com o seu saco de centeio; as pedras do moinho ficavam sujas, que grande aborrecimento! Então a minha bisavó levava também um saquinho de trigo, para ser moido no final, assim as pedras do moinho ficavam tão limpas como estavam.
A farinha de centeio era deitada dentro de um alguidar, enquanto a minha bisavó fazia à parte, na panela de ferro colocada sobre o lar, um guisado com muita cebola, tomate, feijão e outros legumes, bem temperado como só ela sabia e mais ninguém.
Quando o guisado ficava pronto, deitava todo o conteúdo da panela para dentro do alguidar e amassava-o juntamente com o centeio, até ficar com a consistência ideal. Então, enquanto as crianças davam carreiras, entrando e saindo da cozinha e se acotovelavam à volta dela, aguardando o almoço, a Ti Joaquina fazia bolas redondas com a mistura do alguidar. Este prato é o que a minha mãe guarda como o mais saboroso de toda a sua infância.
Todos sabemos que os sabores da infância têm um sabor único apenas se não voltar a haver oportunidade de se repetirem. E felizmente foi o que aconteceu com o gófio, um prato que julgo não ser confeccionado há muito tempo na Madeira, pelo menos nunca o vi em lugar nenhum nem ouvi falar dele a não ser nestas memórias maternas.
O gófio deve ter sido trazido para a Madeira por influência das Canárias, onde também não o provei mas sei que é um prato tradicional e onde há cerca de 20 anos aprendi a seguinte quadra do folclore popular: "Isla de Fuerteventura/isla donde naci yo/isla de gofio e tarena/y de bon mojo picon."
terça-feira, agosto 10, 2010
Seis anos de Rabo do Gato
Muitas pessoas me perguntam porque não publicar estes textos em livro. Porque não? Esse continua a ser um objectivo mas dá tempo. Então não! O mais importante é continuar a registar. A minha memória fervilha de palavras e de histórias e espero daqui a um ano estar novamente aqui a fazer referência ao aniversário do blogue. OBRIGADA A TODOS pela leitura e pelo incentivo.
terça-feira, maio 25, 2010
"O Rabo do Gato" no Colóquio "O Património Cultural Imaterial de Machico"
É algo a que não estou habituada e confesso que quando me fizeram o convite hesitei em aceitar. Acabei por aceder, sobretudo por respeito para com os leitores fieis deste blog, mas também porque das trocas de impressões ficamos sempre mais ricos e porque conhecendo este trabalho talvez outras pessoas se enstusiasmem e passem a registar mesmo aquilo que parece insignificante mas faz parte da nossa cultura tradicional.
Convido os leitores do "Rabo do Gato" a participarem. O colóquio engloba muitos outros temas e oradores e terá início às 9.00 no Fórum Machico.
As inscrições são gratuitas mas devem ser feitas para o telefone 291964118, do Solar do Ribeirinho.
Obrigada a todos.
segunda-feira, maio 10, 2010
uma inficância!
Conheço este termo desde criança e ainda há bem pouco tempo voltei a ouvi-lo no meu sítio. Fazer uma inficância é demonstrar grande entusiasmo perante algo. Mostrar-se contente, mostrar-se interessado, dar largas à sua satisfação.
Curiosa, apostada em tentar desvendar a origem desta expressão, perguntei a algumas pessoas de outras zonas se a conheciam e até agora ninguém me respondeu afirmativamente.
Talvez noutros locais a inficância tenha nome diferente, é o mais provável, ou talvez seja inficância também mas o termo esteja esquecido já. Não interessa.
O que interessa verdadeiramente é que haja sempre motivos para "fazer uma inficância", o nome que se lhe dá é o que menos conta.
sexta-feira, abril 30, 2010
o mocinho da cesta
Segui-lhe o gesto e percebi logo. Um dos patinhos da ninhada era visivelmente mais pequeno e frágil do que todos os outros.
Segundo a explicação da minha mãe, entre os muitos filhos das famílias de antigamente havia sempre um mais pequeno e desajeitado do que os outros, a quem chamavam o moço da cesta. Talvez por ser aquele que, não tendo tanta força para o trabalho, acabava ficando com a incumbência de fazer os recados e de levar o comer ao pai e aos irmãos, por exemplo.
