Sexta-feira, Abril 18, 2008
Um quarto de dia
- "Mais um quarto de dia!" A expressão é dita sempre num tom preocupado. Eu traduziria "mais um quarto de dia" como "mais um problema para resolver, que chatice!" Um problema inesperado, normalmente quando se está com pressa e não se conta com contratempos, ainda que sejam pequenos.
Uma criança que se suja na hora de sair para uma festa, para a qual já estávamos atrasados, é "um quarto de dia". O carro ficar sem gasolina e a próxima bomba estar distante é um "quarto de dia". Todos os dias deparamo-nos com "quartos de dia", os exemplos não teriam fim.
"Um quarto de dia" refere-se a um quarto de dia trabalho e foi a forma encontrada pelo povo para dar relevância a esses imprevistos. Mesmo que seja de resolução fácil e relativamente rápida - como acontece normalmente neste caso - a dimensão do problema é automaticamente ampliada com o uso desta expressão.
Também já ouvi a expressão usada em tom irónico, divertido, denunciando o exagero nela contido.
Uma criança que se suja na hora de sair para uma festa, para a qual já estávamos atrasados, é "um quarto de dia". O carro ficar sem gasolina e a próxima bomba estar distante é um "quarto de dia". Todos os dias deparamo-nos com "quartos de dia", os exemplos não teriam fim.
"Um quarto de dia" refere-se a um quarto de dia trabalho e foi a forma encontrada pelo povo para dar relevância a esses imprevistos. Mesmo que seja de resolução fácil e relativamente rápida - como acontece normalmente neste caso - a dimensão do problema é automaticamente ampliada com o uso desta expressão.
Também já ouvi a expressão usada em tom irónico, divertido, denunciando o exagero nela contido.
Terça-feira, Abril 15, 2008
Até já foi ao boi...
Deste lado do telefone, mal conseguia ouvir a irmã, à distância de mares e continentes. Explicou-lhe que ouvia mal, estava ficando meia mouca. Do outro lado, para lá de vários mares e continentes, a irmã responde prontamente: "O quê? Já 'tás como o ti Antôine da venda?" De um lado e do outro, com mares e continentes pelo meio, riram-se as duas, muito se riram elas da graça.
O ti Antôine da venda, coitado, ouvia muito mal, podia-se dizer que o pobre do homem estava mesmo ficando mouco.
Certa vez, adoeceu-lhe a vaca e, em simultâneo, a mulher. Claro que se sabia tudo no sítio, e bem mais depressa no que nesta era da internet e dos telemóveis. Por isso, cruzando-se algures no caminho com o ti Antôine da venda, alguém o cumprimenta e pergunta-lhe pela saúde da esposa.
O ti Antôine responde sem qualquer hesitação: - "Já 'tá boa. Hoje até já foi ao boi." Claro que se referia à vaca e não à mulher. O episódio ter-se-à devido à quase surdez do Ti Antôine da venda, coitado. Mas também não me admirava nada que ele estivesse mais interessado na saúde da vaca do que na da mulher, nunca se sabe.
O certo é que aquele episódio se espalhou e foi contado e recontado e tornado anedota talvez para sempre. Ora dizer que a mulher já tinha ido ao boi, ninguém inventaria melhor anedota. O Ti Antôine já há muito deixou este mundo e este pequeno episódio ainda arranca gargalhadas a duas irmãs separadas há quase quarenta anos.. E o curioso é que foi a irmã emigrada a lembrar-se da história do ti Antôine, por vezes quem está longe, à distância de mares e continentes, lembra-se mais deste tipo de coisas.
O ti Antôine da venda, coitado, ouvia muito mal, podia-se dizer que o pobre do homem estava mesmo ficando mouco.
Certa vez, adoeceu-lhe a vaca e, em simultâneo, a mulher. Claro que se sabia tudo no sítio, e bem mais depressa no que nesta era da internet e dos telemóveis. Por isso, cruzando-se algures no caminho com o ti Antôine da venda, alguém o cumprimenta e pergunta-lhe pela saúde da esposa.
O ti Antôine responde sem qualquer hesitação: - "Já 'tá boa. Hoje até já foi ao boi." Claro que se referia à vaca e não à mulher. O episódio ter-se-à devido à quase surdez do Ti Antôine da venda, coitado. Mas também não me admirava nada que ele estivesse mais interessado na saúde da vaca do que na da mulher, nunca se sabe.
O certo é que aquele episódio se espalhou e foi contado e recontado e tornado anedota talvez para sempre. Ora dizer que a mulher já tinha ido ao boi, ninguém inventaria melhor anedota. O Ti Antôine já há muito deixou este mundo e este pequeno episódio ainda arranca gargalhadas a duas irmãs separadas há quase quarenta anos.. E o curioso é que foi a irmã emigrada a lembrar-se da história do ti Antôine, por vezes quem está longe, à distância de mares e continentes, lembra-se mais deste tipo de coisas.
Sábado, Abril 12, 2008
Já morreu Adelaidinha
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai no seu caixão
A quem deixaria ela
O seu bonito cordão?
O seu bonito cordão
Deixou ela à sua tia
Para que ela lhe rezasse
Por alma uma Avé-Maria
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai ela a enterrar
A quem deixaria ela
O estojo de bordar?
O estojo de bordar
Deixou ela à sua mãe
Para que ela lhe rezasse
Por sua alma também.
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai ela p'ró céu
A quem deixaria ela
O seu bonitinho véu?
O seu bonitinho véu
Deixou à sua madrinha
Para que ela lhe rezasse
Mais uma Salve-Rainha.
Uma das cantigas da infância e da juventude. Uma cantiga que me faz ter soidades do tempo em que bastava uma cantiga para alegrar a alma, do tempo em que tudo fazia sentido e nada era complicado. Por exemplo, os bens da Adelaidinha foram deixados por ela a quem quis e aceites em paz, suponho, coisa rara nos dias que correm. Hoje em dia não há heranças divididas sem brigas. O estojo de bordar, o cordão, o véu: até os objectos mais simples tinham valor, e isso era tão bonito.
Já lá vai no seu caixão
A quem deixaria ela
O seu bonito cordão?
O seu bonito cordão
Deixou ela à sua tia
Para que ela lhe rezasse
Por alma uma Avé-Maria
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai ela a enterrar
A quem deixaria ela
O estojo de bordar?
O estojo de bordar
Deixou ela à sua mãe
Para que ela lhe rezasse
Por sua alma também.
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai ela p'ró céu
A quem deixaria ela
O seu bonitinho véu?
O seu bonitinho véu
Deixou à sua madrinha
Para que ela lhe rezasse
Mais uma Salve-Rainha.
Uma das cantigas da infância e da juventude. Uma cantiga que me faz ter soidades do tempo em que bastava uma cantiga para alegrar a alma, do tempo em que tudo fazia sentido e nada era complicado. Por exemplo, os bens da Adelaidinha foram deixados por ela a quem quis e aceites em paz, suponho, coisa rara nos dias que correm. Hoje em dia não há heranças divididas sem brigas. O estojo de bordar, o cordão, o véu: até os objectos mais simples tinham valor, e isso era tão bonito.
Terça-feira, Abril 08, 2008
Presumida
A minha avolita, que Deus a tenha no Céu, nunca usava a palavra "vaidosa". Dizia antes "presumida".
Parece que estou a vê-la contar, por entre gargalhadas, que era muito presumida quando era nova: gostava de andar sempre com os vestidos à moda, tinha o cuidado de os mandar fazer segundo os ditames mais recentes e tinha adorado a primeira blusa sem manga da sua vida, nos tempos em que ia à missa já com o sentido no meu avolito.
A minha avolita foi sempre presumida e gostava de ver pessoas presumidas, que se arranjassem bem e tivessem gosto nisso, pessoas despachadas e seguras de si.
Lembrei-me agora da minha avó e demoro-me a acarinhar estas memórias simples. Lembrei-me dela por causa da palavra presumida.
É verdade: estou presumida! Afinal, este blogue já tem 450 textos, uma meta cumprida com o post anterior.
Parece que estou a vê-la contar, por entre gargalhadas, que era muito presumida quando era nova: gostava de andar sempre com os vestidos à moda, tinha o cuidado de os mandar fazer segundo os ditames mais recentes e tinha adorado a primeira blusa sem manga da sua vida, nos tempos em que ia à missa já com o sentido no meu avolito.
A minha avolita foi sempre presumida e gostava de ver pessoas presumidas, que se arranjassem bem e tivessem gosto nisso, pessoas despachadas e seguras de si.
Lembrei-me agora da minha avó e demoro-me a acarinhar estas memórias simples. Lembrei-me dela por causa da palavra presumida.
É verdade: estou presumida! Afinal, este blogue já tem 450 textos, uma meta cumprida com o post anterior.
Ninguém diga o que não sabe
"Alto da Serra das Neves
Onde o penedo caiu
Ninguém diga o que não sabe
Nem afirme o que não viu"
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço
Onde o penedo caiu
Ninguém diga o que não sabe
Nem afirme o que não viu"
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço
Um mandado
Há bem poucos dias presenciei o espanto de alguém perante a palavra "mandado", utilizada no sentido de recado. A palavra sempre me foi familiar.
Todas as criança do meu tempo faziam "mandados" a pedido dos adultos. Íamos "fazer mandados" a casa dos vizinhos várias vezes ao dia, se fosse necessário.
Mandavam-nos, por exemplo, pedir uma agulha emprestada, uma tesoura de bicos para recortar o bordado, um qualquer ingrediente de cozinha que faltava para acabar o jantar. Talvez entregar o "modelo" da tela, ou levar as peças já feitas, ou quem sabe trocar linhas ou lãs, ou dizer a alguém que tinha ido com o bordado que regressasse mais cedo a casa por um qualquer motivo, enfim.
Nessa época não existiam ainda telefones no nosso sítio, as crianças eram muito úteis nessa tarefa de "fazer mandados". Uma das quadras que recolhi nos anos oitenta, usada sobretudo no brinco, quem sabe também no Xaramba ou durante a apanha da erva, falava dessa ideia de mandado associada às crianças.
"Se não fosse minha mãe
Já podia 'tar casado
Já podia ter um filho
Que me fizesse um mandado."
Todas as criança do meu tempo faziam "mandados" a pedido dos adultos. Íamos "fazer mandados" a casa dos vizinhos várias vezes ao dia, se fosse necessário.
Mandavam-nos, por exemplo, pedir uma agulha emprestada, uma tesoura de bicos para recortar o bordado, um qualquer ingrediente de cozinha que faltava para acabar o jantar. Talvez entregar o "modelo" da tela, ou levar as peças já feitas, ou quem sabe trocar linhas ou lãs, ou dizer a alguém que tinha ido com o bordado que regressasse mais cedo a casa por um qualquer motivo, enfim.
Nessa época não existiam ainda telefones no nosso sítio, as crianças eram muito úteis nessa tarefa de "fazer mandados". Uma das quadras que recolhi nos anos oitenta, usada sobretudo no brinco, quem sabe também no Xaramba ou durante a apanha da erva, falava dessa ideia de mandado associada às crianças.
"Se não fosse minha mãe
Já podia 'tar casado
Já podia ter um filho
Que me fizesse um mandado."
Tranquelhento e tracista
Estes dois adjectivos, de significado semelhante, parecem-me ser já raramente usados, ao contrário de outros que aqui tenho referido.
Tanto tranquelhento como tracista são adjectivos aplicados a pessoas más, reles, vingativas, que muitas vezes praticam as suas maldades "pela calada", prejudicando os outros sem dar muito nas vistas.
Diz-me uma amiga do centro da freguesia que o primeiro adjectivo seria "trinquelhento" e que derivaria do verbo "trincar", tem toda a lógica. Na linguagem oral as vogais são facilmente substituídas, dependendo da pronúncia característica das diferentes zonas ou até da forma particular de falar de uma determinada pessoa.
No meu sítio sempre dissemos "tranquelhento", pelo menos sempre foi assim que me soou, e continuamos a dizer. Na minha família ainda usamos as duas palavras e eu contribuo como posso para atrasar a morte definitiva destes termos do falar madeirense.
A única forma possível de eu desistir delas seria a certeza de que deixando de as utilzar também deixariam de existir pessoas tranquelhentas e tracistas, que é o que mais há por esse mundo fora.
Tanto tranquelhento como tracista são adjectivos aplicados a pessoas más, reles, vingativas, que muitas vezes praticam as suas maldades "pela calada", prejudicando os outros sem dar muito nas vistas.
Diz-me uma amiga do centro da freguesia que o primeiro adjectivo seria "trinquelhento" e que derivaria do verbo "trincar", tem toda a lógica. Na linguagem oral as vogais são facilmente substituídas, dependendo da pronúncia característica das diferentes zonas ou até da forma particular de falar de uma determinada pessoa.
