Quinta-feira, Julho 02, 2009
uma pruna
Eu não conhecia a expressão, não sei se só se diz naquela freguesia do norte, mas segundo os meus alunos "está a dar uma pruna" significa exctamente "está a cair sereno". Vivendo e aprendendo, graças a Deus, senão este blog teria os dias contados.
Domingo, Junho 28, 2009
Zenabre
Diz-se de qualquer objecto de metal que comece a oxidar, adquirindo um tom esverdeado e um cheiro diferente, que está com zenabre.
A pulseira em questão era muito bonita mas de pechisbeque. O ouro e a prata não criam zenabre.
Quarta-feira, Junho 24, 2009
Para sarar o imbigo dos bebés
Eram escolhidas duas crianças, um rapaz e uma rapariga, sendo que ele tinha obrigatoriamente de se chamar João e ela Maria. Durante a madrugada, dirigiam-se até um local onde não passasse ninguém e existissem vimieiros. Aí era escolhido um vime que se abria a meio, de cima abaixo, com o cuidado de deixar a ponta inteira e de mantê-lo na planta.
Após estes preparativos, Maria e João colocavam-se um de cada lado do vimieiro e iam passando o bebé de um para o outro por entre a abertura no vime. Enquanto o faziam tinham de repetir o seguinte: " - Que me dás, Maria?/ - Que me dás, João?/ - Um menino roto. / - Para me dares um são." Não me lembro de quantas vezes era necessário repetir estas palavras, mas julgo que eram três.
Terminado este ritual, as duas partes do vime eram cuidadosamente ligadas e enquanto se voltavam a unir, o umbigo da criança ia também sarando, até ficar perfeito.
A receita só resultava se tudo fosse feito durante a madrugada do dia de São João, num lugar onde não fosse habitual passar gente, e por duas crianças, um João e uma Maria.
Terça-feira, Junho 23, 2009
A sorte dos cardos
Certa vez, decidi fazer a sorte dos cardos. Durante o dia, procurei uma planta de cardos, que não era nada difícil de encontrar, algures entre poios e bardos, e apanhava três flores. À noitinha, por entre a algazarra dos rapazes e raparigas saltando à fogueira, velhos búzios tocando e o crepitar de louro verde ardendo, aproximei-me do fogo e queimei as pequenas pétalas de cor lilás dos três cardos. De seguida procurei um lugar para os plantar.
Os três cardos foram plantados ao lado uns dos outros, num lugar que só eu sabia e onde estes não corriam o risco de serem estragados. A cada um atribuí o nome de um rapaz, sendo que a um deles tive orbigatoriamente de atribuir o nome do santo, João. Os outros dois nomes, mandava a tradição, foram escolhidos entre possíveis pretendentes.
No dia seguinte, logo de manhã, lembro-me de correr até ao local onde estavam plantados os cardos. Espantosamente, havia um deles que tinha florescido durante a noite. Segundo a crença popular era esse o sinal que indicava o nome do futuro marido. Pequenas pétalas de cor lilás refilavam no cardo e eu fiquei fascinada com aquela espécie de milagre do santo e da Natureza.
Não casei com nenhum dos dois possíveis pretendentes. Saiu-me o nome do Santo.
Quinta-feira, Junho 18, 2009
boquejar
E não tendo boquejado nada sobre o caso de que já muitos falavam, a interlocutora fez de conta que nada ouvira, que nada sabia.
"Boquejar" significa revelar, desvendar algo que se reveste de algum secretismo, normalmente algo inesperado, algo que não convém deixar passar para as "bocas do mundo". E porque não é desejável, nem convém, são precisamente esses os factos que mais rapidamente chegam aos ouvidos e às bocas das bilhardeiras.
Sábado, Junho 13, 2009
Picar a imagem de Santo António
Mas muitas outras raparigas solteiras, sem olhar a meios para conseguir os fins, usaram o antigo método das picadas com alfinetes para coagir o Santo a arranjar-lhes marido, afinal não há outro santo casamenteiro. Dona Adelaide encolhe os ombros e ouve-se-lhe uma voz doce mas triste: "dizem que sim, parece que resulta". Sorri e continua calmamente a enfeitar com flores brancas e perfumadas o andor do santo que não lhe arranjou marido. Fico a olhá-la em silêncio e apetece-me dizer-lhe que fez bem, afinal qual é o sentido de obter seja o que for recorrendo à tortura? Porém não digo nada nem pergunto nada, não tenho coragem de tentar confirmar as minhas suspeitas. Limito-me a agradecer as explicações e vou embora. Há coisas que parecem difíceis de compreender e talvez tenham uma explicação tão simples como esta história do alfinete. Talvez. Tal como a Dona Adelaide, não sou capaz de recorrer à tortura.
Terça-feira, Junho 09, 2009
alguém que nos quer bem
Sonhei com cães e lembrei-me que esta era uma das muitas sentenças que a minha avó repetia numa enorme lista de interpretação de sonhos guardada apenas na memória. Depois da minha avó, é agora a minha mãe que repete esses ensinamentos que explicam os sonhos à boa maneira popular. Espero ser eu a perpetuar na família estes pequenos dizeres, crenças que não fazem mal a ninguém e nos aproximam da memória das gerações que nos antecederam.
Domingo, Junho 07, 2009
virar o pão ao contrário
Sei que não tenho qualquer tipo de explicação para este receio de virar o pão ao contrário. Lembro-me que a minha avó benzia sempre o pão, antes de o meter no forno, será que tem algo a ver com isso?
Sábado, Maio 30, 2009
criar feição ou tomar sal
Diz-se dos jovens, naquela fase em que o rosto vai mudando e parece estranho, com borbulhas, com um nariz desproporcional, que estão ainda criando feição.
Depois de todas essas transformações naturais da idade, o certo é ficarem mais bonitos, já com o seu rosto de traços definidos, únicos, espelho de uma personalidade.
No meu Sítio, para além de "criar feição", diz-se, com o mesmo significado: "Ainda está tomando sal", ou "Ainda está temperando".
- "Ele ainda está tomando sal...mas vão ver quando estiver temperado, vai ser um belo rapaz." E estas previsões acertam sempre.
Quinta-feira, Maio 28, 2009
Minha Salvação!
Era uma fórmula muito usada, às vezes até em demasia, como no caso de um dos meus avós que em relação a quase tudo o que dizia acrescentava "Minha Salvação", já mais como hábito do que por necessidade de que nele acreditassem.