Ora, nada mais simples do que aplicar a um pequeno pato um dito originalmente usado para pessoas. Tal como ao contrário também não seria de espantar. Uma das muitas características interessantes do falar popular é precisamente esta elasticidade.
quinta-feira, abril 29, 2010
o estrapagado
A minha mãe conta que os estrapagados se ouviam em especial na altura em que as faveiras estavam em flor, e causavam logo o pânico no sítio.
O estrapagado tinha o dom de anunciar a morte.
Quando o ruído característico do estrapagado se ouvia numa qualquer noite sossegada, todos temiam o que estava para vir: "- Quem será que vai morrer?"
A minha mãe lembra-se muito bem de um estrapagado que certa noite pendeu a bater contra as janelas da enfermaria onde estava internada, na clínica ortopédica do Lazareto. No dia seguinte, sem nada o prever, sem mais nem menos, morreu uma senhora dessa enfermaria, por sinal aquela que mais se sentiu incomodada com a presença do bicho durante a noite.
Que terá acontecido aos estrapagados? Eu nunca ouvi nenhum, não sei sequer reconhecer o seu canto na noite. Mas de vez em quando, quando chega a sua vez, as pessoas morrem na mesma.
quarta-feira, abril 28, 2010
da mesma brónica
Percebi a ideia mas não lhe consegui encontrar um sinónimo, uma única palavra que dissesse tudo isso. Este é um dos motivos pelo qual sobrevivem certas particularidades linguísticas, porque têm utilidade. Devido à sua precisão, poupam palavras e mais explicações. São palavras económicas.
Disseram-me: "Elas são da mesma brónica" e eu fiquei esclarecida, não precisei de perguntar mais nada, e a conversa seguiu o seu caminho.
Nem sempre temos esta a capacidade de usar as palavras: usamo-las em demasia e querendo dizer muito dizemos muito pouco ou não dizemos nada.
terça-feira, abril 27, 2010
...não azeda
O senhor exclamou, em tom paternal: "Ah, Não azeda!" A senhora, complementando a expressão do marido, disse: "Põe no frigorífico!"
Foi tão engraçado que não resisto a colocar aqui as duas expressões, cada uma remetendo para uma época diferente.
Lembro-me perfeitamente de não termos frigorífico em casa, e da atentação da minha mãe com a comida pois esta azedava facilmente, sobretudo nas épocas de mais calor. No Verão não valia a pena guardar nada de uma hora para a outra porque azedava.
Ora, o trabalho de casa não azeda. Há tanta coisa que pode ser deixada para mais tarde, simplesmente porque há coisas mais importantes. No caso em questão, que poderia ser mais importante do que aquela agradável troca de palavras com quem não falava há muito?
O senhor lembrou-se do dito antigo e a senhora acrescentou-lhe um toque de actualidade: "Põe no frigorífico!"
Que Deus nos dê a todos a sabedoria de perceber o que não azeda e o que pode ser colocado no frigorífico.
segunda-feira, abril 26, 2010
dar doces
O incómodo que sentia por estar a ouvir uma conversa alheia sem querer, dissipou-se com este achado inesperado. Ao tempo que eu não ouvia a expressão "dar doces"! E que bom foi ouvi-la assim, usada no contexto de uma conversa do dia-a-dia, viva.
Recordava-me mais da expressão na afirmativa, tornando-se a ironia perceptível através da entoação dada à frase. "Eu vou te dar doces" significa na verdade "eu não vou te aturar, não vou fazer as tuas vontades" e julgo ser equivalente à expressão "eu vou te dar troco!" já referenciada neste blogue.
quarta-feira, abril 21, 2010
amar e padecer
"Quem se põe a amar, põe-se a padecer." A sentença assentou que nem uma luva e aligeirou a conversa. Muito bem visto.
Quem ocupa um cargo de poder está sujeito a inúmeras e inevitáveis criticas, tal como quem ama está sujeito ao sofrimento.
São consequências previsíveis e que ninguém desconhece. Cartas na mesa. Nada na manga. Claro como água. No entanto, quase todos aspiram ao poder e todos sonham com o amor.
quarta-feira, março 24, 2010
uma semana à espera do sarampo
Acreditando que mais tarde ou mais cedo o sarampo havia de lhe pegar, o meu tio passou uma semana à espera da doença, alimentando a esperança de tomar leite de vaca como os outros. O leite de vaca, comprado ao leiteito que passava todos os dias de manhã pelas casas com as folhas e as medidas enfiadas num cajado, era um verdadeiro luxo, só permitido quando uma pessoa estava fragilizada por uma qualquer doença e precisava de cuidados suplementares na alimentação.