No meu sítio sempre dissemos "tranquelhento", pelo menos sempre foi assim que me soou, e continuamos a dizer. Na minha família ainda usamos as duas palavras e eu contribuo como posso para atrasar a morte definitiva destes termos do falar madeirense.
A única forma possível de eu desistir delas seria a certeza de que deixando de as utilzar também deixariam de existir pessoas tranquelhentas e tracistas, que é o que mais há por esse mundo fora.
Peguelhar
Estou tão habituada ao verbo "peguelhar" que não o sei traduzir. Peguelhar é aquilo que fazem as pessoas peguelhentas. Boa tentativa.
Não encontro tradução nem para o verbo, nem para o adjectivo; muitos não precisarão de explicações pois apercebo-me de que são ainda muito usadas as duas palavras. Para os outros, os mais novos e os de fora, aqui fica uma possível descrição.
Uma pessoa peguelhenta está sempre a reclamar, nunca está satisfeita com as coisas, se estiverem de uma maneira, preferia da outra, se estiverem da outra, o melhor seria ao contrário, é uma pessoa que parece inventar pretextos só para poder estar sempre a criticar, a exigir, a reclamar, a dizer mal, a deitar abaixo.
Penso que não será necessário esforçar-me mais para tentar definir o adjectivo peguelhento e, em consequência, o verbo peguelhar. Com certeza todos já identificaram no seu rol de conhecidos, talvez até de familiares, pessoas que têm o hábito de peguelhar.
O que nos vale é que, tirando alguns casos crónicos, o mal é normalmente passageiro. Todos temos os nosso dias de peguelhentos, todos caímos por vezes na tentação de peguelhar, quem estiver inocente que atire a primeira pedra.
Não encontro tradução nem para o verbo, nem para o adjectivo; muitos não precisarão de explicações pois apercebo-me de que são ainda muito usadas as duas palavras. Para os outros, os mais novos e os de fora, aqui fica uma possível descrição.
Uma pessoa peguelhenta está sempre a reclamar, nunca está satisfeita com as coisas, se estiverem de uma maneira, preferia da outra, se estiverem da outra, o melhor seria ao contrário, é uma pessoa que parece inventar pretextos só para poder estar sempre a criticar, a exigir, a reclamar, a dizer mal, a deitar abaixo.
Penso que não será necessário esforçar-me mais para tentar definir o adjectivo peguelhento e, em consequência, o verbo peguelhar. Com certeza todos já identificaram no seu rol de conhecidos, talvez até de familiares, pessoas que têm o hábito de peguelhar.
O que nos vale é que, tirando alguns casos crónicos, o mal é normalmente passageiro. Todos temos os nosso dias de peguelhentos, todos caímos por vezes na tentação de peguelhar, quem estiver inocente que atire a primeira pedra.
Uma resonda
"- Ainda por cima, deu-me uma resonda!"
- "Resonda?" Sim, uma resonda. Resondou-me, pois claro. Há pessoas que resondam os outros, precisamente quando lhes reconhecem razão. É uma forma de se protegerem, não é?
- "Resondam?" Sim, resondam.
Nunca deixei de utilizar o substantivo "resonda" e o verbo "resondar". Utilizo-os de forma tão habitual, que quase nem dou por eles, a não ser que o interlocutor reaja assim, como quem não percebeu.
Então lembro-me que resonda e resondar são palavras do léxico madeirense e explico, contente por serem afinal tantas as palavras particulares do nosso falar e ainda mais pelo facto de algumas delas continuarem tão vulgarmente em uso.
"Resonda" é um termo mais forte do que raspanete, do que reprimenda, talvez seja só a força do hábito, talvez, mas para mim "resonda" é a palavra certa. E sorrio, ao terminar a minha pequena lição de madeirense. Afinal, não é todos os dias que uma resonda nos consegue arrancar um sorriso sincero.
- "Resonda?" Sim, uma resonda. Resondou-me, pois claro. Há pessoas que resondam os outros, precisamente quando lhes reconhecem razão. É uma forma de se protegerem, não é?
- "Resondam?" Sim, resondam.
Nunca deixei de utilizar o substantivo "resonda" e o verbo "resondar". Utilizo-os de forma tão habitual, que quase nem dou por eles, a não ser que o interlocutor reaja assim, como quem não percebeu.
Então lembro-me que resonda e resondar são palavras do léxico madeirense e explico, contente por serem afinal tantas as palavras particulares do nosso falar e ainda mais pelo facto de algumas delas continuarem tão vulgarmente em uso.
"Resonda" é um termo mais forte do que raspanete, do que reprimenda, talvez seja só a força do hábito, talvez, mas para mim "resonda" é a palavra certa. E sorrio, ao terminar a minha pequena lição de madeirense. Afinal, não é todos os dias que uma resonda nos consegue arrancar um sorriso sincero.
Segunda-feira, Abril 07, 2008
Ciranda, Cirandinha
A Ciranda me convida
P'ra eu ir ao seu serão (bis)
P´ra fiar a maçaroca
do mais fino algodão (bis)
O Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar (bis)
Vamos dar a meia volta
E outra meia vamos dar
Vamos dar a meia volta
E quem 'tá bem deixa-se estar.
Quem 'tá bem deixa-se estar
Eu não posso estar melhor (bis)
Estou ao pé do meu benzinho
Não há regalo maior. (bis)
A Ciranda quer qu'eu morra
Digo eu que morra ela (bis)
Vai-se fazer um chazinho
Nem que seja de marcela. (bis)
Ó Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar (bis)
Vamos dar a meia volta
E adiante troca o par. (bis)
Adiante troca o par
Qu'este meu já está trocado (bis)
O amor que Deus me deu
Trago aqui ao meu lado. (bis)
Dei por mim a trautear a cirandinha, e de repente já não me lembrava de todos os versos, tal como mos ensinaram, tal como os cantava no princípio dos tempos, de repente já não tinha a certeza se me lembrava e fiquei triste. Mas.
Sim, tinha-os escrito em 1986 com a minha letra redonda, igual. E aqui fica a versão que se cantava no meu Sítio durante a minha infância.
A Ciranda é uma cantiga de roda, era em roda que a cantávamos vezes sem fim, mas não só. Cantávamos a Cirandinha em qualquer ocasião, enquanto varriamos o terreiro, ou enquanto bordámos debaixo da ameixeira, ou ao serão junto à luz de petróleo ou enquanto percorríamos a vereda, numa qualquer "volta" a mando dos adultos.
Cantava-se a Cirandinha, num cirandar perfeito de tempo e de gestos, seguros e certos, ambos, e eternos também e no lugar exacto, único, do universo. Cantava-se a Cirandinha sem pensar em nada a não ser na Cirandinha que não se sabia quem era mas queríamos saber, insistíamos por vezes em desvendar os mistérios das cantigas mas depois desistíamos, acho que percebíamos que as melhores cantigas tinham de ter algo de incompreensível.
P'ra eu ir ao seu serão (bis)
P´ra fiar a maçaroca
do mais fino algodão (bis)
O Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar (bis)
Vamos dar a meia volta
E outra meia vamos dar
Vamos dar a meia volta
E quem 'tá bem deixa-se estar.
Quem 'tá bem deixa-se estar
Eu não posso estar melhor (bis)
Estou ao pé do meu benzinho
Não há regalo maior. (bis)
A Ciranda quer qu'eu morra
Digo eu que morra ela (bis)
Vai-se fazer um chazinho
Nem que seja de marcela. (bis)
Ó Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar (bis)
Vamos dar a meia volta
E adiante troca o par. (bis)
Adiante troca o par
Qu'este meu já está trocado (bis)
O amor que Deus me deu
Trago aqui ao meu lado. (bis)
Dei por mim a trautear a cirandinha, e de repente já não me lembrava de todos os versos, tal como mos ensinaram, tal como os cantava no princípio dos tempos, de repente já não tinha a certeza se me lembrava e fiquei triste. Mas.
Sim, tinha-os escrito em 1986 com a minha letra redonda, igual. E aqui fica a versão que se cantava no meu Sítio durante a minha infância.
A Ciranda é uma cantiga de roda, era em roda que a cantávamos vezes sem fim, mas não só. Cantávamos a Cirandinha em qualquer ocasião, enquanto varriamos o terreiro, ou enquanto bordámos debaixo da ameixeira, ou ao serão junto à luz de petróleo ou enquanto percorríamos a vereda, numa qualquer "volta" a mando dos adultos.
Cantava-se a Cirandinha, num cirandar perfeito de tempo e de gestos, seguros e certos, ambos, e eternos também e no lugar exacto, único, do universo. Cantava-se a Cirandinha sem pensar em nada a não ser na Cirandinha que não se sabia quem era mas queríamos saber, insistíamos por vezes em desvendar os mistérios das cantigas mas depois desistíamos, acho que percebíamos que as melhores cantigas tinham de ter algo de incompreensível.
Chuva de Abril
Chove neste início de Abril, ninguém se espante. Chover em Abril é normal. Daí o velho ditado:
"Em Abril, águas mil."
Para além de ser normal chover em Abril, a chuva deste mês sempre foi bem vista por quem vive da terra. Veja-se mais dois provérbios, que me habituei a ouvir desde pequenina:
"Chuva em Abril, é alqueire e barril."
"A chuva de Abril é o governo do ano."
Também me lembro de ouvir inúmeras vezes outro provérbio, que é mais uma forma de lembrar que Abril é um mês molhado:
"Em Abril a velha ainda queima o canzil."
Se "a velha ainda queima o canzil" quer dizer que não há lenha para pôr a arder no lar e se não há
lenha capaz de arder é por estar tudo molhado devido à invernia. Nem mais.
"Em Abril, águas mil."
Para além de ser normal chover em Abril, a chuva deste mês sempre foi bem vista por quem vive da terra. Veja-se mais dois provérbios, que me habituei a ouvir desde pequenina:
"Chuva em Abril, é alqueire e barril."
"A chuva de Abril é o governo do ano."
Também me lembro de ouvir inúmeras vezes outro provérbio, que é mais uma forma de lembrar que Abril é um mês molhado:
"Em Abril a velha ainda queima o canzil."
Se "a velha ainda queima o canzil" quer dizer que não há lenha para pôr a arder no lar e se não há
lenha capaz de arder é por estar tudo molhado devido à invernia. Nem mais.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
Acarão
" - Vais tomar isso acarão do estômago?" Não, toda a gente sabe que faz mal tomar remédios acarão do estômago a não ser que seja mesmo recomendado, há excepções para tudo.
Acarão.
" - Não te sentes acarão da frieza. Isso faz um mal desgraçado." Sim. Está bem. Um pequeno tapete de retalhos sobre o cimento e pronto, está resolvido o problema. Alguma razão deve ter a sabedoria popular, confirmada e reconfirmada ao longo dos séculos.
Acarão.
" - Vestiste essa camisola de lã acarão do corpo?" Sim, quer dizer, ora bem. Com outra por dentro, fininha, de algodão, fica bem mais confortável.
Acarão.
A palavra acarão continua a ser muito usada, em vários contextos, para significar directamente sobre uma superfície, sem protecção.
O povo recorda constantemente as regras mais básicas: não tomar medicamenteos, nem determinadas bebidas/comidas acarão do estômago (em jejum), não se sentar acarão da pedra, se estiver fria é prejudicial, se estiver quente ainda é pior, não vestir alguns tecidos acarão da pele, atençãò às alergias.
Eu acrescento outro ensinamento, embora sem o peso das sentenças confirmadas ao longo de gerações, apenas sentida ou pressentida, sei lá, acrescento solenemente que também com o coração é preciso cuidado. Algumas emoção não deviam ser vividas acarão.
Acarão.
" - Não te sentes acarão da frieza. Isso faz um mal desgraçado." Sim. Está bem. Um pequeno tapete de retalhos sobre o cimento e pronto, está resolvido o problema. Alguma razão deve ter a sabedoria popular, confirmada e reconfirmada ao longo dos séculos.
Acarão.
" - Vestiste essa camisola de lã acarão do corpo?" Sim, quer dizer, ora bem. Com outra por dentro, fininha, de algodão, fica bem mais confortável.
Acarão.
A palavra acarão continua a ser muito usada, em vários contextos, para significar directamente sobre uma superfície, sem protecção.
O povo recorda constantemente as regras mais básicas: não tomar medicamenteos, nem determinadas bebidas/comidas acarão do estômago (em jejum), não se sentar acarão da pedra, se estiver fria é prejudicial, se estiver quente ainda é pior, não vestir alguns tecidos acarão da pele, atençãò às alergias.
Eu acrescento outro ensinamento, embora sem o peso das sentenças confirmadas ao longo de gerações, apenas sentida ou pressentida, sei lá, acrescento solenemente que também com o coração é preciso cuidado. Algumas emoção não deviam ser vividas acarão.
Terça-feira, Abril 01, 2008
Porta-me lá
" - Porta-me lá". Disse "porta-me lá" e encolheu levemente os ombros, sem pousar os gestos. Sem deixar o que estava a fazer, as mãos ocupadas com tachos de cozinha, à volta do fogão.