Havia quem tentasse usar o diminutivo da expressão e dissesse: "Minha Salvinha!"
Salvação ou Salvinha, o que interessa é que as pessoas colocavam a verdade ao nível da salvação da sua alma, tratavam-na como algo valioso. Por onde anda hoje a verdade? A que nível está? Tem algum valor? Quem souber que responda.
Terça-feira, Maio 26, 2009
arregoar
E o verbo arregoar ficou ali, dito e repetido, desafiando tudo e todos. Ficou à espera que eu o agarrasse e colocasse aqui e foi o que eu fiz. Enquanto o arrumava numa espécie de arquivo mental, reparei nas mãos do agricultor...todas arregoadas mas de um a beleza comovente. Quase todas as palavras têm este dom, de não serem uma coisa só.
Sexta-feira, Maio 22, 2009
afilhados e afilhadas
Ora, esta é uma das tais superstições que me irritam profundamente. Nada me faz seguir crenças que discriminam o género feminino, e a prová-lo está o facto de ser madrinha de duas raparigas e de nenhum rapaz. Gosto muito das minhas afilhadas, que me fazem sentir uma sortuda.
Terça-feira, Maio 19, 2009
a sorte dos meninos e o azar das meninas
Às outras superstições acho piada, a estas não acho. Soa a discriminação, machismo, ou à simples constatação que os homens sempre tiveram a vida mais fácil do que as mulheres.
Eu sonho muito e por vezes entram bebés nos complexos enredos dessas aventuras nocturnas. É mais frequente as personagens infantis serem femininas, talvez devido à minha própria experiência de mãe de uma rapariga. Será por isso, por causa desses sonhos, que por vezes há ondas de azar que parecem intermináveis?
Domingo, Maio 17, 2009
para a brabeza dos bebés
Claro que esta receita se aplica apenas aos bebés. Infelizmente.
Quinta-feira, Maio 14, 2009
Vai se dar
Esta é uma crença popular de que me lembro de vez em quando, sempre que reparo num casal assim, com muitas semelhanças físicas. Talvez seja apenas coincidência. Ou talvez não. Talvez haja alguma razão inconsciente para que as pessoas procurem um semelhante, como se se procurassem a si mesmas e se encontrassem no outro.
Terça-feira, Maio 12, 2009
Pá vista disto...
O povo faz assim quase todas as comparações. E para melhor se fazer entender, também exagera. "Pá vista desta, a outra casa é um palácio."
"Pá vista de..." é a nossa expressão popular que significa "comparando com..." É uma expressão que tem tendência a ser usada com cada vez mais frequência, porque como se sabe as assimetrias aumentam sempre em tempos de crise.
Domingo, Maio 10, 2009
o barbante dos foguetes
Noutros tempos, o fogueteiro apenas lançava os foguetes. Era outro rapaz que carregava o molho por entre caminhos e veredas. Um bando de miúdos acompanhava também o cortejo.
Quando o fogueteiro se preparava para lançar o foguete, ficavam todos em sentido. Os pequenos fixavam o foguete e ficavam muito atentos para tentar perceber em que local cairia a cana. Depois desatavam a correr, a saltar poios, ribeiros e caminhos para tentar chegar-lhe primeiro. Era uma algazarra.
Os pequenos disputavam assim o que restava dos foguetes para aproveitar o barbante que nessa altura vinha enrolado nos foguetes. Tentavam arranjar o máximo possível desse barbante para com ele altearem joeiras. E por isso, porque os pequenos queriam arranjar barbante para as joeiras, vinha uma autêntica romaria a acompanhar os Espírito Santo, enchendo os terreiros das casas de uma animada movimentação.
Sexta-feira, Maio 08, 2009
bazarouco e borquilha
Foi assim, através do contributo de dois amigos, que anotei estas duas palavras, que me parece terem um significado muito parecido. Borquilha é um vilão, uma pessoa simples, sem grandes conhecimentos, de modos atabalhoados. Bazarouco será um homem pouco inteligente, com jeitos desengonçados e ar atarantado, pouco despachado.
Agradeço outras achegas para tentar definir estas duas palavras do vocabulário madeirense.
Quinta-feira, Maio 07, 2009
beberagem de um dia não engorda porcos
Balbuciei um não, pouco convicto, enquanto retirava da bolsa uma maçã.
- "Beberagem de um dia não engorda porcos." Tentaram, com este ditado que eu não conhecia, convencer-me de que não havia mal nenhum em comer o dito gelado, cheio de açúcar e de calorias. Afinal, seria apenas um gelado, uma vez sem repetição.
Não fiquei convencida a comer o gelado, mas fiquei convencida de que valia a pena registar aqui este ditado popular.
Quarta-feira, Maio 06, 2009
arengar
Perante o desabafo, sorrio. Entretenho-me com estas expressões como se fossem pequenos tesouros de brincar. E dou por mim a pensar baixinho, só para mim: "Se fosse só ela, era bem bom, lá isso era. O que as pessoas mais fazem é arengar, arengar e não dizer nada."
Há pessoas tão peritas nisso, que até parece que fizeram um curso especial de arenganço. Parvos são os que ficam do outro lado, a dar a volta à cabeça para tentar compreender o incompreensível.
Terça-feira, Maio 05, 2009
atrás de Maio vem São João
Tal como o mês de Junho, mês de São João na linguagem popular, sucede ao mês de Maio, a vida segue o seu curso, independentemente das nossas dores.
Agradeci-lhe o apoio e a expressão, que não conhecia. Atrás de Maio vem São João. Atrás de um dia vem outro. Atrás de uma tristeza vem quem sabe uma alegria. Quem sabe?
Sábado, Maio 02, 2009
avistar um enterro sentado
Durante todo o tempo que o enterro demorou a percorrer a vereda estreita, ficámos de pé junto ao bardo coberto de ervas e de pequenas flores. Eu fiquei alerta o tempo todo, com medo e me distrair e me sentar sem querer nalguma pequena reentrância do bardo.
A superstição diz que quem avistar um enterro sentado pode morrer.
Quinta-feira, Abril 30, 2009
dormir de meias
Sempre ouvi dizer isso mas o frio é mais forte do que a crença e só consigo adormecer se tiver os pés quentes. Não tenho medo. Nem sequer quando me vem à memória a imagem do primeiro morto que vi na vida.
Lembro-me muito bem de a minha avó me ter levado pela mão por entre veredas, com o vestido de chita a roçar as ervas molhadas, até uma casa na Ribeira onde se chorava a morte.