Os meus avós tinham uma cabra de leite, mas também tinham uma casa de gente, dez pessoas no total, o leite da cabra não chegava para todos e além do mais havia alturas em que a cabra não dava leite ou dava muito pouco.
Demasiado atento a qualquer sinal que pudesse indiciar a chegada do sarampo, o meu tio sentiu um dia uns ligeiros tremores de frio. Não fez mais nada: meteu-se na cama, satisfeito, e foi daí, de entre os lençóis e as mantas, que gritou para o leiteiro, quando o sentiu passar no terreiro, que deixasse mais um litro de leite.
Mas às vezes as pessoas têm azar e a verdade é que os tais tremores foram um falso alarme e o meu tio José Manuel nunca chegou a ter o sarampo nem pôde, pelo menos nessa altura, beber o precioso leite de vaca vendido pleo leiteiro de porta em porta.
Claro que esta história nunca foi esquecida. Durante muito tempo os meus outros tios e tias, e até os vizinhos, gozaram com o meu tio José Manuel graças a ela. E claro que a história passou a ser lembrada sempre que alguém se põe à espera de algo que muito provavlemente não vai acontecer, e espera por ela com tanto afinco como o do meu tio José Manuel, na sua longa espera de uma semana.
domingo, março 21, 2010
lagarto pintado
primeiro à minha, depois à da minha filha, depois à dos meus sobrinhos.
"Assim, segura com cuidado as minhas orelhas, estás a ver? assim como eu seguro as tuas." Sinto as mãos pequeninas segurando as minhas orelhas, um pouco trémulas da excitação provocada pela nova brincadeira.
É difícil começarmos o jogo porque nos rimos e de repente já não temos as mãos nas orelhas, no sítio certo para puxar quando for a altura certa. Agora. Os corpos balançam lentamente, ao ritmo da melodia, para trás e para a frente, enquanto os braços se encontram ao meio, cada uma agarrando as orelhas da outra:
Lagarto pintado
quem te pintou
foi uma velha
que por aqui passou
No tempo da eira
faz poeira
puxa lagarto
por esta orelha
Puxa, agora! Mas sem magoar. Mais. Puxa lagarto por esta orelha!
"- Mais uma vez, mais uma vez, vá lá." E eu cedo, depois de fingir que não, depois de dizer que já chega da brincadeira; cedo e ela volta a encaixar-se no meu colo, virada para mim, com as pernas para trás das minhas costas, em posição de puxar pelas orelhas. Rimos. Acertamos outra vez as mãos nas orelhas, sincronizadas e lá vamos: "Lagarto pintado, quem te pintou?..."
segunda-feira, março 15, 2010
Cura de Aranha ou Bicho
As pessoas recorriam à cura de aranha, quando lhes surgiam erupções cutâneas de que não sabiam a origem, havendo a possibilidade de se tratar de mordidas de aranha ou de outro bicho.
"Nas horas de Deus e da Virgem Maria eu te curo de aranha, aranhão, safanhão, cancro ou de lapa, impinja carnal, impinja rabija e rabisca patarisca e toda a qualidade de bicho que tu és, eu te corto: os teus raios, as tuas veias, as tuas linhas, as tuas unhas, os teus dentes, os teus parentes, os teus netos, os teus bernetos, a tua cabeça, os teus pés, o teu bofe, o teu fígado, o teu coração e toda a tua geração e tu não cresças nem permaneças mais no teu corpo, (diz-se aqui o nome da pessoa que está a ser curada)."
Informador: José Isidro da Silva Nóbrega
domingo, março 14, 2010
a saia de fora
A saia de dentro devia ficar totalmente escondida pelo vestido ou pela saia-de-vestido, mas acontecia por vezes que uma ponta, normalmente de renda, sobrava na roda do vestido e ficava à vista de toda a gente. Dizia-se então que o marido, noivo ou namorado dessa mulher namorava outra.