"Porta-me lá" é uma forma de dizer sim. Mas é um sim diferente de um sim normal. É um sim que na verdade significa não me importo, podes fazê-lo (seja lá o que for) que não me faz grande diferença, não me afecta, não me faz mal nenhum e portanto "porta-me lá".
Este "porta-me lá" é na realidade "importo-me lá", mas o povo encurtou o verbo, tornou-o mais curto, mais a jeito de usar, mais fácil de dizer. Por vezes, "Porta-me lá" vai além do tal sim dito de forma diferente, e quer dizer deixem-me em paz, seja o que for que disserem ou fizerem, seja o que for que esteja a acontecer no mundo, não quero saber.
"-Porta-me lá!" Encolhe os ombros, mantém a atenção concentrada no que está a fazer. E eu sorrio. Sorrio para o tempo que às vezes perdura, imóvel, dentro do próprio tempo. As minhas duas avós também teriam dito "porta-me lá". As minhas duas avós, ambas Maria, teriam dito "porta-me lá", e os meus dois avós, ambos José, teriam dito também "porta-me lá." Com essa certeza, sorrio para o tempo que às vezes perdura, imóvel, dentro de nós.
"Porta-me lá" é uma forma de dizer sim. Mas é um sim diferente de um sim normal. É um sim que na verdade significa não me importo, podes fazê-lo (seja lá o que for) que não me faz grande diferença, não me afecta, não me faz mal nenhum e portanto "porta-me lá".
Este "porta-me lá" é na realidade "importo-me lá", mas o povo encurtou o verbo, tornou-o mais curto, mais a jeito de usar, mais fácil de dizer. Por vezes, "Porta-me lá" vai além do tal sim dito de forma diferente, e quer dizer deixem-me em paz, seja o que for que disserem ou fizerem, seja o que for que esteja a acontecer no mundo, não quero saber.
"-Porta-me lá!" Encolhe os ombros, mantém a atenção concentrada no que está a fazer. E eu sorrio. Sorrio para o tempo que às vezes perdura, imóvel, dentro do próprio tempo. As minhas duas avós também teriam dito "porta-me lá". As minhas duas avós, ambas Maria, teriam dito "porta-me lá", e os meus dois avós, ambos José, teriam dito também "porta-me lá." Com essa certeza, sorrio para o tempo que às vezes perdura, imóvel, dentro de nós.
Quarta-feira, Março 19, 2008
Entramelado
"- Este senhor costumava estar aqui cheio de vida e agora já está todo entramelado, como eu também estou." A conversa foi feita por uma fiel cliente do "Sino", uma das lojas mais emblemáticas do Funchal, agora também com os dias contados, que tristeza. Ora, a senhora queria com esta afirmação mostrar de uma forma bem clara, ilustrada com uma imagem que não deixasse margem para qualquer dúvida, que sempre fora cliente da loja, desde que se entende, desde que era uma pequena nova e cheia de vida, tal como o senhor da loja. E a prova de que foi cliente durante muitos anos, muitos, é que já estão os dois entramelados. Já não se mexem bem, já sentem o peso da idade, com as limitações físicas normais. Uma perna que se arrasta, um braço que dói, as cadeiras que não deixam uma pessoas se agachar e se levantar e sei lá mais o quê, todos nós acabamos mais ou menos entramelados, mais tarde ou mais cedo.
O "Sino" vai desaparecer da Rua Fernão de Ornelas, aos poucos vão desaparecendo as lojas que guardei na memória do tempo em que crescia e ia à cidade duas ou três vezes por ano, de olhos esbugalhados para as montras e para as ruas e para as casas e para as pessoas. Mas as lojas também ficam entrameladas, como as pessoas, e nem belo dia de Primavera, apesar de alguns jacarandás já estarem em flor, fecham as portas para sempre e entristecem as pessoas que se ralam com estas coisas e que também gostam de jacarandás, por mero acaso porque uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Eu não sei se a senhora que começou a ir ao "Sino" no século passado, quando ainda era uma menina, também gosta de jacarandás, da palavra redonda e aberta, lilás - quando se diz jacarandá há uma magia que se desdobra no ar, misteriora, quando se diz jacarandá juro que acontece alguma coisa de inexplicável - não sei. Sei que sente antecipadamente a imensa, inexplicácel perda. E sei que ainda utiliza o adjectivo "entramelado/a".
Fecham-se portas, caem cortinas sobre palcos da vida de todos os dias, encerram-se capitulos da história dos lugares como se nada fosse, que tristeza. E. Ali, no meio dos escombros das memórias das histórias da cidade no meio das coisas que vão deixar saudades ora se vão, então não vão, áme não, eis que a senhora Maria - é muito provável que se chame Maria e se não se chamar é como se se chamasse, digo eu - utiliza a palavra "entramelado".
Obrigada.
O "Sino" vai desaparecer da Rua Fernão de Ornelas, aos poucos vão desaparecendo as lojas que guardei na memória do tempo em que crescia e ia à cidade duas ou três vezes por ano, de olhos esbugalhados para as montras e para as ruas e para as casas e para as pessoas. Mas as lojas também ficam entrameladas, como as pessoas, e nem belo dia de Primavera, apesar de alguns jacarandás já estarem em flor, fecham as portas para sempre e entristecem as pessoas que se ralam com estas coisas e que também gostam de jacarandás, por mero acaso porque uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Eu não sei se a senhora que começou a ir ao "Sino" no século passado, quando ainda era uma menina, também gosta de jacarandás, da palavra redonda e aberta, lilás - quando se diz jacarandá há uma magia que se desdobra no ar, misteriora, quando se diz jacarandá juro que acontece alguma coisa de inexplicável - não sei. Sei que sente antecipadamente a imensa, inexplicácel perda. E sei que ainda utiliza o adjectivo "entramelado/a".
Fecham-se portas, caem cortinas sobre palcos da vida de todos os dias, encerram-se capitulos da história dos lugares como se nada fosse, que tristeza. E. Ali, no meio dos escombros das memórias das histórias da cidade no meio das coisas que vão deixar saudades ora se vão, então não vão, áme não, eis que a senhora Maria - é muito provável que se chame Maria e se não se chamar é como se se chamasse, digo eu - utiliza a palavra "entramelado".
Obrigada.
Sexta-feira, Março 07, 2008
Despique
Rapaz:
-Tendes os pezinhos brancos
Branquinhos e cor-de-rosa
Porque não usas tamancos
Cobrindo a carne mimosa?
Rapariga:
-No Campo não se repara
Fui assim habituada
Como posso andar calçada
Custando a vida tão cara?
Rapaz:
- Se tu quisesses, Maria
Receber-me por namoro
Podias calçar um dia
Sapatos com pregos de ouro
Rapariga:
-Aceito para estrear
Vá que seja, vá que seja
Quando nos formos casar
Pela santa madre igreja
Rapaz:
- Casar, Maria, isso não
Quem te fala em casamento?
Pode haver muita afeição
mas não haver sacramento
Rapariga:
-Não sou dessa qualidade
Eu ando de pé descalço
Não darei um passo em falso
Como as fofas da cidade
Rapaz:
- Meu Deus, que cara tão feia
Eu não queria dizer isso
As raparigas da aldeia
Parecem mesmo uns ouriços
Rapariga:
- A gente vive nos campos
Só namora quem se estima
Adeus e adeus sapatos
Assenhora a sua prima
Recolhi este despique em 1986 e soube então que foi trazido para o Sítio por uma mulher que trabalhou no Funchal, no Hospício, onde terá aprendido muitas cantigas com as freiras.
Primeiro, o depique terá sido ensaiado de propósito para ser cantado no bazar, durante as festas mais conhecidas da freguesia, como forma de atrair público. Era cantado por duas crianças, um rapaz e uma rapariga, vestidos de vilões. As pessoas gostaram, a música ficou no ouvido, e o despique passou a ser cantado em muitas outras ocasiões, sobrevivendo na memória até aos dias de hoje.
-Tendes os pezinhos brancos
Branquinhos e cor-de-rosa
Porque não usas tamancos
Cobrindo a carne mimosa?
Rapariga:
-No Campo não se repara
Fui assim habituada
Como posso andar calçada
Custando a vida tão cara?
Rapaz:
- Se tu quisesses, Maria
Receber-me por namoro
Podias calçar um dia
Sapatos com pregos de ouro
Rapariga:
-Aceito para estrear
Vá que seja, vá que seja
Quando nos formos casar
Pela santa madre igreja
Rapaz:
- Casar, Maria, isso não
Quem te fala em casamento?
Pode haver muita afeição
mas não haver sacramento
Rapariga:
-Não sou dessa qualidade
Eu ando de pé descalço
Não darei um passo em falso
Como as fofas da cidade
Rapaz:
- Meu Deus, que cara tão feia
Eu não queria dizer isso
As raparigas da aldeia
Parecem mesmo uns ouriços
Rapariga:
- A gente vive nos campos
Só namora quem se estima
Adeus e adeus sapatos
Assenhora a sua prima
Recolhi este despique em 1986 e soube então que foi trazido para o Sítio por uma mulher que trabalhou no Funchal, no Hospício, onde terá aprendido muitas cantigas com as freiras.
Primeiro, o depique terá sido ensaiado de propósito para ser cantado no bazar, durante as festas mais conhecidas da freguesia, como forma de atrair público. Era cantado por duas crianças, um rapaz e uma rapariga, vestidos de vilões. As pessoas gostaram, a música ficou no ouvido, e o despique passou a ser cantado em muitas outras ocasiões, sobrevivendo na memória até aos dias de hoje.
Quarta-feira, Março 05, 2008
Um ar encanado
"- Está aqui um ar encanado!" Era verdade. Estava um ar encanado, graças a uma porta aberta quase em frente de uma janela também aberta.
Detestei o ar encanado, não o consigo suportar, mas gostei de ouvir esta antiga forma de falar sobre uma corrente de ar.
Era assim que se dizia antes, no tempo em que as pessoas tinham respeito ao ar encanado e o evitavam porque sabiam o quanto podia ser prejudicial. Os mais velhos alertavam: Cuidado com o ar encanado. Fecha a porta. Agasalha-te. Foge desse ar encanado.
Ar encanado porque parece que o ar vai dentro de um cano, todo numa mesma direcção, numa corrente, encaminhado para a outra abertura. Há expressões bem mais difíceis de explicar.
Nos últimos dias tive de me sujeitar a ares encanados por mais do que uma vez. Talvez seja por isso que hoje não me sinto muito bem, sinto um frio estranho.
Detestei o ar encanado, não o consigo suportar, mas gostei de ouvir esta antiga forma de falar sobre uma corrente de ar.
Era assim que se dizia antes, no tempo em que as pessoas tinham respeito ao ar encanado e o evitavam porque sabiam o quanto podia ser prejudicial. Os mais velhos alertavam: Cuidado com o ar encanado. Fecha a porta. Agasalha-te. Foge desse ar encanado.
Ar encanado porque parece que o ar vai dentro de um cano, todo numa mesma direcção, numa corrente, encaminhado para a outra abertura. Há expressões bem mais difíceis de explicar.
Nos últimos dias tive de me sujeitar a ares encanados por mais do que uma vez. Talvez seja por isso que hoje não me sinto muito bem, sinto um frio estranho.
Domingo, Março 02, 2008
Já tenho as marcas, falta o travesseiro
"- Já tenho as marcas. Só falta o travesseiro." Usei a antiga expressão e, inevitavelmente, desfiz-me em riso. Sempre achei muito engraçada esta metáfora feita de travesseiros e de marcas, caídos quase totalmente em desuso. Hoje em dia não tenho travesseiro, apenas almofadas, tal como penso que acontece com a maioria das pessoas. Mas a expressão continua a ter o significado primordial de algo pequeno que já temos, faltando ainda a parte principal, a parte verdadeiramente importante e mais difícil de conseguir. Apenas essa parte, aqui é que está a piada. Usei a velha metáfora e desfiz-me em riso porque, ainda por cima, as minhas marcas eram um sofá de que gosto muito e o travesseiro uma casa de verdade com o jardim de verdade com que sempre sonhei. Falávamos na possibilidade de comprar um sofá maior para a sala, bem que era bom. Mas nesse caso seria necesário desfazer-me do actual sofá, que é mais uma cadeira grande, de que tanto gosto, e eu exclamei: "- Mas este sofá é para a minha casa com um jardim e uma árvore grande ao lado, para o escritório ou talvez para uma salinha pequena..." Pois é. Já tenho as marcas, só falta o travesseiro. Não sei como terá surgido a expressão, acho que a minha mãe já me contou a história, num dia em que de certeza estava de pachorra e não se importou com as minhas perguntas sobre tudo e mais alguma coisa. Imagino uma qualquer rapariga do sítio falando sobre o dote, que obrigatoriamente icluia jogos de lençois de linho, cuja pano fora comprado aos adelos e corado num corador de ervas limpinhas e depois mandado fazer à costureira e bordado a preceito pela própria rapariga ou por uma bordadeira com fama de fazer o trabalho bem feito. Imagino e sorrio e tenho saudades da palavra travesseiro e da palavra marcas, hoje em transformadas em botões, coitadas. Já tenho as marcas, só falta o travesseiro.