Entrámos na sala e lá estava o senhor na écia, deitado, de mãos no peito, vestido com o seu melhor fato, de meias e sem sapatos. Eu não percebia o que estava a acontecer, nem sequer sabia que se morria, e fiquei muda de espanto, com aquela imagem dentro da cabeça.
Depois de uma eternidade, regressámos pela mesma vereda e eu vinha diferente. Não sabia o que fazer do imenso frio que sentia de repente, nem do estranho medo que tinha dentro de mim e me espantava a voz.
Não conseguia falar e tinha frio mas lembro-me de ter perguntado à minha avó porque é que não lhe tinham calçado os sapatos, ao menos deviam ter-lhe calçado também os sapatos.
Quarta-feira, Abril 29, 2009
um sininho
Olho para o carro que vão fazer o favor de me emprestar, graças a Deus que há um remedeio, e fico sem saber o que dizer. Está a cair de velho, tem várias tonalidades de cor, uma porta não abre, demora uma eternidade para pegar, e perante o meu ar de desconsolo, volto a ouvir: "Isto 'tá um sininho."
Vim a confirmar que a aparência vale muito pouco e que uma porta é mais do que suficiente. Na verdade, o carro está um sininho.
Um sininho é uma metáfora para algo que trabalha muito bem. "Um sininho ouve-se ao longe, não se ouve?" - explicam-me - "Trabalha bem, é afinado".
Terça-feira, Abril 28, 2009
a flor humana
A flor humana acompanhou o meu imaginário infantil, sobretudo devido a uma cantiga que a minha mãe nos cantava:
Palhacinha sai à rua, Palhacinha sai à rua
P'ra comer banana
Para apenas um escudo, paga apenas um escudo
P'ra ver a flor humana.
Era com esta cantiga que nos arraiais madeirenses um homem vestido de palhaço, sobre um pequeno palco e ao som de música gravada, atraía as pessoas à tenda onde se encontrava esse fenómeno de espantar que era a Flor Humana. A minha mãe nunca viu com os seus próprios olhos, só sabe do que ouvia contar. Mas o meu pai pagou um escudo e viu-a.
"Aparecia a cabeça dela saindo de dentro de uma jarra e depois desaparecia para baixo. Era o pai que dizia à filha para aparecer e depois cumprimentar as pessoas e ela tirava o chapéu para cumprimentar."
Aquilo dava que falar. Havia muitas teimas porque as pessoas tentavam compreender como é que aquilo era feito. Uns desconfiavam, outros acreditavam, nunca se chegava a um consenso e é assim que se alimentam os assuntos que mais duram.
A minha avolita pertencia ao grupo das pessoas que não acreditavam naquela magia. "Ela achava que aquilo não era espanto nenhum porque havia uma espécie de caixa que parecia o cubo de um moinho, onde ela achava que cabia a mulher escondida." Ninguém sabe se a minha avó tinha razão ou não.
O certo é que a Flor Humana fez parte de uma época, atraindo pessoas em todos os arraiais madeirenses. E também é certo que nunca foi esquecida. Quando algo aparece e desaparece, como o dinheiro da velhinha na caixa do supermercado, ou outro coisa qualquer, diz-se que é como a flor humana.
Segunda-feira, Abril 27, 2009
alturas em que não se deve casar
Quanto aos dias da semana, à sexta-feira nem pensar porque "é o dia das feiticeiras", um dia que dá azar. Ao sábado, também não porque "o sábado não tem cabeça nem rabo". A quarta-feira, ao meio da semana, era igualmente um dia interdito a casamentos.
E durante a quaresma, época de tristeza, é claro que também ninguém devia casar.
Enfim, restavam os outros dias e as outras épocas do ano, que chegavam e sobravam.
Domingo, Abril 26, 2009
Fado antigo
Onde foi fazer o ninho
na copa do chapéu
do Senhor Santo Antoninho
Refrão:
Ah fado que foste fado
Ah fado que já não és
Ah fado que já virastes
A cabeça para os pés
Rapazes quando eu morrer
Ponham-me a guitarra ao lado
P'ra quando eu chegar ao céu
Tocar e cantar o fado
O meu amor não é aquele
O meu amor tem chapéu
O meu amor anda direitinho
Como uma estrela no céu
O sol já mudou de rumo
Já não nasce onde nascia
Também já mudou de amor
Quem de amor por ti morria
Menina por ser bonita
Não julgue que mais merece
Quando mais linda é a rosa
mais depressa desvanece
Letra de um fado antigo, cantado com acompanhamento de guitarra, recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, a 23 de Janeiro de 1986
Sábado, Abril 25, 2009
uma peça de roupa do avesso
Há pessoas mais treitas a olhado e inveja do que outras. Nesse caso, para além da peça de roupa usada do avesso, devem andar sempre com uma cruzinha de alecrim.
Uma terceira medida, já que nunca é demais prevenir, consiste em andar com o dedo polegar atravessado entre o indicador e o médio, com a mão em forma de soco.
Vou experimentar as três receitas juntas. Talvez o mau olhado explique algumas coisas sem explicação.
Sexta-feira, Abril 24, 2009
para afastar as feiticeiras
Havia duas fórmulas que as pessoas logo diziam, para a afastar.
1. "Hoje é sábado, sábado é, em nossa casa Jesus, Maria, José. Tosca, marrosca."
2. Credo cruzes, credo cruzes, credo cruzes, radabás, satanás."
Uma destas fórmulas bastava para afastar a suposta feiticeira. Bons tempos, em que tão facilmente se afugentava o mal.
Quarta-feira, Abril 22, 2009
apatanhar
Ouvi há pouco este verbo em pleno uso, reparei nele, e aqui está ele, no lugar da memória.
Terça-feira, Abril 21, 2009
relatar
A palavra "relatar" suscitou-me a curiosidade por ter sido usada ainda no sentido que lhe conheci em pequena, como sinónimo de bilhardar, criticar, falar da vida alheia.
Embora o hábito de "relatar na vida dos outros" continue bem arreigado, há muito tempo que não ouvia o verbo "relatar" com este sentido que lhe foi conferido pelo povo; pensava que já nem se usasse. Usa-se, afinal. Continuei o meu caminho mais contente do que vinha e com a sensação de ter ganho o dia. A riqueza das palavras - gosto tanto de palavras - constrói-se desta multiplicidade de sentidos.