Assim sendo, era preocupação de todas as mulheres que a saia ou combinação ficasse sempre mais curta, que esta nunca espreitasse pela beira do vestido. Elas olhavam por cima do ombro, pediam por vezes às irmãs ou amigas que confirmassem se estava tudo como deve ser. Claro que não era só pela superstição, era também porque a saia de fora do vestido dava a impressão de se tratar de uma pessoa mal arranjada.
As saias - combinações segundo o nome fino - foram abolidas definitivamente do guarda-roupa feminino há muitos anos e não me deixam grande pena. Nem sequer pelo seu poder de adivinhar uma traição, ao se tornarem visíveis por debaixo do vestido ou da saia-de-vestido.
sexta-feira, março 12, 2010
cair em graça ou ser engraçado?
Cair em graça é daquelas coisas que valem mais do que ouro. Cair em graça nada tem a ver com o facto de ser ou não ser engraçado, é algo que simplesmente acontece e normalmente beneficia alguém sem que as razões sejam muito claras para os outros. Cair em graça é um dos mistérios que sempre existirão quando em causa está o relacionamento entre as pessoas.
Há quem tenha jeito para cair em graça, e há quem não tenha jeito nenhum. Eu diria que cair em graça é uma espécie de segunda sorte. Uns caem, outros não caem e nesse equilíbrio de forças vai girando o mundo.
quinta-feira, março 11, 2010
a capruça do velho
Olha um velho sem capruça"
A rima é uma dos aspectos mais importantes da nossa tradição oral e esta espécie de lengalenga que guardo da infância é uma prova de que à rima tudo se pode sacrificar.
"Credo, Cruzes Abrenuncia" é uma expressão usada para repelir o mal, para afastar o diabo. Aprendi a acrescentar-lhe mais um verso: "Olha um velho sem capruça." Qualquer expressão servia de pretexto para mais uma pequena lengalenga.
Roubou-se um "i" a "Abrenuncia" , que passou a rimar com capruça, uma forma deturpada de dizer carapuça.
Tenho a ideia de sempre ter ouvido dizerem capruça, e nunca a forma correcta da palavra: Carapuça. A troca de letras ou de sílabas é um fenómeno muito comum no falar popular. Há poucos dias, por exemplo, voltei a ouvir carmuça em vez de camurça. Carmuça é a forma popular de dizer camurça. A troca de lugar de uma simples letra torna a palavra mais fácil de dizer, disso não há qualquer dúvida.
quarta-feira, março 10, 2010
carotos ou caragas?
No meu Sítio as rãs chamam-se carotos, nunca lhes conheci outro nome. A palavra rã, aprendida no livro da primeira classe numa qualquer lição, soou-me à coisa mais estrambólica do mundo. Porque raio haviam de chamar rãs aos carotos? Não tinha jeito nenhum, pensava eu com os meus botões no caminho de regresso da escola.
A palavra continuou a fazer parte dos livros, mais uma curiosidade das muitas que povoavam o mundo em descoberta. A ameaça revelou-se passageira porque em casa todos continuavam a dizer carotos, graças a Deus.
Há poucos anos, fiquei a saber que no centro do Caniço se chamam caragas às rãs. Fiquei tão surpreendida como a pessoa que me revelou esse facto, com a existência de dois nomes diferentes, com géneros diferentes, dentro da mesma freguesia, a uma distância de poucos quilómetros.
É um facto: na parte norte do Caniço, no Sítio da Ribeira dos Pretetes, as rãs são carotos. Nas partes mais baixas da freguesia, as rãs são caragas. Desconheço a origem de uma e de outra palavra e não tenho qualquer tipo de justificação para a diferença. Deixo-me apenas deslumbrar por esta riqueza linguística e sinto que todos os dias este trabalho que iniciei há quase seis anos ganha um novo sentido.
terça-feira, março 09, 2010
um pezinho de fora da algibeira
Ora, aos mais pequenos dizia-se que era a Ti Refininha (diminutivo de Rufina, pronunciado com um "e" no lugar do "u") quem trazia os bebés dentro da algibeira e disso estavam convenciadas todas as crianças. A Ti Refininha era a cegonha desses tempos!
Um dia, a Maria Lurdes da prima Ali encontrou-a algures no caminho e quando chegou a casa anunciou: "- Encontrei a Ti Refininha, que ia entregar um bebé. Eu vi um pezinho de fora de algibeira. " Acharam todos muita graça e nunca mais se esqueceram da história.