Domingo, Fevereiro 24, 2008
Renheta
A mulher ria-se, enquanto escolhia para o marido uma roupa interior. As empregadas da loja estavam divertidas, metiam-se com ela e também se riam.
" - Muito bem, uma senhora dessa idade e que ainda se lembra do Dia de São Valentim!" Quiseram saber se ele também lhe ia oferecer uma prenda e ela riu-se outra vez, enquanto finalmente se decidia por uns boxers: - "Ele é velho e renheta."
"- E mesmo assim a senhora compra-lhe um presente, imagine-se se ele não fosse renheta!" Novas gargalhadas encheram a loja e eu anotei de cabeça a intenção de registar o adjectivo "renheta". Renheta é um adjectivo construído a partir do verbo renhir, que segundo o dicionário da Porto Editora significa "combater com denodo, com fúria; altercar; porfiar."
Pensei com os meus botões que antigamente quase todos os maridos eram renhetas, e o pior era que essa característica geralmente se ia acentuando à medida que iam envelhecendo.
"- Ele é velho e renheta", tentei fixar a frase da velhota que aderira ao espírito consumista do famoso dia dos namorados, repetindo-a baixinho algumas vezes.
Olhei outra vez para a mulher e então percebi que ela estava contente, enquanto pagava na caixa os boxers de gosto duvidoso. Afinal, aquela frase estava cheia de carinho e de ternura, estava sim senhora. E o amor também é isso, aceitar as fragilidades do outro como quem estende a mão para aceitar uma flor.
" - Muito bem, uma senhora dessa idade e que ainda se lembra do Dia de São Valentim!" Quiseram saber se ele também lhe ia oferecer uma prenda e ela riu-se outra vez, enquanto finalmente se decidia por uns boxers: - "Ele é velho e renheta."
"- E mesmo assim a senhora compra-lhe um presente, imagine-se se ele não fosse renheta!" Novas gargalhadas encheram a loja e eu anotei de cabeça a intenção de registar o adjectivo "renheta". Renheta é um adjectivo construído a partir do verbo renhir, que segundo o dicionário da Porto Editora significa "combater com denodo, com fúria; altercar; porfiar."
Pensei com os meus botões que antigamente quase todos os maridos eram renhetas, e o pior era que essa característica geralmente se ia acentuando à medida que iam envelhecendo.
"- Ele é velho e renheta", tentei fixar a frase da velhota que aderira ao espírito consumista do famoso dia dos namorados, repetindo-a baixinho algumas vezes.
Olhei outra vez para a mulher e então percebi que ela estava contente, enquanto pagava na caixa os boxers de gosto duvidoso. Afinal, aquela frase estava cheia de carinho e de ternura, estava sim senhora. E o amor também é isso, aceitar as fragilidades do outro como quem estende a mão para aceitar uma flor.
Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
Duas facas cruzadas
Duas facas cruzadas em cima da mesma mesa também não é bom.
Sempre ouvi dizer e é bem mais compreensível do que a superstição das duas luzes acesas. As facas encerram um simbolismo negativo bastante evidente.
O pior é que a violência anda por aí, em todos os cantos, mesmo sem facas cruzadas ao acaso sobre uma qualquer mesa de cozinha, por entre a azáfama de um qualquer cozinhado.
Sempre ouvi dizer e é bem mais compreensível do que a superstição das duas luzes acesas. As facas encerram um simbolismo negativo bastante evidente.
O pior é que a violência anda por aí, em todos os cantos, mesmo sem facas cruzadas ao acaso sobre uma qualquer mesa de cozinha, por entre a azáfama de um qualquer cozinhado.
Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
Duas luzes em cima da mesma mesa
"Não é bom ter duas luzes acesas em cima da mesma mesa". Transmitiram-me esta velha máxima durante a infância, no tempo em que ainda não tínhamos luz eléctrica em casa.
Mal começava a aproximar-se a noite, era preciso confirmar se havia petróleo suficiente no velho candeeiro, com a sua barriga de vidro transparente com desenhos em relevo e o seu vidro também com barriga e pequeno rebordo em cima, em jeito de folho. Era preciso também confirmar se a torcida estava bem, às vezes era preciso aparar a parte de cima com uma tesoura.
Não sei bem como nem quando, mas a partir de certa altura passámos a ter em casa uma luz especial, um petromax, à volta da qual havia todos os inícios de noite um verdadeiro ritual. Era uma luz em metal, alta e elegante, com uma barriga de metal que também se alimentava a petróleo. Para funcionar precisava de uma espécie de pequeno saco de seda, fino e mágico, que devia estar muito bem colocado ao meio. Havia uma série de procedimentos que era preciso seguir cuidadosamente, era uma autêntica arte conseguir que os serões fossem tão luminosos. Nunca me esqueci do barulho que o petromax fazia, um barulho de fundo que acompanhou muitas cópias, ditados, contas, tabuadas e numeração romana, os deveres da minha escola primária.
Duas luzes em cima da mesma mesa não é coisa boa. Dizem que dá azar. Pois dá, ora se dá. Como compreendo a antiga e sábia expressão. Duas luzes acesas em cima da mesma mesa fazem mal, sobretudo à conta da electricidade. As luzes já não são de petróleo, mas o petróleo continua a mandar no mundo.
Mal começava a aproximar-se a noite, era preciso confirmar se havia petróleo suficiente no velho candeeiro, com a sua barriga de vidro transparente com desenhos em relevo e o seu vidro também com barriga e pequeno rebordo em cima, em jeito de folho. Era preciso também confirmar se a torcida estava bem, às vezes era preciso aparar a parte de cima com uma tesoura.
Não sei bem como nem quando, mas a partir de certa altura passámos a ter em casa uma luz especial, um petromax, à volta da qual havia todos os inícios de noite um verdadeiro ritual. Era uma luz em metal, alta e elegante, com uma barriga de metal que também se alimentava a petróleo. Para funcionar precisava de uma espécie de pequeno saco de seda, fino e mágico, que devia estar muito bem colocado ao meio. Havia uma série de procedimentos que era preciso seguir cuidadosamente, era uma autêntica arte conseguir que os serões fossem tão luminosos. Nunca me esqueci do barulho que o petromax fazia, um barulho de fundo que acompanhou muitas cópias, ditados, contas, tabuadas e numeração romana, os deveres da minha escola primária.
Duas luzes em cima da mesma mesa não é coisa boa. Dizem que dá azar. Pois dá, ora se dá. Como compreendo a antiga e sábia expressão. Duas luzes acesas em cima da mesma mesa fazem mal, sobretudo à conta da electricidade. As luzes já não são de petróleo, mas o petróleo continua a mandar no mundo.
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Nós num colar de ouro
Sempre ouvi dizer isto, desde bem pequena: não se deve dar nós num colar de ouro, porque dá azar. Na verdade, as pessoas diziam "nóses", numa bizarra forma popular de construir o plural de "nó."
É uma superstição cujo resultado eu não posso afiançar, já que nunca tive colar de ouro.
Em vez de um colar, os meus padrinhos de baptismo, os meus queridos avolitos, deram-me uma pulseira, da qual muito se orgulhavam.
Quiseram dar-me algo diferente, provavelmente a pulseira até custou mais do que o tradicional colar com cruz, mas durante toda a minha infância eu perguntava à minha mãe porque é que não tinha um colar, como todos os meus irmãos. Dizem que a galinha do vizinho é sempre melhor do que a nossa, ora aí está.
É uma superstição cujo resultado eu não posso afiançar, já que nunca tive colar de ouro.
Em vez de um colar, os meus padrinhos de baptismo, os meus queridos avolitos, deram-me uma pulseira, da qual muito se orgulhavam.
Quiseram dar-me algo diferente, provavelmente a pulseira até custou mais do que o tradicional colar com cruz, mas durante toda a minha infância eu perguntava à minha mãe porque é que não tinha um colar, como todos os meus irmãos. Dizem que a galinha do vizinho é sempre melhor do que a nossa, ora aí está.
Inzoneira
- "Não te faças inzoneira!" Há muitos anos, já não sei se foi no baptizado ou no primeiro aniversário da minha filha, a minha mãe deu-me este conselho com a maior das seriedades. Apercebo-me agora de que sempre o cumpri à risca.
Há poucos dias, numa roda de amigos, alguém me colocava no topo das pessoas da sua lista de conhecimentos que têm por hábito fazer comida a mais nas festas. Do género de chegar para todos e para mais alguém que apareça e de ser mais do que suficiente para todos repetirem e ainda ficar para o dia seguinte e para os outros também, graças a Deus.
Com um sorriso, recordando subitamente o velho conselho da minha mãe, respondi: "- Isso é porque não sou inzoneira."
De entre os presentes, ninguém conhecia o termo "inzoneira", ou "inzona", como se diz nalgumas zonas da Madeira. Uma pessoa inzoneira é uma pessoa que poupa na comida, que faz tudo à rasquinha quando tem convidados. O povo diz "que mais vale sobrar do que faltar" e foi isso que sempre me ensinaram. Felizmente, não sou inzoneira.
Nota:
Depois de ter escrito este texto, fui alertada para a existência da palavra "onzeneiro", que significa usurário: aquele que empresta com usura; agiota; avarento.
Há poucos dias, numa roda de amigos, alguém me colocava no topo das pessoas da sua lista de conhecimentos que têm por hábito fazer comida a mais nas festas. Do género de chegar para todos e para mais alguém que apareça e de ser mais do que suficiente para todos repetirem e ainda ficar para o dia seguinte e para os outros também, graças a Deus.
Com um sorriso, recordando subitamente o velho conselho da minha mãe, respondi: "- Isso é porque não sou inzoneira."
De entre os presentes, ninguém conhecia o termo "inzoneira", ou "inzona", como se diz nalgumas zonas da Madeira. Uma pessoa inzoneira é uma pessoa que poupa na comida, que faz tudo à rasquinha quando tem convidados. O povo diz "que mais vale sobrar do que faltar" e foi isso que sempre me ensinaram. Felizmente, não sou inzoneira.
Nota:
Depois de ter escrito este texto, fui alertada para a existência da palavra "onzeneiro", que significa usurário: aquele que empresta com usura; agiota; avarento.
Segunda-feira, Janeiro 28, 2008
Raspou-se!
Uma senhora do Monte descrevia um furto à sua casa, explicando que chegou a ver o ladrão. Logo, porém, lamentava: "-Mas ele raspou-se!"
Não é caso para rir, bem pelo contrário, mas eu deixei escapar um sorriso porque não ouvia este verbo há muito tempo. "Raspou-se!" era antigamente utilizado como sinónimo de fugir, escapar. De tal forma se foi perdendo a expressão na linguagem mais moderna, que julguei tratar-se talvez de um regionalismo.
Estava enganada. O verbo "raspar-se" com este sentido está no dicionário de português e isto vem provar uma ideia que sempre me atormentou. O nosso vocabulário tem vindo a empobrecer, aos poucos vai se encurtando em vez de se alargar.
O ladrão que visitou a casa da pobre senhora, no Monte, raspou-se. Hoje sou eu que tenho vontade de me raspar, não faço ideia para onde, se alguém souber onde se apanha o autocarro para outro planeta que me avise, por favor.
Não é caso para rir, bem pelo contrário, mas eu deixei escapar um sorriso porque não ouvia este verbo há muito tempo. "Raspou-se!" era antigamente utilizado como sinónimo de fugir, escapar. De tal forma se foi perdendo a expressão na linguagem mais moderna, que julguei tratar-se talvez de um regionalismo.
Estava enganada. O verbo "raspar-se" com este sentido está no dicionário de português e isto vem provar uma ideia que sempre me atormentou. O nosso vocabulário tem vindo a empobrecer, aos poucos vai se encurtando em vez de se alargar.
O ladrão que visitou a casa da pobre senhora, no Monte, raspou-se. Hoje sou eu que tenho vontade de me raspar, não faço ideia para onde, se alguém souber onde se apanha o autocarro para outro planeta que me avise, por favor.
Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
Cantiga
Ah Júlia, ah Júlia, ah Júlia
Que é, que é, que é
Quebrastes a caneca
Já não bebes mais café
Ah Júlia, ah Júlia, ah Júlia
O que tens dentro da caixa
Uma garrafa de vinho
P'ra se levar à Camacha
(Recolhida em 1986)
Sempre gostei do nome Júlia. Antigamente havia muitas, hoje não conheço nenhuma. Ainda não se lembraram de o recuperar, tal como fizeram com outros "nomes de velha", como diz a minha mãe com muita graça.