Segunda-feira, Abril 20, 2009
ensinar o caminho ao diabo
Mas logo um adulto as avisava: "Quem anda de cú para trás, ensina o caminho ao diabo." A ameaça parecia amedrontar os mais pequenos, embora ficassem confusos com essa coisa do diabo, e outra brincadeira vinha de imediato susbtituir a aventura de andar ao contrário.
Mas a memória é coisa de velhos e no dia seguinte as crianças já percorriam novamente o terreiro "de cú para trás".
Não tenho explicação para esta crença popular. Talvez a ameaça do antigo ditado fosse apenas uma forma de dissuadir os pequenos de um hábito que podia resultar em mais uma de inúmeras quedas, com joelhos e pernas esfolados e golpes na cabeça, que tinham de se curar sozinhos.
Sexta-feira, Abril 17, 2009
Tristeza por alegria
passa a serra com de dia
Vai ver se encontras quem troque
Tristeza por alegria
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, cantada normalmente durante a apanha do trigo.
Terça-feira, Abril 14, 2009
vai ser gabado
Uma pequena aranha, quase transparente, dita assim a sorte do bordado, ainda emaranhado no colo e com muito por acabar.
Uma aranhinha é sinal de boa sorte, seja no bordado, numa peça de roupa, ou noutro objecto qualquer. Indica que vai agradar e por isso mesmo será gabado.
A aranha minúscula, inofensiva, quase transparente, deixa logo contente a dona do bordado, que sorri, fingindo não acreditar. Mas acredita. Em tudo, desde o olhar aos gestos que comandam a agulha e a linha, mostra uma súbita e desconhecida confiança.
Quarta-feira, Abril 08, 2009
Um Pechête
Um pechête? Claro que sim.
Dei a desejada boleia até ao centro de saúde e pelo caminho ouvi falar das nuvens que pairavam sobre as Desertas e do tempo que anunciavam, do remédio das semilhas que ia ser comprado depois da consulta e que tinha de ser deitado o mais rapidamente possível, do porco que parece não andar muito bem, e ainda de outras afazeres e preocupações de quem trabalha a terra.
Recebi, no final, um Obrigado redondo, claro, humilde; um Até outro dia, se Deus quiser; e um Sorriso.
Domingo, Abril 05, 2009
Esquinar
Recordávamos passatempos antigos e a minha mãe lembrou-se de um boneco preto que costumava estar no adro da igreja da Camacha, à saída das missas de domingo.
- "Era um boneco que faiscava luz nos olhos e na boca. As pessoas metiam uma moeda de cinco tostões, ou de um escudo, já não me lembro bem, e ele deitava pela boca um papelinho com o signo da pessoa..."
Mas as histórias têm sempre mais qualquer coisa, se não tivessem não seriam histórias. Ora, num desses domingos à saída da missa do dia, estava uma rapariga fascinada com aquele boneco, apreciando o passo dele, a forma como funcionava, e teimava em ali ficar mais um bocado. A mãe dela aborreceu-se e disse: "Olha, eu cá vou-me embora. Fica aí esquinando com o preto."
Inexplicavelmente, este pequeno episódio revelou-se digno de ocupar espaço na memória de quem o presenciou e nunca foi esquecido.
A minha curiosidade agarrou-se ao verbo "esquinar" e quis saber o que significava. Foi assim que aprendi um sinónimo de namorar. Esquinar é outra forma de dizer namorar. E se pensarmos na forma como se namorava antigamente, tem toda a lógica. Os casais namoravam, olhando-se disfarçadamente, tentando passar despercebidos aos outros. Olhavam de lado e disfarçavam. Faziam sinais, a distância certa aumentava o desejo do outro. Era um interessante jogo de olhares e sinais, uma arte de dizer e ocultar.
Naquele tempo, os rapazes e as raparigas "esquinavam". Trocavam olhares com promessas e juras, olhares disfarçados que diziam tudo o que era preciso dizer, nem mais nem menos. Era bonito.
Domingo, Março 29, 2009
O velho e a velha
A minha avó levantava os olhos do bordado ou do lar que tentava acender com gravetos e faúlhas e enquanto eu encolhia os ombros, dizia: "Não sei onde anda o meu Velho."
Às vezes era o meu avô que me pedia: "- Diz à minha Velha que eu vou caminhar."
Os meus outros avós , que viviam mais longe, também se tratavam assim. Diziam Velho e Velha, em vez de dizerem marido e mulher. E esse nome soava bonito...era lindo ouvi-los tratarem-se assim.
Eu ficava fascinada. E ainda mais fascinada fiquei quando soube que eles também se tratavam assim quando eram jovens. Os meus avós eram do tempo em que as pessoas passavam de noivos a velhos quando casavam. No tempo dos meus avós havia apenas três estágios num relacionamento: quando se olhavam, quando se tornavam noivos e quando passavam a velhos.
Era talvez aquela forma de se tratarem - Velho e Velha - que eternizava as relações, mais do que os papeis e as cerimónias religiosas.
Foi assim, graças à doçura da forma como se tratavam os meus avós, que eu cresci querendo ser Velha.
Quinta-feira, Março 19, 2009
Dia de semear as pevides
A caseira até pode ficar pronta antes, mas a pevides ficam à espera de serem metidas na terra, no dia em que ficará garantida uma melhor colheita.
O dito fala nas pevides, mas entretanto as pessoas foram aproveitando a "boleia" e há quem deixe para plantar neste dia, por exemplo, os bolbos das açucenas. Era o que a minha mãe queria fazer com um bolbo de açucena amarela que lhe dei. Mas o dia passou e entre os muitos afazeres, não sobrou tempo. Espero que o São José perdoe a falta de tempo e o cansaço da minha mãe e abençoe a açucena amarela, mesmo que plantada noutro dia.
Terça-feira, Março 10, 2009
um ano de nêsperas
Vi uma nespereira gigante carregada de frutos e lembrei-me. Lembrei-me de um dito antigo, do tempo em que as pessoas observavam e conheciam bem os segredos da Natureza, que dizia: "Um ano de nêsperas é um ano de vinho."
Este vai ser "um ano de vinho". Ainda bem. Brindemos à abundância de tudo. Não apenas de nêsperas e vinho, mas de tudo o que seja bom.
Sexta-feira, Março 06, 2009
para a lua não intender com os bebés
Todo este cuidado era necessário para evitar que a lua intendesse com os bebés. Se não se tivesse em atenção este procedimento antigo, a lua passaria a dominar, a exercer influência sobre a criança, o que não era nada bom.