Passando de boca em boca no Sítio, a história do pezinho de fora da algibeira acabou por adquirir um estatuto de ditado, adequado à situação em que as pessoas julgam ter visto algo que na verdade não viram.
Foi assim que o ditado e a história vieram à baila, quando recentemente se comentava num serão familiar os muitos boatos que surgiram logo após o temporal. Eu dizia que muitas pessoas falavam de factos que não se conseguiam comprovar, com base em algo que tinham ouvido dizer a alguém que por também tinha ouvido de alguém. Teria alguém realmente visto?
De um canto da mesa, quebrando um súbito silêncio, a minha mãe contou a história da Maria Lurdes da Prima Ali e do pezinho que jurara ver de fora da algibeira da Ti Refininha. Uma história deliciosa, que vem enriquecer este blog.
segunda-feira, março 08, 2010
mal empregado
Num primeiro sentido, mal-empregado é um lamento por algo que não deveria ser dessa maneira. Recordo uma quadra em que se percebe bem a utilização de "mal-empregado" com esta intenção.
"O Manuel da vizinha
embarca segunda-feira
mal-empregado rapaz
ir da ilha da Madeira".
Num segundo sentido, mal empregado é uma expressão usada para demonstrar vingança. Algo não correu muito bem a determinada pessoa e alguém, contente com o infortúnio alheio, exclama: "Mal empregado". É outra forma de dizer que é muito bem feito, que não sente pena nenhuma pelo sucedido, que a pessoa merecia essa e quem sabe outras chatices. Naturalmente o tom de voz denuncia esse sentimento negativo.
Gosto mais do primeiro exemplo da expressão "mal-empregado", mas a outra também existe e não posso fazer de conta que não. Afinal, toda a nossa vida está cheia de dualidades, de situações e de sentimentos ambíguos, de imensas contradições. Mal empregado!
sexta-feira, março 05, 2010
comer o morgado
Chamava-se "morgado" ao primeiro ovo posto por uma galinha e acreditava-se que a sorte bafejaria a pessoa que o comesse. Como se sabe, o morgado era o filho mais velho, o primogénito (e em muitos casos único herdeiro da fortuna da família) e julgo que fica clara a intenção ao utilizar a mesma palavra para designar o primeiro ovo de um galinha.
No tempo dos meus avós, em que todas as famílias tinham um galinheiro junto à casa e acompanhavam diariamente a vida das galinhas, dos galos e dos bisalhos, era bem possível socorrer-se deste estratagema para chamar a sorte.
Hoje os ovos compram-se no supermercado, ninguém sabe onde pára o morgado. Perdeu-se, por culpa o progresso, uma antiga crença. Mas o pior é ter-se perdido de vez um potenciador da sorte, afinal a sorte nunca é demais e todos precisamos dela.
quinta-feira, março 04, 2010
mal empregado tempo
mais vale chuva que vento
Ah tempo mal empregado
Ah mal empregado tempo"
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, no dia 2 de Abril de 1986.
quarta-feira, março 03, 2010
outorgar
- "Ela outorgava muito a gente."
Há muito tempo que não ouvia a palavra outorgar usada desta forma. Este "outorgar" significa dar ouvidos, dar atenção. Esta memória tão bem guardada comprova a importância de ouvir os outros, de ter disponibilidade para as pessoas. Sei pouco dessa mulher a quem se referiam na conversa, mas sei que outorgava as raparigas e elas, agora com mais de 70 anos, não o esqueceram.
terça-feira, março 02, 2010
a retrete do cose-botas
A retrete do Cose-Botas era ao estilo da que existia em casa dos meus avós: uma casinhota de madeira do mais simples, com duas tábuas no chão, onde as pessoas se equilibravam, meio levantadas, meio agachadas, para fazerem as suas necessidades. Estas mantinham-se ali em baixo, até serem lavadas de vez em quando. Não sei se devido ao muito trabalho que dava cozer as botas do sítio, se apenas por malandrice ou descuido, esse era um hábito que o homem parecia não ter. A casinha ficava ao pé da vereda estreita e chamava a atenção de quem passava o facto de estar tão cheia, a chegar acima, tão cheia que metia dó, para não dizer outra coisa.