Que é, que é, que é
Quebrastes a caneca
Já não bebes mais café
Ah Júlia, ah Júlia, ah Júlia
O que tens dentro da caixa
Uma garrafa de vinho
P'ra se levar à Camacha
(Recolhida em 1986)
Sempre gostei do nome Júlia. Antigamente havia muitas, hoje não conheço nenhuma. Ainda não se lembraram de o recuperar, tal como fizeram com outros "nomes de velha", como diz a minha mãe com muita graça.
O cantar e o bailar
O cantar vem da cabeça
O bailar das pernas vem
O cantar e o bailar
Não tiram nada a ninguém
Quem canta seu mal espanta
Quem chora seu mal aguenta
Eu canto para esquecer
Uma dor que me atormenta
Hei-de cantar e bailar
E hei-de dar palmas à toa
O cantar e o bailar
Não me tiram d'eu ser boa
Eu hei-de morrer cantando
Já que chorando nasci
Eu agora vou cantar
Já que eu cheguei aqui
Ah Maria canta e baila
E abana o teu panasqueiro
Qu' os que não cantam nem bailam
São os que morrem primeiro
(Quadras recolhidas no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço)
Na altura em que se cantavam estas quadras e na altura em que as recolhi, ainda não tinha sido editado "O Segredo". Mas o povo sabia.
O bailar das pernas vem
O cantar e o bailar
Não tiram nada a ninguém
Quem canta seu mal espanta
Quem chora seu mal aguenta
Eu canto para esquecer
Uma dor que me atormenta
Hei-de cantar e bailar
E hei-de dar palmas à toa
O cantar e o bailar
Não me tiram d'eu ser boa
Eu hei-de morrer cantando
Já que chorando nasci
Eu agora vou cantar
Já que eu cheguei aqui
Ah Maria canta e baila
E abana o teu panasqueiro
Qu' os que não cantam nem bailam
São os que morrem primeiro
(Quadras recolhidas no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço)
Na altura em que se cantavam estas quadras e na altura em que as recolhi, ainda não tinha sido editado "O Segredo". Mas o povo sabia.
A unha e a calçada
"Tenho ciumes armados
à porta da minha amada.
Rapaz, eu gosto de ti
com a unha da calçada".
Quando cantou esta quadra, a minha avolita, que Deus lhe dê o céu, fez questão de me explicar que esta é uma forma de dizer o quando não se gosta.
Não fui do tempo de andar descalça, a não ser por brincadeira. Mas quem foi desse tempo, como a minha avó, os meus pais, e os meus tios, percebe bem a metáfora e não precisa de explicações.
No Verão, tinham de correr o mais que podiam porque a calçada ardia debaixo dos pés, era impossível estar parado nela. No Inverno, era preciso tentar contornar o lameiro, as poças de água, as pedras caídas no caminho, as pinhas e os paus, era praticamente impossível evitar magoar-se. Fosse em que estação fosse, as topadas eram o pão nosso de cada dia. Unha e calçada não conseguem entender-se em situação nenhuma.
Está explicada a comparação: "Rapaz, eu gosto de ti, como a unha da calçada". Resposta nua e crua, mas clara e directa. Uma virtude de que hoje em dia muitas pessoas não se podem gabar. A covardia de nada dizer é mais confortável e as pessoas, cada vez mais, vivem apegadas à ilusão do conforto, fabricada seja à custa do que for.
à porta da minha amada.
Rapaz, eu gosto de ti
com a unha da calçada".
Quando cantou esta quadra, a minha avolita, que Deus lhe dê o céu, fez questão de me explicar que esta é uma forma de dizer o quando não se gosta.
Não fui do tempo de andar descalça, a não ser por brincadeira. Mas quem foi desse tempo, como a minha avó, os meus pais, e os meus tios, percebe bem a metáfora e não precisa de explicações.
No Verão, tinham de correr o mais que podiam porque a calçada ardia debaixo dos pés, era impossível estar parado nela. No Inverno, era preciso tentar contornar o lameiro, as poças de água, as pedras caídas no caminho, as pinhas e os paus, era praticamente impossível evitar magoar-se. Fosse em que estação fosse, as topadas eram o pão nosso de cada dia. Unha e calçada não conseguem entender-se em situação nenhuma.
Está explicada a comparação: "Rapaz, eu gosto de ti, como a unha da calçada". Resposta nua e crua, mas clara e directa. Uma virtude de que hoje em dia muitas pessoas não se podem gabar. A covardia de nada dizer é mais confortável e as pessoas, cada vez mais, vivem apegadas à ilusão do conforto, fabricada seja à custa do que for.
Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Uma frescalhada.
"- Fazem uma frescalhada e depois não comem quase nada." O tom era de alguma decepção.
Fixei a expressão mas já não me lembro qual era o manjar alvo da frescalhada.
Uma frescalhada é um grande entusiasmo, uma euforia. Talvez se tratasse de uma verdadeira sopa de trigo, uma sopa de trigo à moda antiga. Ou talvez de um fruto delicioso maduro, devidamente preparado e coberto com uma fina camada de açúcar. Ou talvez se tratassem de tomates ingleses ou de araçás. Talvez.
"- Fazem uma frescalhada e depois...." Mas a quantidade não interessa. Não é preciso muito para matar saudades do gosto da infância. Esses sabores merecem sempre uma frescalhada, e nunca perderão a magia ainda que deles provemos apenas um belisco.
Fixei a expressão mas já não me lembro qual era o manjar alvo da frescalhada.
Uma frescalhada é um grande entusiasmo, uma euforia. Talvez se tratasse de uma verdadeira sopa de trigo, uma sopa de trigo à moda antiga. Ou talvez de um fruto delicioso maduro, devidamente preparado e coberto com uma fina camada de açúcar. Ou talvez se tratassem de tomates ingleses ou de araçás. Talvez.
"- Fazem uma frescalhada e depois...." Mas a quantidade não interessa. Não é preciso muito para matar saudades do gosto da infância. Esses sabores merecem sempre uma frescalhada, e nunca perderão a magia ainda que deles provemos apenas um belisco.
Segunda-feira, Janeiro 21, 2008
Varrer dos Armários
A tradição repetiu-se e ainda bem. De 14 para 15 de Janeiro vieram varrer os meus armários. O grupo está cada vez maior, desta vez recebi 23 pessoas. Por entre bolo e licores para os adultos, sumos e bombons para os mais pequenos, vozes, cantigas e risos, passou-se mais uma agradável noite de Santo Amaro. Obrigada pela visita.






Domingo, Janeiro 20, 2008
Isso é mato!
A expressão "Isso é mato"continua a ser muito utilizada para mencionar algo que existe em grande quantidade. Ouço-a e sorrio. Por um lado, porque a expressão me parece subitamente desactualizada e por outro porque a nostalgia da memória me transmite sempre uma sensação de conforto. Um conforto pequenino e seguro, como o quentinho de uma lareira.
Esse calorzinho que me faz sorrir leva-me ao tempo em que "ir ao mato" era uma tarefa diária. Ainda crianças, saíamos de casa para "ir ao mato" e daí a bocado já tinhamos regressado com um pequeno molho, normalmente destinado a acender o lume no lar da minha avó, ou a deitar no chiqueiro do porco. O meu avô também usava mato para deitar nos regos, quando cultivava os poios à volta da casa.
Era fácil ir ao mato porque havia mato por todo o lado, o que não faltava nesse tempo era pinheiros. Aquilo a que chamávamos mato eram as folhas finas dos pinheiros, as faúlhas, que iam caindo ao chão à medida que secavam. Para as apanhar, usávamos uma forquilha, uma alfaia com dois ganchos, que arrastávamos no chão para reunir a faúlha aos montinhos. Depois juntávamos os vários montinhos num molho e regrassávamos a casa, contentes por estar feita a volta que nos tinham mandado fazer nessa tarde.
Havia pinheiros em todas as direcções e nós íamos variando os locais onde íamos ao mato, tal como variávamos as brincadeiras feitas entretanto. Ir ao mato era uma tarefa séria e útil mas também era uma espécie de brincadeira, porque tinha um gosto a liberdade, a despreocupação. Era um daqueles gestos que significava acreditar. Acreditar nos ciclos da natureza e nas pessoas e nas tardes e nas manhãs.
Apetece-me ir ao mato mas já não existe mato, porque já não existem pinheiros, meu Deus, já não pinheiros nem atrás, nem à frente da casa, nem aos lados, desapareceram todos. Já não existem esses locais mágicos, refúgios escuros e verdes, cheirando muito a verde, com sombras desenhadas na faúlha pelos raios de sol que se escapavam por entre as copas das árvores tranquilas.
Sinto os cheiros, sinto a aspereza da faúlha bem seca, sinto os pequenos ruídos, de pequenos ramos que se partiam sob os nossos pés, sinto a leveza dessa tarefa que podia ser também uma brincadeira. Mas tenho de fechar os olhos porque nada está lá, nada. E de repente alguém diz, com a sua sabedoria noutros tempos aprendida "Isso é mato" e eu acordo desse quentinho que parece uma lareira acesa mas não de uma pequena memória. Sorrio então. Sorrio e digo que sim, é verdade: "Isso é mato."
Esse calorzinho que me faz sorrir leva-me ao tempo em que "ir ao mato" era uma tarefa diária. Ainda crianças, saíamos de casa para "ir ao mato" e daí a bocado já tinhamos regressado com um pequeno molho, normalmente destinado a acender o lume no lar da minha avó, ou a deitar no chiqueiro do porco. O meu avô também usava mato para deitar nos regos, quando cultivava os poios à volta da casa.
Era fácil ir ao mato porque havia mato por todo o lado, o que não faltava nesse tempo era pinheiros. Aquilo a que chamávamos mato eram as folhas finas dos pinheiros, as faúlhas, que iam caindo ao chão à medida que secavam. Para as apanhar, usávamos uma forquilha, uma alfaia com dois ganchos, que arrastávamos no chão para reunir a faúlha aos montinhos. Depois juntávamos os vários montinhos num molho e regrassávamos a casa, contentes por estar feita a volta que nos tinham mandado fazer nessa tarde.
Havia pinheiros em todas as direcções e nós íamos variando os locais onde íamos ao mato, tal como variávamos as brincadeiras feitas entretanto. Ir ao mato era uma tarefa séria e útil mas também era uma espécie de brincadeira, porque tinha um gosto a liberdade, a despreocupação. Era um daqueles gestos que significava acreditar. Acreditar nos ciclos da natureza e nas pessoas e nas tardes e nas manhãs.
Apetece-me ir ao mato mas já não existe mato, porque já não existem pinheiros, meu Deus, já não pinheiros nem atrás, nem à frente da casa, nem aos lados, desapareceram todos. Já não existem esses locais mágicos, refúgios escuros e verdes, cheirando muito a verde, com sombras desenhadas na faúlha pelos raios de sol que se escapavam por entre as copas das árvores tranquilas.
Sinto os cheiros, sinto a aspereza da faúlha bem seca, sinto os pequenos ruídos, de pequenos ramos que se partiam sob os nossos pés, sinto a leveza dessa tarefa que podia ser também uma brincadeira. Mas tenho de fechar os olhos porque nada está lá, nada. E de repente alguém diz, com a sua sabedoria noutros tempos aprendida "Isso é mato" e eu acordo desse quentinho que parece uma lareira acesa mas não de uma pequena memória. Sorrio então. Sorrio e digo que sim, é verdade: "Isso é mato."
Sábado, Janeiro 12, 2008
Decerto que vai apaixonar.
-" Decerto que vai apaixonar".
Estávamos a falar de um cão. O Rufa vive sozinho, amarrado por uma corrente, junto à casa do meu tio Catorze e da minha Tia Salomé, que Deus lhes dê o céu.
Um dia destes, soltou-se. Não cabendo em si de contente, veio às carreiras até a casa dos meus pais juntar-se ao irmão, Rafa. Saltou, correu, fez piruetas no ar, atirou-se às visitas à procura de mimos.... Foi uma autêntica festa, que só durou um dia, até ao meu pai ter resolvido o problema da corrente rebentada.
No momento em que foi amarrado junto à sua casota, no terreiro da casa abandonada onde não passa quase ninguém e que ele guarda com tanto esmero, dando sinal à menor aproximação, o Rufa calou-se. Meteu-se dentro de si e não emitiu um som.
Ali ficou, quieto. Simplesmente, deixou de ladrar e essa foi a forma que encontrou de entristecer.
- "Decerto que vai apaixonar" - exclamou a minha mãe, fazendo acordar em mim a memória desse verbo de antigamente. Apaixonar, usado assim, na forma de um verbo intransitivo e não reflexivo como se usa no caso da paixão amorosa, significava entristecer de morte.
A minha avó, sempre que via alguém muito triste, de uma tristeza sem tamanho e sem fundo, exclamava, numa pergunta que não exigia resposta: " Será que ela/ele vai apaixonar?"