Disseram-me isto quando lavei as primeiras roupinhas da minha bebé, muito antes de ela ter nascido. Pelo sim, pelo não, cumpri a superstição à risca.
Segunda-feira, Março 02, 2009
lenços são apartamentos
O nó no lenço era uma forma de evitar o que está determinado na seguinte superstição: "lenços são apartamentos". O lenço estava associado às partidas, em que muitas pessoas acenavam com lenços brancos em sinal de despedida. Estava também associado às lágrimas derramadas depois, nos momentos de saudade. Por isso esta associação lógica entre "lenços" e "apartamentos".
Mas nesse tempo em que se ofereciam lenços da mão bordados na ponta, havia sempre uma pequena solução para tudo. E neste caso, a solução era um nó dado numa ponta do elnço pelo pessoa que o oferecia. Soluções simples. Para grandes males. Para pequenos males. Soluções simples. Que se por vezes não resultavam era apenas porque "não há regra sem excepção" ou, mais simples ainda, porque era a vontade de Deus. Fazia-nos bem voltar a essa simplicidade ancestral em que havia uma solução para tudo. Fazia-nos bem acreditar que um simples nó na ponta de um lenço podia evitar um "apartamento".
Domingo, Março 01, 2009
encontrar uma aguelheta
Há anos que não vejo uma aguelheta. Será que alguém ainda utiliza aguelhetas para prender o cabelo?
Lembro-me tão bem de a minha mãe prender o cabelo com aguelhetas, todos os dias de manhã. Colocava-as no parapeito da janela, enquanto fazia uma longa trança, e depois transformava a trança num carrapito, que ia tomando forma graças às aguelhetas, que ela, cuidadosamente, ia retirando do parapeito com a mão direita, enquanto segurava com a esquerda o carrapito meio feito, meio por fazer. Enfiava-as com cuidado, uma parte na trança enrolada, outra junto à cabeça, e apertava bem, para que o penteado não se desfizesse.
Às vezes, as aguelhetes sumiam-se, que atentação! Apareciam mais tarde, atrás das cadeiras, debaixo do vestuário, vinham à frente da vassoura quando se varria a casa e era preciso resgatá-las do meio do pó e dos restos de lãs da tela.
Nesse tempo, não era difícil que alguém encontrasse uma aguelheta perdia no caminho e ficasse "com a vida atravessada". Agora é praticamente impossível encontrar aguelhetas. Mas há outras formas de a vida se nos atravessar, e de constantemente nos surpreender.
Sábado, Fevereiro 28, 2009
A irmã feiticeira
Havendo sete irmãs seguidas, o que não era raro naquele tempo, a sétima seria feiticeira. A única forma de a livrar desse destino era, para além de lhe dar o nome de Maria, que a irmã mais velha fosse sua madrinha de baptismo.
Fiquei contente com este "achado", que me vieram contar precisamente por saberem do meu gosto pela recolha destes pequenos tesouros da cultura popular. Tratar-se-ia de uma crença generalizada, tal como pude confirmar junto de pessoas de outras localidades.
Está explicado porque é que as feiticeiras desapareceram do mapa. Quem é que actualmente tem sete filhas seguidas?
Terça-feira, Fevereiro 24, 2009
Alegrias e tristezas
Tudo por mim tem passado
Se muito me tenho rido
Muito mais tenho chorado
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes
16-02-1986
Solomé Fernandes
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
uma tesoura aberta
Dizia-se antigamente que isto acontecia se a mulher em causa fosse feiticeira. Enquanto houvesse em casa uma tesoura aberta ela não conseguiria dar por terminada a visita e ia ficando, ficando, sem justificação.
A solução para que os donos da casa se vissem livres da visita, era mesmo ir confirmar se alguma tesoura estaria aberta e fechá-la. Viam-se enfim na hora da despedida e confirmavam a suspeita de que a dita senhora era uma das muitas feiticeiras do sítio. Qualquer mulher um pouco mais estranha ficava com fama de feiticeira e era difícil livrar-se da suspeita, ainda mais se esta fosse comprovada com pequenas evidência, como a tesoura aberta, às vezes de propósito para obter a sentença final.
Hoje em dia já não existem feiticeiras e esta superstição da tesoura aberta caiu no esquecimento.
O que continua actual é a fama que qualquer pessoa pode ganhar graças a algum facto menor, normalmente insignificante, e da qual se torna quase impossível livrar-se.
Sábado, Fevereiro 14, 2009
a vassoura atrás da porta
Esse método era muito simples. Bastava colocar a vassoura atrás da porta, virada ao contrário.
Não posso afiançar a eficácia do método, até porque nunca tive de o experimentar. Nunca tive visitas aborrecidas.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009
A mosca varejenta
- "Quem será a bilhardeira que vai chegar aqui?" O tom denotava logo irritação. E eis que o apupo no canto do terreiro indicava a chegada de uma mulher, uma qualquer vizinha, numa das muitas voltas que era necessário fazer e que mantinha sempre as pessoas em contacto.
Com a falta de distracções, era muito difícil as pessoas não serem bilhardeiras e deviam ser poucas as execpções. À falta de outros passatempos, falava-se da vida dos outros. Quem não tiver culpas que atire a primeira pedra.
Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009
O zango
Ora, ao contrário da abelha, que tinha o dom de anunciar "a chegada de uma boa mulher", o zango anunciava a chegada de um rapaz. E se não fosse isso, seria com certeza a chegada de uma carta. E quem é que, antigamente, não esperava uma carta? O zango era sempre bem vindo.
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009
A sorte da abelha
"- Porque a abelha é um bichinho de Nosso Senhor", explicava a minha avó pacientemente.
Para além do mais, as abelhas anunciavam a chegada "de uma boa mulher".
Terça-feira, Fevereiro 10, 2009
um bichinho de nosso Senhor
Se as pessoas ainda acreditassem nestas coisas, na divindade das criaturas e da Natureza, o mundo seria bem melhor.
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
as baratas e o dinheiro
Em muitas situações, não é possível encontrar qualquer explicação que faça sentido. E qual a necessidade disso? Para que servem as explicações?
Domingo, Fevereiro 08, 2009
a peneira na cabeça
As crianças tinham tendência a brincar com a peneira, tal como com todos os outros objectos da cozinha, tachos e panelas e sei lá que mais, afinal não havia brinquedos, os brinquedos eram preciosidades raras acessíveis apenas às famílias de mais posses.