As pequenas de cá de cima repararam naquilo quando foram levar botas a cozer e é claro que transformaram o caso num motivo de conversa e daí a nascer um novo ditado, ainda hoje em uso, foi um pequeno passo. Sempre que viam alguma coisa demasiado cheia, diziam: - "Olha, parece a retrete do Cose-Botas." E levavam a expressão a um tal extremo que até de um prato de comida demasiado cheio diziam que parecia a retrete do Cose-Botas, imagine-se!
Este homem que não cheguei a conhecer coseu botas algures nas Fontes mais ou menos há uns sessenta anos e não sei mais nada dele. Sei apenas que qualquer coisa que se apresente demasiado cheia parece a retrete do Cose-Botas. A expressão continua a ser usada na zona do Pomar, também conhecida por Achada do Capitão.
sábado, fevereiro 20, 2010
uma pena no peito
Não é pena de galinha
Dá-lhe o vento não avoa
Não há pena quem'a minha
Tenh'uma pena no peito
Não é pena de pavão
Dá-lhe o vento não avoa
Dá-lhe a chuva não cai ao chão
Quadras de um fado, recolhidas no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, em 1989
sábado, fevereiro 06, 2010
o levadeiro
Os homens apinhavam-se à volta do porco, acabado de trazer o chiqueiro à força. O marchante disse que deixassem o animal descansar um bocado, e essa breve pausa na função da morte do porco, foi logo aproveitada para uma primeira rodada de vinho seco.
- "E quem é que vai ser o levadeiro?"
Um deles adiantou-se, pegou no garrafão e no copo e começou a distribuição. Estava eleito o levadeiro do dia, aquele a quem caberia de vez em quando medir rodadas de vinho, e servi-las a todos os homens convidados para ajudarem na morte do porco num dia já tão afastado da tradição das vésperas da Festa.
Este levadeiro tem a responsabilidade de assegurar que nenhum dos presentes fica de goelas secas muito tempo, é um cargo importante e imprescindível uma "morte do porco", tal como antigamente eram imprescindíveis os outros levadeiros, os que trabalhavam dia e noite nas levadas de verdade, zelando para que a distribuição se fazia de forma correcta e às horas marcadas.
Como existiam horas de rega nocturnas, tinha de ser, o levadeiro permanecia junto ao entalhador da levada e à hora exacta tapava a água para o sítio correcto. Contam-me que tocava numa corneta, para alertar os regantes de que estava na hora de irem buscar a sua parte da água.
O levadeiro tinha a responsabilidade de cumprir à risca a divisão da água, numa altura em que esta era essencial para assegurar o sucesso das colheitas e, logo, a subsistência de praticamente todas as famílias nas zonas rurais.
O outro levadeiro, o cargo que hoje fiquei a conhecer por estar numa "morte do porco", tem tambem um caro de responsabilidade. Se não houvesse vinho seco, distribuído de vez em quando, num tempo quase cronometrado, não muito perto e não muito distante da vez anterior, pelo "levadeiro", teriam conseguido reunir oito homens para ajudar na morte do porco?
domingo, janeiro 31, 2010
o filho do ferreiro
- "Isto é como a história do filho do ferreiro".
Enquanto eu me aventurava devagar por entre o nevoeiro, fiquei a saber que nessa história antiga de que a minha mãe não se lembra senão uma pequena parte, havia várias pessoas que tentavam descer num buraco, mas ninguém conseguia porque iam aparecendo muitas coisas estranhas e assustadoras. Desciam num cesto equipado com uma campainha, que tocavam para que os puxassem para cima. Até que o filho do ferreiro decidiu resolver o assunto e disse: "Quanto mais eu tocar à campainha, mais vocês me empurram para baixo."
E assim foi: ele tocava, tocava porque queria que o puxassem para cima, tocava porque não aguentava mas eles cumpriam as ordens e davam mais folga à corda para que ele descesse ainda mais.
Cruzamo-nos com um carro em sentido contrário, já na descida do Areeiro e a minha mãe exclama: "Olha, outros filhos do ferreiro".
Acabei por inverter a marcha mas continuámos a falar do famoso filho do ferreiro. "É uma história tonta. Ele chega a um lugar que tem feiticeiras, depois acho que chega a outro onde está o diabo." Parece que nesse lugar todos eram obrigados a beijar o cu ao diabo e aí se desenvolveram as muitas aventuras do filho do ferreiro.