E se estivesse de pachorra, contava casos de pessoas que tinham apaixonado e acabaram por morrer. "- Apaixonou, criou uma postema e morreu." Eu sempre acreditei nos saberes da minha avó. Desde essa altura, sei que é possível morrer de tristeza.
Estávamos a falar de um cão. O Rufa vive sozinho, amarrado por uma corrente, junto à casa do meu tio Catorze e da minha Tia Salomé, que Deus lhes dê o céu.
Um dia destes, soltou-se. Não cabendo em si de contente, veio às carreiras até a casa dos meus pais juntar-se ao irmão, Rafa. Saltou, correu, fez piruetas no ar, atirou-se às visitas à procura de mimos.... Foi uma autêntica festa, que só durou um dia, até ao meu pai ter resolvido o problema da corrente rebentada.
No momento em que foi amarrado junto à sua casota, no terreiro da casa abandonada onde não passa quase ninguém e que ele guarda com tanto esmero, dando sinal à menor aproximação, o Rufa calou-se. Meteu-se dentro de si e não emitiu um som.
Ali ficou, quieto. Simplesmente, deixou de ladrar e essa foi a forma que encontrou de entristecer.
- "Decerto que vai apaixonar" - exclamou a minha mãe, fazendo acordar em mim a memória desse verbo de antigamente. Apaixonar, usado assim, na forma de um verbo intransitivo e não reflexivo como se usa no caso da paixão amorosa, significava entristecer de morte.
A minha avó, sempre que via alguém muito triste, de uma tristeza sem tamanho e sem fundo, exclamava, numa pergunta que não exigia resposta: " Será que ela/ele vai apaixonar?"
E se estivesse de pachorra, contava casos de pessoas que tinham apaixonado e acabaram por morrer. "- Apaixonou, criou uma postema e morreu." Eu sempre acreditei nos saberes da minha avó. Desde essa altura, sei que é possível morrer de tristeza.
Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
Levantada
O contrário de acervada. Dito em tom de crítica, sempre. Antigamente, claro está. Porque hoje em dia, ser levantada é mais giro, está mais na moda, é mais bem visto do que ser "acervada".
Nunca ouvi o adjectivo no masculino. Ora bem.
Nunca ouvi o adjectivo no masculino. Ora bem.
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Acervada
Nalgum tempo (a minha avó dizia sempre assim, em vez de dizer antigamente) este era um dos melhores atributos que uma rapariga podia ter. Ser acervada era uma característica essencial, talvez a mais essencial de todas, pois era a garantia de um bom casamento, segundo os parâmetros da época e o julgamento do povo. As raparigas acervadas não saíam desnecessariamente, nem falavam com estranhos, nem se dedicavam a olhar para os rapazes indiscriminadamente.
Uma pessoa acervada era, sobretudo, uma pessoa sossegada.
Mas no caso dos rapazes, ser acervado não era um adjectivo tão elogiado como no caso das raparigas, acho até que acabava por ser um pouco pejorativo. Os rapazes queriam-se mais extrovertidos, despachados, talvez até um pouco atrevidos; se fossem quietos demais, se escolhessem o aconchego do lar em vez das idas à venda ou aos arraiais com os amigos, em breve alguém começaria a "fazer pouco" e nenhuma rapariga o aceitaria.
Há muito tempo que não ouço o adjectivo "acervado/a" ser utilizado na linguagem corrente. É um facto. E não foi só a linguagem que caiu em desuso, foi também o comportamento.
Uma pessoa acervada era, sobretudo, uma pessoa sossegada.
Mas no caso dos rapazes, ser acervado não era um adjectivo tão elogiado como no caso das raparigas, acho até que acabava por ser um pouco pejorativo. Os rapazes queriam-se mais extrovertidos, despachados, talvez até um pouco atrevidos; se fossem quietos demais, se escolhessem o aconchego do lar em vez das idas à venda ou aos arraiais com os amigos, em breve alguém começaria a "fazer pouco" e nenhuma rapariga o aceitaria.
Há muito tempo que não ouço o adjectivo "acervado/a" ser utilizado na linguagem corrente. É um facto. E não foi só a linguagem que caiu em desuso, foi também o comportamento.
Sexta-feira, Janeiro 04, 2008
Burricar ou dizer burridades
Antigamente, as pessoas burricavam. Passavam horas a dizer burridades, em longos serões, à volta da mesa iluminada por uma luz de petróleo.
As pessoas divertiam-se a burricar. E sabia tão bem! Sabia bem o calor humano à volta da mesa ainda com migalhas de pão preto já duro e com os pratos a cheirar à massa com couves que servira de ceia.
Burricar é dizer asneiras. E tudo, tudo mesmo, mesmo tudo, servia de pretexto para garantir o entertenimento necessário à vida, nessa altura em que não havia televisão, nem livros, nem computador, nem telemóvel, nem leitor de Mps nem nada do que existe agora.
Eu lembro-me de não termos luz eléctrica em casa. De não termos televisão. De não termos giradiscos. De não termos nenhum livro, à excepção dos livros da primeira e da segunda classe, sendo que o da primeira tinha sido meu no ano anterior e estava a ser usado pela minha irmã do meio e no ano seguinte, quando eu tivesse o da terceira, passaria para a minha irmã mais nova.
Lembro-me de ver os adultos, depois de um longo dia de trabalho e de inúmeras dificuldades, a rirem muito com as burridades que inventavam para dizerem uns dos outros.
Num tempo anterior, na juventude dos meus pais e dos meus tios, altura em que as famílias eram muito mais numerosas, burricava-se muito mais. As burridades eram o pão nosso de cada dia, e era isso que tornava a vida mais fácil de ser vivida, essa alegria gerada pelas coisas mais insignificantes e impensáveis.
Às vezes metiam-se com os namoricos uns dos outros, jurando a pés juntos que certa rapariga estava interessada em determinado rapaz ou vice-versa e que os tinham visto olhar um para o outro no adro da igreja ou numa qualqquer encruzilhada de caminho. Às vezes limitavam-se a imitar formas de falar, sobretudo se a pessoa fosse fanhunga ou tivesse outra qualquer característica fora do normal, formas de andar ou certos jeitos. Às vezes peguilhavam com pequenos episódios insólitos, ou recordavam coisas passadas há muito ou há pouco tempo.
Fosse sobre o que fosse, burricar sabia bem.
Hoje em dia não há tempo, nem pessoas suficientes, para ocupar os serões a dizer burridades. A única excepção é quando os emigrantes da família regressam por breves períodos e nos sentamos à volta da mesa do jantar, e de repente somos mais, e dá jeito recordar episódios insólitos e características estranhas e peguilhar com isto e com aquilo. Nessas alturas, sim burricamos. E sabe tão bem e tenho tantas saudades.
As pessoas divertiam-se a burricar. E sabia tão bem! Sabia bem o calor humano à volta da mesa ainda com migalhas de pão preto já duro e com os pratos a cheirar à massa com couves que servira de ceia.
Burricar é dizer asneiras. E tudo, tudo mesmo, mesmo tudo, servia de pretexto para garantir o entertenimento necessário à vida, nessa altura em que não havia televisão, nem livros, nem computador, nem telemóvel, nem leitor de Mps nem nada do que existe agora.
Eu lembro-me de não termos luz eléctrica em casa. De não termos televisão. De não termos giradiscos. De não termos nenhum livro, à excepção dos livros da primeira e da segunda classe, sendo que o da primeira tinha sido meu no ano anterior e estava a ser usado pela minha irmã do meio e no ano seguinte, quando eu tivesse o da terceira, passaria para a minha irmã mais nova.
Lembro-me de ver os adultos, depois de um longo dia de trabalho e de inúmeras dificuldades, a rirem muito com as burridades que inventavam para dizerem uns dos outros.
Num tempo anterior, na juventude dos meus pais e dos meus tios, altura em que as famílias eram muito mais numerosas, burricava-se muito mais. As burridades eram o pão nosso de cada dia, e era isso que tornava a vida mais fácil de ser vivida, essa alegria gerada pelas coisas mais insignificantes e impensáveis.
Às vezes metiam-se com os namoricos uns dos outros, jurando a pés juntos que certa rapariga estava interessada em determinado rapaz ou vice-versa e que os tinham visto olhar um para o outro no adro da igreja ou numa qualqquer encruzilhada de caminho. Às vezes limitavam-se a imitar formas de falar, sobretudo se a pessoa fosse fanhunga ou tivesse outra qualquer característica fora do normal, formas de andar ou certos jeitos. Às vezes peguilhavam com pequenos episódios insólitos, ou recordavam coisas passadas há muito ou há pouco tempo.
Fosse sobre o que fosse, burricar sabia bem.
Hoje em dia não há tempo, nem pessoas suficientes, para ocupar os serões a dizer burridades. A única excepção é quando os emigrantes da família regressam por breves períodos e nos sentamos à volta da mesa do jantar, e de repente somos mais, e dá jeito recordar episódios insólitos e características estranhas e peguilhar com isto e com aquilo. Nessas alturas, sim burricamos. E sabe tão bem e tenho tantas saudades.
Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
O Biquica
- "É como o Biquica!" Uma vez mais, deparo-me com esta personagem, que não sei quem é. Eu ma vez mais, fico curiosa. Pergunto quem era, deve ter sido alguém esse tal Biquica, e de certeza que tem uma história. Mas uma vez mais, em vez dessa informação, repetem-me o significado da expressão, que tem uma conotação negativa.
Quando se diz que alguém é "como o Biquica", usa-se sempre um tom reprovador.
Ora bem. Não é nada bom ser como o "Biquica": "Não sei qual é o gosto de ir para lá, de biqu'aberto." Aqui a critica aumenta de tom: "Como o Biquica."
A mulher irrita-se mas o homem não se importa de ser "como o Biquica". Indiferente à resonda, abala para o seu destino, uma casa qualquer, de um qualquer conhecido, onde há uma festa de anos ou uma matança de porco ou uma prova de vinho novo ou apenas um convívio familiar, para o qual não foi directamente convidado. Vai a reboque de outros. Não se importa de ser "como o Biquica", seja quem for esta personagem, cuja história não conheço.
Quando se diz que alguém é "como o Biquica", usa-se sempre um tom reprovador.
Ora bem. Não é nada bom ser como o "Biquica": "Não sei qual é o gosto de ir para lá, de biqu'aberto." Aqui a critica aumenta de tom: "Como o Biquica."
A mulher irrita-se mas o homem não se importa de ser "como o Biquica". Indiferente à resonda, abala para o seu destino, uma casa qualquer, de um qualquer conhecido, onde há uma festa de anos ou uma matança de porco ou uma prova de vinho novo ou apenas um convívio familiar, para o qual não foi directamente convidado. Vai a reboque de outros. Não se importa de ser "como o Biquica", seja quem for esta personagem, cuja história não conheço.
Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
Volta e meia
Reparei hoje nesta expressão e sorri. "Volta e meia".
"Volta e meia" quer dizer de vez em quando e é uma expressão ainda muito utilizada.
Nesta véspera de ano novo, pareceu-me a expressão ideal para colocar neste meu cantinho de memórias e de palavras.
Que em 2008 os sorrisos enfeitem os rostos. Volta e meia. Digo volta e meia porque às vezes chorar também é importante, por vezes é até mais importante e mais difícil de conseguir.
Que os sonhos se multipliquem à medida de cada um e que tornem o mundo melhor.
Volta e meia. Porém. Porque às vezes, muitas vezes, sem os pés bem assentes na terra, os sonhos perdem-se no ar, são sonhos "mal empregados" e os sonhos não se devem desperdiçar.
Que os amigos e as familias se encontrem, que se visitem, que partilhem. Volta e meia. Porque os silêncios são tão importantes como as palavras e porque estar sozinho é por vezes ainda mais importante, ainda mais necessário, do que estar acompanhado.
Que viajem muito, muito. Volta e meia. Porque às vezes as viagens devem ser interiores, apenas. Essas viagens dentro de nós serão tão importantes como as outras, as viagens mundo além.
E o Amor. Sempre, sempre. Sempre o amor.
Mas. Volta e meia.
Que o amor de cada um se dirija em primeiro lugar a si mesmo. Para que se reflicta no outro com a intensidade do sol refectido no mar e com a beleza da lua refectida num lago.
Volta e meia.
Porque. Afinal. Mais facilmente se reconhecem os melhores momentos se também conhecermos os poiores.
Um bom Ano. Volta e meia.
"Volta e meia" quer dizer de vez em quando e é uma expressão ainda muito utilizada.
Nesta véspera de ano novo, pareceu-me a expressão ideal para colocar neste meu cantinho de memórias e de palavras.
Que em 2008 os sorrisos enfeitem os rostos. Volta e meia. Digo volta e meia porque às vezes chorar também é importante, por vezes é até mais importante e mais difícil de conseguir.
Que os sonhos se multipliquem à medida de cada um e que tornem o mundo melhor.
Volta e meia. Porém. Porque às vezes, muitas vezes, sem os pés bem assentes na terra, os sonhos perdem-se no ar, são sonhos "mal empregados" e os sonhos não se devem desperdiçar.