Ora, penso que para evitar que as crianças colocassem sobre a cabeça a peneira, que dava jeito fingir ser um chapéu, se terá inventado a superstição de que o fazer resultava em não crescer a partir desse momento. E quem queria não crescer, ficar pêco? O aviso resultava em cheio e as peneira ficava higienicamente a salvo das cabeças da pequenada.
Sábado, Fevereiro 07, 2009
como as crianças podem ficar mudas
Porque segundo a crença popular, se os bebés fossem colocados à frente de um espelho corriam o risco de ficarem mudos. E esse caso já não podia ser resolvido pela massa de bolo.
Sexta-feira, Fevereiro 06, 2009
remédio para as crianças falarem
Resumindo e concluindo, no tempo em que ninguém sonhava ainda com uma coisa chamada terapia da fala, havia a massa de bolo. Estava à mão, era natural, não custava muito caro. Porque é que já não existem soluções assim para nada?
Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009
quadra
Qu'um remendo mal deitado
S'eu não cuidar ninguém cuida
Do qu'eu tenho a meu cuidado
Recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, a 26-06-1988
Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009
despique
Alcatrão que não é breu
'Tava c'um saco nos olhos
Quando foste marido meu
A cortiça vai ao fundo
Nas pedrinhas a adanar
Não fui eu que te falei
Tu é que me vieste rogar
Há muitos, muitos anos, um casal cantou estas quadras ao desafio durante um despique numa excursão ao arraial do Monte. Por uma qualquer razão que não sei, quem ouviu ficou com as cantigas na memória. Muitos anos mais tarde, tive a sorte de mas cantarem e de carinhosamente as repetirem para que eu as pudesse anotar.
Terça-feira, Fevereiro 03, 2009
Dia de São Brás
O dia de São Brás é assinalado a 3 de Fevereiro, no dia a seguir ao de Nossa Senhora das Candeias. Quando chove neste dia, dizem que chove muitos dias seguidos, "quarenta dias e mais" diz o povo para demonstrar bem a dimensão das chuvas anunciadas pelas chuvas do São Brás.
Este ano, estarei atenta.
Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009
nascer com o cordão à volta do pescoço
Diziam os antigos que se à criança nascida com o cordão umbilical à volta do pescoço não se colocasse o nome de José, fosse rapaz ou rapariga, ela morreria "afogada", que julgo ser a maneira de o povo dizer asfixiada. Que trágico!
Não conheço quem tenha arriscado a não colocar o nome de José e por isso não posso confirmar nem desmentir este antigo hábito.
Domingo, Fevereiro 01, 2009
Uma tesoura debaixo do travesseiro
Eu não cheguei a ter nenhuma desses objectos debaixo da almofada porque os meus pais seguiram outra tradição da época e baptizaram-se logo, no regresso do hospital. Antes de ir para casa, fizeram um desvio até à igreja e baptizaram-me.
E foi nesse percurso entre o Hospital Velho e a Igreja do Caniço que o meu nome foi escolhido, tendo vencido a preferência da minha avó e madrinha, que Deus a tenha.
Sábado, Janeiro 31, 2009
roupinha desabotoada
Faziam o dote muito pacientemente, com bordados e rendinhas, mandavam fazer as camisinhas na costureira, e iam guardando as peças com mil cuidados, numa gaveta da cômoda ou na "caixa do dote". Tudo desabotoado para não dar dar má sorte.
Será que ainda há quem guarde as roupinhas do bebé desabotoadas? Será que alguém ainda acredita nesta superstição?
Eu não percebo como é que a roupa abotoada pode trazer má sorte, não vejo razão possível. Mas guardei assim a roupinha da minha menina. Afinal, mal não faz e mesmo que também não faça bem, ao menos ajudei a atrasar um bocadinho no tempo o desaparecimento de uma tradição.
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
Cura de Ar
Anotei, junto desta reza, que a cura de ar é feita utilizando uma faca e um galho de louro. Não anotei mais pormenores, talvez porque na altura fossem óbvios e achasse desnecessário. Agora não me lembro muito bem mas acho que enquanto dizia a "cura de ar", a pessoa ia cortando com a faca o galho de louro. Na verdade, não sei se apenas fingia que o cortava ou se lhe ia dando mesmo pequenos golpes. Também não me lembro se a cura tinha de ser feita na presença da pessoa ou não.
Resta-me perguntar se alguém sabe de mais pormenores sobre a "Cura de ar". E aprender. Que a memória também se cansa e mais vale anotar os pormenores todos quando queremos fazer isto que eu quero: guardar e transmitir antigos ensinamentos populares.
Terça-feira, Janeiro 27, 2009
perder casamento
Esta expressão é um verdadeiro documento do passado, do tempo em que o objectivo de vida de toda a gente era casar e coitados dos que não o conseguiam.
O maior medo das raparigas era ficarem solteiras e por isso havia que ter cuidados redobrados, por exemplo, com a apresentação, com o comportamento, com as bilhardices, com qualquer coisa que pudesse afastar um possível pretendente. Quando já o tinham assegurado, não sendo essa a maior preocupação de todas, já podiam viver de forma um pouco mais descontraída.
Vejamos como é usada esta expressão:
Está uma pessoa pronta para sair, com um penteado de mau gosto, com uma roupa pouco apropriada, com um conjunto gasto, com uns sapatos fora de moda, com uma peça que não combina bem com o resto da indumentária, ou sei lá que mais, e perante uma chamada de atenção, eis que surge a constatação de que "não vai perder casamento". Portanto, o caso não é assim tão grave. Se estivesse ainda por casar, e em idade de aspirar a um pretendente, o caso mudaria completamente de figura e todos os pormenores de apresentação e comportamento passariam a ser relevantes.
Segunda-feira, Janeiro 26, 2009
o terçol
- "Então este é que é o terçol!?" Por entre sorrisos e cumprimentos entusiásticos, a palavra "terçol" surgiu naturalmente, quando apresentava o meu irmão mais novo a umas primas do lado paterno, cuja existência descobrimos recentemente num dos muitos acasos da vida. - "Sim, este é que é o terçol", exclamei, contente com os inesperados encontros que a vida se vai encarregando de nos proporcionar e também com aquela pequena palavrinha que não usava há tanto tempo.
O terçol é o mais novo da família e neste caso até é mesmo bastante mais novo. Não é difícil fazer um paralelo com o verdadeiro significado da palavra terçol, tal qual é usado de forma corrente e tal qual vem no dicionário de português e nas enciclopédias médicas. Esse terçol é uma pequena inflamação que surge no olho, com a forma de um pequeno grão. Nada de grave, mas sem piada nenhuma, dirá quem já teve um terçol. O que tem piada é esta inesgotável fonte de metáforas que vou encontrando a cada instante no nosso falar.
