quarta-feira, julho 16, 2014

o iró

Sempre que passávamos junto ao Poço do Ti João Duarte, fazíamos silêncio. Queríamos ir mais depressa mas andávamos devagar, quase pé ante pé. O meu pai e a minha mãe diziam: nunca venham para aqui, nem se cheguem ao pé do poço porque ele tem um iró. Nós olhámos para o poço e não víamos nada. Mas eles insistiam que ele vivia no fundo, no meio do lameiro, ao pé da bucha do poço. O meu pai estendia o braço esquerdo, e com o braço direito tentava fazer a medida do iró: "Tem pr'aí um metro de comprido." A parte mais assustadora era quando nos explicavam que caso caíssemos dentro do poço seríamos, sem dúvida, comidas pelo iró.
Guardámos imenso respeito ao poço, junto ao qual tínhamos obrigatoriamente de passar quando às vezes, ao domingo, íamos às Fontes visitar os meus avós paternos. Eu perguntava sempre se era verdade que tinha lá um iró e eles diziam que sim e o meu pai voltava a calcular a medida do bicho. Mas a verdade é que eu duvidava. Duvidava até que existisse neste mundo algum animal chamado iró.
Pensava comigo mesma que os meus pais tinham inventado a história do iró para evitar que nos aproximássemos demasiado do poço e caíssemos lá dentro. Havia muitos poços para guardar a água de rega, mas aquele era enorme, era o maior das redondezas, e fazia fronteira com o caminho estreito, o perigo era maior. O iró, para mim, era uma espécie de "velho da saca", a figura usada para obrigar as crianças a se comportarem bem, a comerem, a se lavarem, a irem dormir à hora certa. Secretamente, achava que os meus pais tinham sido inteligentes ao inventarem semelhante figura só para nos protegerem do perigo que o poço representava.
Há pouco tempo lembrei-me da história do iró, confrontei os meus pais e, para meu espanto, havia de facto um iró no fundo do poço do Ti João Duarte, no meio do lameiro, perto da bucha do poço, que parecia uma cobra e devia ter à volta de um metro de comprimento. O iró é, afinal, uma enguia, uma espécie que eu julgava que nem sequer existia na ilha.

Comments:
É impossível que o eiró tivesse c/ de 1 metro e que o mesmo eiró vivesse vários anos! Mas que a estratégia era boa lá isso era!

amsf
 
Os irós são enguias europeias que vêm do Mar dos Sargaços, nas Caraíbas, e são atraídas pela água doce.
A sua migração é um facto notável da Natureza.
Infelizmente e com a destruição das ribeiras da ilha, são cada vez mais raros, senão mesmo inexistentes.
 
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