Que os amigos e as familias se encontrem, que se visitem, que partilhem. Volta e meia. Porque os silêncios são tão importantes como as palavras e porque estar sozinho é por vezes ainda mais importante, ainda mais necessário, do que estar acompanhado.
Que viajem muito, muito. Volta e meia. Porque às vezes as viagens devem ser interiores, apenas. Essas viagens dentro de nós serão tão importantes como as outras, as viagens mundo além.
E o Amor. Sempre, sempre. Sempre o amor.
Mas. Volta e meia.
Que o amor de cada um se dirija em primeiro lugar a si mesmo. Para que se reflicta no outro com a intensidade do sol refectido no mar e com a beleza da lua refectida num lago.
Volta e meia.
Porque. Afinal. Mais facilmente se reconhecem os melhores momentos se também conhecermos os poiores.
Um bom Ano. Volta e meia.
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
Um ananás e um queijo
Todos os natais a minha mãe ia à cidade e chegava a casa com um ananás e com um queijo inteiro. Esses eram os únicos luxos dos natais da minha infância e adolescência.
E ainda hoje o natal só é verdadeiramente natal se a minha mãe comprar um queijo inteiro e um ananás para a salada de fruta que serve de sobremesa ao almoço do dia de Festa e que todos ajudamos a fazer.
Este Natal vai ser mais pequenino, eu tenho este feitio de medir o Natal pelas presenças das pessoas de quem gosto. E quando algumas pessoas que estão longe continuam longe, apesar de ser dia de Festa e de a mesa estar posta como sempre, com a carne de vinho-e-alhos do porco que o meu pai tratou durante o ano, o natal não pode ter o mesmo tamanho, o tamanho que sempre teve.
Porém.
A minha mãe comprou um ananás inteiro e um queijo inteiro. A minha mãe fez broas de coco e fez broas de mel e fez licor de maracujá e fez tin-ta-ton. E o almoço voltará a ser carne-de-vinho-e-alhos com salada de fruta para a sobremesa. E os que cá estão estarão reunidos e contentes.
É natal.
E ainda hoje o natal só é verdadeiramente natal se a minha mãe comprar um queijo inteiro e um ananás para a salada de fruta que serve de sobremesa ao almoço do dia de Festa e que todos ajudamos a fazer.
Este Natal vai ser mais pequenino, eu tenho este feitio de medir o Natal pelas presenças das pessoas de quem gosto. E quando algumas pessoas que estão longe continuam longe, apesar de ser dia de Festa e de a mesa estar posta como sempre, com a carne de vinho-e-alhos do porco que o meu pai tratou durante o ano, o natal não pode ter o mesmo tamanho, o tamanho que sempre teve.
Porém.
A minha mãe comprou um ananás inteiro e um queijo inteiro. A minha mãe fez broas de coco e fez broas de mel e fez licor de maracujá e fez tin-ta-ton. E o almoço voltará a ser carne-de-vinho-e-alhos com salada de fruta para a sobremesa. E os que cá estão estarão reunidos e contentes.
É natal.
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
O que é que eu vou fazer?
- O que é que eu vou fazer?
- Descoser a saia e tornar a coser.
- Descoser a saia e tornar a coser.
Uma safatinho da França
Quando eu era mais pequena
Perguntava a minha mãe
Como é que se nascia
Como é qu' eu nasci também
Minha mãe me respondeu (?)
Quando tu eras pequeninha
Quando eras menor criança
Apareceste nesta casa
num safatinho da França
A propósito de Natal, logo de nascimento, lembrei-me destas quadras que recolhi no meu sítio. São quadras de um antigo tempo, antes do meu tempo, e anteriores também à infância da minha mãe, quando eram as parteiras que traziam as crianças escondidas.
Nesse antigo tempo, era dito às crianças que os bebés vinham num "safatinho da França". Escrevi "safatinho" porque cresci onvindo esta palavra mas quando a ouvia era mesmo assim, sem nenhum "a" no início. Só depois vim a descobrir que a palavra correcta, sinónima de cesto, é "açafate".
Tenho a cantiga anotada assim, toda de seguida, mas separei o verso do meio porque me pareceu que talvez falte qualquer coisa para termos várias quadras, ou talvez seja assim mesmo. Também não sei o som da cantiga, nem sequer sei se isto era uma cantiga ou se eram versos apenas ditos, tipo história. Aguardo contributos para esclarecer o mistério.
Perguntava a minha mãe
Como é que se nascia
Como é qu' eu nasci também
Minha mãe me respondeu (?)
Quando tu eras pequeninha
Quando eras menor criança
Apareceste nesta casa
num safatinho da França
A propósito de Natal, logo de nascimento, lembrei-me destas quadras que recolhi no meu sítio. São quadras de um antigo tempo, antes do meu tempo, e anteriores também à infância da minha mãe, quando eram as parteiras que traziam as crianças escondidas.
Nesse antigo tempo, era dito às crianças que os bebés vinham num "safatinho da França". Escrevi "safatinho" porque cresci onvindo esta palavra mas quando a ouvia era mesmo assim, sem nenhum "a" no início. Só depois vim a descobrir que a palavra correcta, sinónima de cesto, é "açafate".
Tenho a cantiga anotada assim, toda de seguida, mas separei o verso do meio porque me pareceu que talvez falte qualquer coisa para termos várias quadras, ou talvez seja assim mesmo. Também não sei o som da cantiga, nem sequer sei se isto era uma cantiga ou se eram versos apenas ditos, tipo história. Aguardo contributos para esclarecer o mistério.
Quadra sobre a Festa
Pega lá da minha mão
Deita fora o que não presta
Isto é que é uma alegria
Chegarmos todos à Festa!
Recolhida em 1987
Deita fora o que não presta
Isto é que é uma alegria
Chegarmos todos à Festa!
Recolhida em 1987
Domingo, Dezembro 16, 2007
Cheiros da Festa
Hoje cheirou-me a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro de dois metros e uma quarta de plástico transparente que a minha mãe comprou na loja de ferragens para colocar sobre a toalha da mesa grande, a mesa onde almoçamos sempre no dia de Natal.
Voltámos a casa e cheirou-me novamente a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro de uma pequena lata de tinta branca que o meu pai estava a dar nas velhas portas dos quartos.
A semana passada também me cheirou a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro do grão-de-bico e do bacalhau temperado com muita salsa e com muito alho e com muito azeite, que é desde sempre o prato servido aos homens que vêm ajudar a matar o porco.
A meio da semana também me cheirou a festa. E o cheiro da festa era o cheiro dos torresmos que estavam sobre a mesa em duas grandes taças, ainda fumegantes, depois de ter sido extraída e guardada em frascos a banha de porco.
Cheira-me a Festa. E o cheiro da Festa é sempre um cheiro que apetece guardar dentro dos bolsos para os momentos em que a vida não cheira a nada.
Voltámos a casa e cheirou-me novamente a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro de uma pequena lata de tinta branca que o meu pai estava a dar nas velhas portas dos quartos.
A semana passada também me cheirou a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro do grão-de-bico e do bacalhau temperado com muita salsa e com muito alho e com muito azeite, que é desde sempre o prato servido aos homens que vêm ajudar a matar o porco.
A meio da semana também me cheirou a festa. E o cheiro da festa era o cheiro dos torresmos que estavam sobre a mesa em duas grandes taças, ainda fumegantes, depois de ter sido extraída e guardada em frascos a banha de porco.
Cheira-me a Festa. E o cheiro da Festa é sempre um cheiro que apetece guardar dentro dos bolsos para os momentos em que a vida não cheira a nada.
Sexta-feira, Dezembro 14, 2007
O jogo da laranjinha
Há muitos , muitos anos, no tempo em que o nome Matilde não estava na moda como está agora,(agora parece que todas as meninas se chamam Matilde, se por acaso não se chamarem Inês ou Maria ou Sara ou Beatriz) as crianças cantavam esta cantiga no recreio da escola e à medida que a cantavam faziam os respectivos gestos. Também cantavam "O jogo da laranjinha" nas eiras, quando eram convidadas para brincar na palha, porque era preciso que ela ficasse bem remexida.
O jogo da laranjinha
É feito assim ao lado
Matilde sacode a saia
Matilde levanta o braço
Deita os joelhos à terra
Fica tudo admirado
Matilde dá-me um beijinho
Qu'eu te darei um abraço
Caranguejo não é peixe
Caranguejo peixe é
Vamos dar duas voltinhas
Lá de roda da maré
O jogo da laranjinha
É feito assim ao lado
Matilde sacode a saia
Matilde levanta o braço
Deita os joelhos à terra
Fica tudo admirado
Matilde dá-me um beijinho
Qu'eu te darei um abraço
Caranguejo não é peixe
Caranguejo peixe é
Vamos dar duas voltinhas
Lá de roda da maré
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Reles como trevisco
Trevisco é uma planta selvagem que dizem ser venenosa. Nasce no campo, no meio das outras ervas e lembro-me de antigamente as pessoas terem muito cuidado para não a colherem inadvertidamente, quando apanhavam a "comida" destinada aos animais domésticos.
Ora bem.
Foi devido à característica de venenosa que esta planta passou a ser utilizada como metáfora para o povo se referir às pessoas más. Bastava dizer: "Aquilo é um trevisco". E mais explicações não eram necessárias.
Por vezes era utilizada a forma comparativa: "É reles como trevisco."
Hoje em dia já não sei identificar a planta que dizem ser venenosa e também deixei de ouvir a expressão que me habituei a ouvir na infância e adolescência.
A única coisa que não desapareceu, nem está previsto que desapareça, que eu saiba, ( pelo contrário aumenta a olhos vistos ) são as pessoas com a característica dessa planta selvagem que nasce entre as outras ervas e podia matar um animal doméstico, se acontecesse de, indvertidamente, ser colhida no molho da "comida".
Ora bem.
Foi devido à característica de venenosa que esta planta passou a ser utilizada como metáfora para o povo se referir às pessoas más. Bastava dizer: "Aquilo é um trevisco". E mais explicações não eram necessárias.
Por vezes era utilizada a forma comparativa: "É reles como trevisco."
Hoje em dia já não sei identificar a planta que dizem ser venenosa e também deixei de ouvir a expressão que me habituei a ouvir na infância e adolescência.
A única coisa que não desapareceu, nem está previsto que desapareça, que eu saiba, ( pelo contrário aumenta a olhos vistos ) são as pessoas com a característica dessa planta selvagem que nasce entre as outras ervas e podia matar um animal doméstico, se acontecesse de, indvertidamente, ser colhida no molho da "comida".
Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
Quando a palha larga o trigo
Quando a palha larga o trigo
É da sua natureza
Quando um amor larga outro
É da sua má firmeza
Uma simples quadra do brinco, à volta da qual se podia escrever um tratado. As coisas da natureza. Os problemas da má firmeza. Tanta filosofia em meia dúzia de palavras, o povo é mestre na arte de dizer tudo em quase nada.
Mas deixo-me disso, por ora.
A quadra vale por si. Tal como noutros exemplos que aqui tenho deixado, também neste caso, os dois primeiros versos podem ser usados com outro final, desde que rime. Tenho registado outro exemplo, que ouvi da minha avolita, por alturas da visita do filho mais novo, depois de bastante tempo ausente.
Quando a palha larga o trigo
é da sua natureza
Ah mê filho que 'tás aqui
Tu és a minha beleza
É da sua natureza
Quando um amor larga outro
É da sua má firmeza
Uma simples quadra do brinco, à volta da qual se podia escrever um tratado. As coisas da natureza. Os problemas da má firmeza. Tanta filosofia em meia dúzia de palavras, o povo é mestre na arte de dizer tudo em quase nada.
Mas deixo-me disso, por ora.
A quadra vale por si. Tal como noutros exemplos que aqui tenho deixado, também neste caso, os dois primeiros versos podem ser usados com outro final, desde que rime. Tenho registado outro exemplo, que ouvi da minha avolita, por alturas da visita do filho mais novo, depois de bastante tempo ausente.
Quando a palha larga o trigo
é da sua natureza
Ah mê filho que 'tás aqui
Tu és a minha beleza
Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Deita no chão
- "Não podes, deita no chão."
Fui apanhada de surpresa por esta expressão que não ouvia há bastante tempo.
Afinal, ainda se utiliza, ainda bem! É uma forma popular de reagir a alguém que esteja a cramar. As pessoas por vezes cramam dizendo: - "Não posso."
A resposta surge prontamente: "Não podes, deita no chão".
Antigamente, as pessoas fartavam-se de carregar coisas às costas. Carregavam molhos gigantescos de erva para os animais e de lenha para alimentar o lar, carregavam pedras e outros materiais para construírem as casas em sítios inconcebíveis, carregavam os aguadores de água da fonte. As pessoas carregavam tudo, durante longas distâncias e por caminhos estreitos e íngremes.