Domingo, Janeiro 25, 2009
andar de gancho
Lembro-me de os ver assim na rua, parecendo uma espécie de siameses. Nesta posição, de gancho, o rapaz e a rapariga eram obrigados a marcar passo, acertando-o ao mesmo ritmo. Não era possível que um fosse mais atrás e o outro mais à frente. Formavam no conjunto uma simetria perfeita. Mas o andar de gancho também limitava outros movimentos, era uma junção que se tornava demasiado estática. Ambos eram obrigados a olhar mais na mesma direcção do que um para o outro. Será que era também por isso que os relacionamentos duravam mais?
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
Proteger o chiqueiro
Conversa puxa conversa e fico a saber que o chiqueiro não estava protegido com os objectos que antigamente eram obrigatórios para salvaguardar a saúde e a vida dos animais.
Não havia chiqueiro que não ostentasse os símbolos considerados eficazes para afastar o ar mau, o tal cuja passagem é assinalada durante a noite pelo uivar dos cães.
Para evitar que o ar mau impacesse com os porcos e estes azougassem, os antigos colocavam no chiqueiro uma cruz de alecrim, uma ferradura, um par de cornos. E também uma garrafa virada ao contrário, enfiada num pau. Lembro-me muito bem de ver estes objectos mágicos nos chiqueiros.
Mas o dono do porco que acaba de azougar não é supersticioso e ri-se desses antigos costumes, dessas baboseiradas. Não acredito que as cumpra quando puder voltar a comprar um porquinho para criar para a Festa. Aceita a Natureza como ela é, ora dádiva, ora desgraça, e segue poio abaixo, de enxada às costas e botas de água, para cavar as semilhas.
Quarta-feira, Janeiro 21, 2009
o ar mau
Ouço os sons da noite nas minhas noites de insónia e lembro-me desta antiga crença popular. Mas não me mexo, continuo muito quieta, quero que o sono me queira, não o quero espantar, e deixo o ar mau seguir em paz o seu caminho.
Antigamente, quando as pessoas sabiam pelo uivo dos cães que o ar mau estava a passar, tinham o cuidado de virar uma coisa do avesso. Pegavam no que estava à mão, uma peça de roupa, ou por exemplo o barrete, e viravam-na do avesso, para afastar o ar mau. Em alternativa, podiam optar virar um objecto ao contrário.
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
semear salsa e plantar alecrim
Sempre ouvi dizer que "quem semeia salsa fica viúvo". A tradição popular acrescenta o pormenor de a pessoa semear salsa e esta nascer. Se a salsa não vingar, então não há problema. Então como é que quase toda a gente tem salsa em casa, nas zonas rurais? É muito simples: a primeira vez é um pé que é plantado (não semeado) e depois é ir deixando a Natureza seguir o seu curso. As sementes caem ao chão e nesse mesmo local a planta vai se multiplicando. E pronto, ninguém fica viúvo.
No caso do alecrim, diz o povo que " quando uma pessoa planta alecrim e ele pega, essa pessoa morre. Então como é que há tantas pessoas que tem alecrim à porta? Normalmente são as "lampas" utilizadas nos Santos Populares que acabam por pegar e nesse caso, como não era essa realmente a intenção, então a pessoa já não morre, que alívio. Durante o São João e o São Pedro é costume enfeitar as casas com louro, murta e alecrim, plantas consideradas "bentas" ou "lampas", como se diz na minha região. Muitas vezes os galhos são metidos nos vasos de plantas que costumam ficar junto às casas.
Segunda-feira, Janeiro 19, 2009
Comichão na sola do pé
Mas atenção: se for na sola do pé direito "é uma viagem boa e sem se esperar"; se for na sola do pé esquerdo é uma viagem má.
Não me lembro de ter sentido comichão nas solas dos pés. Mas adoro viajar e por isso vou passar a estar atenta à possível comichão na sola do pé. Do direito, claro. O pormenor do inesperado torna a hipotética viagem ainda mais apetecível.
Terça-feira, Janeiro 13, 2009
meter ao cote
Se não estão em boas condições para sair, acho que também não estão em boas condições para dar. Deitar no lixo, nem pensar. O ideal, mesmo, era fazer como antes e meter ao cote. Meter ao cote era meter a andar em casa e era isso que toda a gente fazia com a roupa que ia ficando mais usada.
Hoje em dia ninguém tem tempo para estar em casa, que sentido faz meter as roupas ao cote? Em que tempo se andaria com elas?
Os tempos estavam todos tão bem diferenciados no tempo em que era possível meter roupas ao cote. Havia as idas à missa, havia as idas à cidade, havia as idas a casa de alguém conhecido, havia as idas à mercearia, havia o tempo para fazer as tarefas domésticas, para ir apanhar erva aos animais, para tratar do jardim, e para trabalhar. Tudo tão bem diferenciado, que as roupas se podiam colocar numa escala. As melhores para ir à missa e à cidade, as assim-assim para ir dar uma volta e as mais gastas para "andar em casa", para o cote.
Agora está praticamente tudo dentro do mesmo saco. Os momentos praticamente dentro de um só. E assim sendo, não é apenas uma expressão que se está a perder. Quando também o tempo se globaliza perdem-se todos os tempos mais pequenos de que era feito o tempo.
Deixando de lado as filosofias, que hei-de fazer com aquilo que já não é possível meter ao cote, afinal?
Segunda-feira, Janeiro 12, 2009
Quem dá...
"Quem dá com a mão, fica com o seu quinhão".
Muito bem visto, sim senhor. E mais comentários não faço porque não é preciso.
Sábado, Janeiro 10, 2009
Requerimentos e despachos
Segundo a tradição, é possível nestes primeiros dias do ano, a partir destas simples observações empíricas , fazer algo espantoso, algo que nem a mais evoluida estação meteorológica consegue fazer. Nos primeiros dias de Janeiro, diz a experiência popular, consegue-se prever o estado do tempo para todos os meses do ano.
Nos primeiros 12 dias do ano, é altura dos "requerimentos", uma dia para cada mês, seguindo a respectiva ordem do calendário. Nos 12 dias seguintes, começam a sair os "despachos". O tempo que faz nos primeiros doze dias, é aquilo que cada mês está a pedir, mas o veredicto só se fica a saber com os despachos. Esses é que contam, tal como nos tribunais.