A história perdeu-se mas a metáfora continua a ser usada na perfeição, para situações adversas em que as pessoas insistem em continuar caminho, numa teimosia digna do herói do conto popular.
quarta-feira, janeiro 20, 2010
caçoar ou fazer caçoada
Tudo o que o senhor dizia tinha graça e as pessoas à volta acabavam por esboçar sorrisos, embora estivessem aborrecidas com o que estava a acontecer.
Há pessoas com este dom, graças a Deus! As pessoas que fazem caçoada conseguem passar melhor pelo mundo. Caçoam e tudo se torna mais leve, viver torna-se quase fácil.
Adoro a expressão "fazer caçoada"ou "caçoar", sobretudo por aquilo que ela representa: a arte suprema de brincar com as situações, mesmo as menos boas. Tenho a sorte de lidar diariamente com pessoas que dominam esta qualidade e considero-me uma sortuda.
segunda-feira, janeiro 18, 2010
daqui à cidade
Ainda há pouco tempo utilizei a expressão aprendida na infância porque ela continua a significar o mesmo embora "a cidade" esteja hoje tão perto, tão acessível. E apesar de hoje existirem muitas outras cidades, incluindo o Caniço. A realidade é totalmente diferente mas a expressão "daqui à cidade" continua a ser sinónima de longo, extenso, comprido. Isto acontece porque as expressões ganham autonomia, tornam-se independentes, crescem, adquirem a sua própria história.
domingo, janeiro 17, 2010
um gato em cima da barriga
Era esta a resposta certa quando antigamente alguém se queixava de dores de barriga. Não havia medicamentos disponíveis para tudo e mais alguma coisa. Em casa dos meus avós não havia medicamento nenhum para eventualidades como essa.
Quando uma das minhas tias se queixava de uma dor de barriga, a minha avó dizia que "era uma dor de frio" e mandava-as colocar uma coisa quente em cima da barriga. Podia ser um barrete de orelhas ou outra coisa de lã bem quente.
Talvez a história do gato tenha surgido por ser um animal quentinho, alguém pode ter começado por dizer para colocar um gato na brincadeira. Ou será que alguém terá realmente alguma vez colocado um gato em cima da barriga para tentar curar "uma dor de frio"?
E quantas dores ajudará um gato a curar? Veremos. Em breve terei um gato em casa.
sábado, janeiro 09, 2010
ir à missa com o que se tem
Claro que não falávamos de ir à missa. Numa breve e rotineira entrevista, o meu interlocutor tentava clarificar uma situação qualquer e de repente usou esta expressão.
Ir à missa é sinónimo de se mostrar, de aparecer perante os outros. Antigamente mais, mas ainda hoje nos sítios pequenos, é na ida à missa que as pessoas se vêem, que ficam sabendo do estado de saúde dos outros, dos relacionamentos, das roupas novas, de todas as bilhardices da comunidade.
É na ida à missa que as pessoas mais ficam expostas aos olhos dos outros.
Antigamente os meus tios iam a missas diferentes para poderem usar todos o mesmo casaco, já que era o único. Encontravam-se pelo caminho e passavam o casaco de um para o outro. E como eles tinham idades e tamanhos diferentes mas o casaco era o mesmo, nuns o casaco ficava grande, noutros pequeno. Mas era o que havia.
- "Sabe, isto cada um vai à missa com o que tem." Ou seja: cada um mostra aquilo que tem e é assim que deve ser. Quem tenta mostrar mais do que realmente é ou tem, não o consegue fazer para sempre. E para quê?
sexta-feira, janeiro 01, 2010
dar os amãs
Mas posso dizer que conheço bem a expressão "dar os amãs" e que sempre a associei à palavra "mão", como se ao defender alguém a pessoa estivesse a dar-lhe a mão. Sempre achei que havia esta relação mas talvez estivesse errada e a verdadeira relação seja com a palavra "amen", pois ao defender uma pessoa estamos afinal a concordar com ela ou com a sua atitude.
Qualquer uma destas possibilidades é especulação minha, gosto deste jogo de inventar uma história para cada palavra, todas as palavras têm a importância suficiente para merecerem a sua própria história, pensava e repensada e, porque não, colocada neste blog à vista ede toda a gente.