Quem foi desse tempo, não pode deixar de responder assim perante alguém que diz "não posso" e não carrega nada, afinal. Não tem peso físico nenhum sobre os ombros e os pesos morais ou existenciais parecem ridículos aos olhos de quem já passou por dificuldades sem conta possível.
- "Não podes, deita no chão." A expressão é acompanhada por um encolher de ombros, seguido da continuação precisa daquilo que estava a ser feito.
E este desimportado "Não podes, deita no chão", assim sem mais nada, obriga-nos a reflectir. Talvez não seja necessário. Talvez não haja realmente nada para deitar no chão.
Fui apanhada de surpresa por esta expressão que não ouvia há bastante tempo.
Afinal, ainda se utiliza, ainda bem! É uma forma popular de reagir a alguém que esteja a cramar. As pessoas por vezes cramam dizendo: - "Não posso."
A resposta surge prontamente: "Não podes, deita no chão".
Antigamente, as pessoas fartavam-se de carregar coisas às costas. Carregavam molhos gigantescos de erva para os animais e de lenha para alimentar o lar, carregavam pedras e outros materiais para construírem as casas em sítios inconcebíveis, carregavam os aguadores de água da fonte. As pessoas carregavam tudo, durante longas distâncias e por caminhos estreitos e íngremes.
Quem foi desse tempo, não pode deixar de responder assim perante alguém que diz "não posso" e não carrega nada, afinal. Não tem peso físico nenhum sobre os ombros e os pesos morais ou existenciais parecem ridículos aos olhos de quem já passou por dificuldades sem conta possível.
- "Não podes, deita no chão." A expressão é acompanhada por um encolher de ombros, seguido da continuação precisa daquilo que estava a ser feito.
E este desimportado "Não podes, deita no chão", assim sem mais nada, obriga-nos a reflectir. Talvez não seja necessário. Talvez não haja realmente nada para deitar no chão.
Terça-feira, Novembro 27, 2007
Daqui até amanhecer
Das muitas quadras populares que fui anotando nas minhas recolhas, alguns ficaram-me na memória, e surgem às vezes do nada, no meio de uma qualquer distracção. Esta é uma delas e o motivo é talvez o de me ter sido dita pela minha querida avolita.
Os dois primeiros versos servem para arrematar quantas cantigas se queira no brinco, no despique, ou no xaramba.
"Quantas horas se não vão daqui até amanhecer." O início está feito, agora é juntar-lhe dois versos com a métrica adequada, sete sílabas, e no final uma palavra que rime com amanhecer. Claro que o processo é sempre ao contrário: sabendo o que quer dizer, o cantador ou cantadeira procura na memória algo que encaixe ali bem e eis que encontra esta frase tão antiga como os avós de todos os avós.
A quadra que por vezes me aparece do nada, no meio de um qualquer distracção, talvez por me ter sido dita com um carinho extremo, pela minha querida avolita, é assim:
"Quantas horas se não vão
Daqui até amanhecer
Todo aquele que faz bem
Nunca s' há-de arrepender."
A minha avolita acreditava piamente naquilo que me disse, em jeito de conselho, na cantiga inventada de repente, num dos momentos em que cheguei junto dela, na sua cadeira de vimes estrategicamente colocada junto da janela, de caderno e caneta na mão, e lhe pedi para se lembrar de algumas cantigas.
Ela acreditava e eu também ainda acredito. Embora tenha perdido a conta às muitas vezes em que a vida já me tentou ensinar o contrário. Na verdade, a vida não tem culpa de nada. São as pessoas com quem nos vamos cruzando, porque todos os caminhos se cruzam com outros caminhos, formando encruzilhadas às vezes com aparência de nenhum sentido, na verdade são as pessoas que às vezes nos fazem duvidar.
Mas a minha avolita acreditava e ela tinha um sorriso tão imensamente luminoso e terno, era tão bonito acreditar. Na cara da minha avolita o acreditar mostrava que tinha razão e era tão bonito."Todo aquele que faz bem/nunca se há-de arrepender." Eu vou teimar, avolita.
Os dois primeiros versos servem para arrematar quantas cantigas se queira no brinco, no despique, ou no xaramba.
"Quantas horas se não vão daqui até amanhecer." O início está feito, agora é juntar-lhe dois versos com a métrica adequada, sete sílabas, e no final uma palavra que rime com amanhecer. Claro que o processo é sempre ao contrário: sabendo o que quer dizer, o cantador ou cantadeira procura na memória algo que encaixe ali bem e eis que encontra esta frase tão antiga como os avós de todos os avós.
A quadra que por vezes me aparece do nada, no meio de um qualquer distracção, talvez por me ter sido dita com um carinho extremo, pela minha querida avolita, é assim:
"Quantas horas se não vão
Daqui até amanhecer
Todo aquele que faz bem
Nunca s' há-de arrepender."
A minha avolita acreditava piamente naquilo que me disse, em jeito de conselho, na cantiga inventada de repente, num dos momentos em que cheguei junto dela, na sua cadeira de vimes estrategicamente colocada junto da janela, de caderno e caneta na mão, e lhe pedi para se lembrar de algumas cantigas.
Ela acreditava e eu também ainda acredito. Embora tenha perdido a conta às muitas vezes em que a vida já me tentou ensinar o contrário. Na verdade, a vida não tem culpa de nada. São as pessoas com quem nos vamos cruzando, porque todos os caminhos se cruzam com outros caminhos, formando encruzilhadas às vezes com aparência de nenhum sentido, na verdade são as pessoas que às vezes nos fazem duvidar.
Mas a minha avolita acreditava e ela tinha um sorriso tão imensamente luminoso e terno, era tão bonito acreditar. Na cara da minha avolita o acreditar mostrava que tinha razão e era tão bonito."Todo aquele que faz bem/nunca se há-de arrepender." Eu vou teimar, avolita.
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Em casa onde não há pão....
"Em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão." Lembrei-me de como este ditado é verdadeiro ao presenciar recentemente o desânimo dos funcionários de uma instituição, confrontados com o facto de serem obrigados a pagar as chamadas telefónicas que haviam sido feitas para resolver assuntos relacionados com o respectivo serviço. Tristeza, revolta, indignação, explicações cruzadas no ar.
A crise está em toda a parte e não cuida de nós. Cuida é de nos atormentar a todos. Além das poupanças em casa, dos cêntimos contados todos os meses, das opções que nem sempre agradam a todos os membros da família, existe essa outra poupança, com regras que nem sempre são compreensíveis, com opções que muitas vezes são no mínimo espatafúrdias, porque ninguém percebe o critério.
"Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão." O velho ditado, curvado e de barbas compridas, muito brancas, rejuvenesce. A crise mantém-no como novo, cada vez mais novo.
A crise está em toda a parte e não cuida de nós. Cuida é de nos atormentar a todos. Além das poupanças em casa, dos cêntimos contados todos os meses, das opções que nem sempre agradam a todos os membros da família, existe essa outra poupança, com regras que nem sempre são compreensíveis, com opções que muitas vezes são no mínimo espatafúrdias, porque ninguém percebe o critério.
"Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão." O velho ditado, curvado e de barbas compridas, muito brancas, rejuvenesce. A crise mantém-no como novo, cada vez mais novo.
Terça-feira, Novembro 20, 2007
Adivinha
Três cada dia
Cada dia três
Uma vez cada ano
Quatro cada mês
Recolhida a 09-07-1986
Solução:
Refeições
Benzer-se
Confissão
Missa
Cada dia três
Uma vez cada ano
Quatro cada mês
Recolhida a 09-07-1986
Solução:
Refeições
Benzer-se
Confissão
Missa
Assobiar o São João
Por vezes assobiava. Mas assobiava tão mal, tão fora do tom, que ninguém conseguia reconhecer os temas musicais. Mesmo assim, João assobiava.
Este é o mesmo João da história anterior, aquele que não sabia se devia comprar um carro ou um olho-de-boi.
Um certo dia, alguém perguntou-lhe: - "O que estás assobiando?" Ele não demorou a responder. Decidido: " - O São João."
Acontece que tais assobios nem de perto nem de longe faziam lembrar a popular cantiga e o caso voltou a ficar na história.
Pessoa que assobie mal, não se livra, no meu sítio, da possibilidade de alguém a interrogar? "- Estás assobiando o São João?" Por vezes, como há tempos ouvi num diálogo entre uma tia minha e o meu pai, que assobiava enquanto cavava, vão mais ao pormenor. - "O que estás assobiando? É o São João?"
Eu nunca tive voz afinada para cantar nem jeito para assobiar. Mas às vezes apetece-me tentar só pelo prazer de talvez ajudar a preservar uma expressão que com o tempo inevitavelmente acabará por cair no esquecimento, como todas as outras.
Este é o mesmo João da história anterior, aquele que não sabia se devia comprar um carro ou um olho-de-boi.
Um certo dia, alguém perguntou-lhe: - "O que estás assobiando?" Ele não demorou a responder. Decidido: " - O São João."
Acontece que tais assobios nem de perto nem de longe faziam lembrar a popular cantiga e o caso voltou a ficar na história.
Pessoa que assobie mal, não se livra, no meu sítio, da possibilidade de alguém a interrogar? "- Estás assobiando o São João?" Por vezes, como há tempos ouvi num diálogo entre uma tia minha e o meu pai, que assobiava enquanto cavava, vão mais ao pormenor. - "O que estás assobiando? É o São João?"
Eu nunca tive voz afinada para cantar nem jeito para assobiar. Mas às vezes apetece-me tentar só pelo prazer de talvez ajudar a preservar uma expressão que com o tempo inevitavelmente acabará por cair no esquecimento, como todas as outras.
Segunda-feira, Novembro 19, 2007
Um carro ou um olho-de-boi?
"- Não sei se compre um carro ou um olho-de-boi!"
Não cheguei a conhecer o autor desta frase que ficou na história e ainda hoje é usada no meu sítio. Era um rapaz com problemas de desenvolvimento intelectual, uma dessas figuras de quem a sorte se esquece e que sobrevivem num mundo à-parte, sem autonomia e sem a percepção da realidade que os envolve.
Por ser assim - as pessoas da altura chamavam-lhe "tontinho", de forma natural e sem qualquer desmerecimento ou descriminação, aceitando a diferença - João não trabalhava nem tinha dinheiro.
Mas tendo num belo dia alquidado alguns trocos, terá exclamado, na indecisão do que fazer com o dinheiro: - "Não sei se compre um carro ou um olho-de-boi!"
O rapaz não tinha a noção do valor do dinheiro e sentia um grande fascínio por olhos-de-boi, adorava esses objectos mágicos capazes de, ainda que de forma tão ténue, vencer a escuridão do mundo.
A fase sobreviveu-lhe. É utilizada para ilustrar situações de indecisão, mas bizarras, por ser demasiado óbvio aquele que deve ser o objecto da escolha, quando a questão nem se deveria colocar.
Não cheguei a conhecer o autor desta frase que ficou na história e ainda hoje é usada no meu sítio. Era um rapaz com problemas de desenvolvimento intelectual, uma dessas figuras de quem a sorte se esquece e que sobrevivem num mundo à-parte, sem autonomia e sem a percepção da realidade que os envolve.
Por ser assim - as pessoas da altura chamavam-lhe "tontinho", de forma natural e sem qualquer desmerecimento ou descriminação, aceitando a diferença - João não trabalhava nem tinha dinheiro.
Mas tendo num belo dia alquidado alguns trocos, terá exclamado, na indecisão do que fazer com o dinheiro: - "Não sei se compre um carro ou um olho-de-boi!"
O rapaz não tinha a noção do valor do dinheiro e sentia um grande fascínio por olhos-de-boi, adorava esses objectos mágicos capazes de, ainda que de forma tão ténue, vencer a escuridão do mundo.
A fase sobreviveu-lhe. É utilizada para ilustrar situações de indecisão, mas bizarras, por ser demasiado óbvio aquele que deve ser o objecto da escolha, quando a questão nem se deveria colocar.
Sábado, Novembro 17, 2007
Ponto dado.
Fora um breve instante de distracção, breve muito breve, apenas o tempo de receber as visitas - duas vizinhas - no canto do terreiro e de as encaminhar para a sala de estar. Um breve instante mas suficiente para o homem ter desaparecido. A mulher quer perguntar uma coisa qualquer ao marido e não o encontra.
- "Mas ele estava cavando no poio, mesmo indágora, onde será que se meteu?" Após mais alguns chamamentos e um investigação muito sumária, ficou provado que o homem se ausentara para a venda com um amigo, que entretanto lhe passara à porta. Tinham caminhado, sorrateiramente, sem ninguém dar por isso.
- "Mas ele estava cavando no poio, mesmo indágora, onde será que se meteu?" Após mais alguns chamamentos e um investigação muito sumária, ficou provado que o homem se ausentara para a venda com um amigo, que entretanto lhe passara à porta. Tinham caminhado, sorrateiramente, sem ninguém dar por isso.