Este sábado, dia 10, é o requerimento do mês de Outubro, mas o despacho só se ficará a saber no dia 22 de Janeiro. De modo que o podo andava o mês todo com extrema atenção ao tempo. Cada ameaça de chuvisco merecia um comentário; um vento fora do normal também, um dia excepcionalmente quente dava que falar e etecetera e tal.
Do estado do tempo dependeria em grande medida o sucesso das cultura e quase todos viviam da terra. Por isso serão poucos os que hoje ainda se lembram disto e dão redobrada atenção atenção ao tempo durante este primeiro mês do ano. Infelizmente.
Quinta-feira, Janeiro 01, 2009
uma nota dentro do sapato esquerdo
Momentos antes da meia-noite, quando todos olhavam o céu na expectativa de ver rebentar os primeiros foguetes, alguém ao meu lado dizia ter colocado uma nota dentro do sapato esquerdo, como parece que muita gente faz e eu não sabia. Mais um pormenor: é preciso calcar com esse pé três vezes no chão, como garantia de o dinheiro estar bem seguro.
Uma senhora, um pouco atrás, dizia tratar sempre de ter a carteira bem recheada na passagem de ano. Sempre. Acho que alguém acrescentou que preferia ter o dinheiro na mão, à meia-noite, como método para ter boa sorte na parte financeira.
Mais minuto, menos minuto, o fogo de artifício encheria o céu e limitei-me a sorrir. Reconheço que não conhecia essas superstições e estou contente por poder registá-las neste espaço. O resto, será o que for.
Sábado, Dezembro 27, 2008
azougue
Azougue é a nossa palavra tradicional para íman. Foi essa palavra que aprendi em criança para identificar um pequeno objecto que já existia em casa quando eu nasci e que tinha a função de atrair o metal.
O azougue fascinava as mais pequenos. Brincávamos com ele a apanhar pequenos pregos, enfim tudo o que ele conseguisse atrair.
A palavra azougue usa-se também em sentido figurado, quando algo ou alguém tem o poder de exercer uma grande atracção. "Parece que tem azougue" e não são precisas mais explicações, está tudo dito e percebid0.
Quarta-feira, Dezembro 10, 2008
Assinar
Ao tempo que não ouvia o verbo assinar utilizado com este sentido, o de concordar com alguma coisa, permitir.
Neste caso, a expressão é "assinar em" qualquer coisa.
" - E tu assinaste nisso?" O tom interrogatório contém também indignação, surpresa, crítica.
E eu, de repente preocupada em guardar num cantinho da memória uma espécie de lembrete para, na primeira oportunidade, registar aqui o termo, perdi-me da conversa e já não me lembro o que respondi.
Assinei? Não assinei? O que interessa é que registei.
Quinta-feira, Novembro 27, 2008
sentar-se em cima da mesa
Atrasa a vida? Ora bem. Talvez se explique assim muita coisa. Talvez a chave de tantos mistérios esteja numa simples superstição.
Sexta-feira, Novembro 21, 2008
não quero que me doa nada
Sim, filha, os nossos cães e os nossos gatos vão ser todos amigos, é claro que vão. E esses nomes são muito bonitos, é claro que são. E promete-me que vais ensiná-los a não me estragarem as flores.
Quarta-feira, Novembro 19, 2008
Quebrar o jum
Antes, o pequeno-almoço era o Quebrajum, abreviatura de Quebra-Jejum. O que se fazia de manhã era quebrar o jejum, com uma fatia de pão preto com manteiga e uma xícara de café de cevada.
" - Já quebraste o jum?" Não, eu ainda não tinha quebrado e jum e por isso fomos ao café. Mas na minha opinião, o que fizémos foi simplesmente tomar o pequeno-almoço. O quebrajum teria outro sabor, um sabor original e antigo, um sabor irrepetível.
Domingo, Novembro 16, 2008
Por amor em graça
O meu riso contribuiu para a gargalhada geral e além do riso ganhei uma expressão para juntar ao blog: "Por amor em graça"!
Solicitamente, um colega ofereceu uma boleia e, de imediato, enquanto a pessoa se preparava ainda para balbuciar um obrigada, surpreendida pela súbita gentileza, pediu-lhe que entregasse não sei o quê não sei onde. Daí a garalhada de quem presenciou a cena e a expressão popular logo apontada.
"Por amor em graça" significa agir desinteressadamente, sem esperar ou exigir uma contrapartida e parece ser coisa cada vez mais rara neste mundo.
Sexta-feira, Novembro 14, 2008
A barca bela
que se vai deitar ao mar
Nossa Senhora vai nela
E os anjinhos a remar
São Vicente é o piloto
Jesus Cristo, o general
Que linda bandeira leva
Bandeira de Portugal
Subam todos ao castelo
Suas bandeira no ar
A bandeira da mourisma
Vai pelo chão a arrastar
Estas quadras vinham no livro da terceira que era usado em 1952. O livro era do meu tio mais novo mas a minha mãe decorou os versos e foi assim que eles chegaram até mim, que os registo com admiração e a curiosidade de sempre.
Terça-feira, Novembro 11, 2008
Grampear
Mas nada disso. O verbo "grampear" está no dicionário de português da Porto Editora e um dos seus significados é "furtar". Gosto de ser surpreendida assim pela minha própria língua; gosto de ser assim surpreendida por pessoas que, mesmo sendo quase analfabetas, têm este invejável conhecimento de vocabulário português.
Domingo, Novembro 09, 2008
O burro e o burriqueiro
O mijo do burro não enjoa ao burriqueiro. Neste caso enjoar significa cheirar mal, é um termo muito usado na Madeira com este sentido. O povo nunca diz que algo cheira mal, diz que enjoa e também não diz a palavra urina, diz mijo.
Terça-feira, Novembro 04, 2008
Um banano!
Estávamos numa loja de móveis, à procura de uma arca de madeira para substituir a "mala do dote" da minha mãe, cujo fundo se arrombou depois de 50 anos de uso.
Mostraram-nos uma e o meu pai exclamou: - "É um banano!"
Há bastante tempo que não ouvia esta expressão tão madeirense, utilizada como sinónimo de grande e aproveito para a partilhar com os leitores naquele que é o texto número 500 publicado neste blog.
O "Rabo do gato" já tem quinhentos posts. É caso para dizer: "está um banano!"
É altura também de voltar a agradecer todas as visitas e todos os comentários. Sem vós, leitores, este blog não seria nada.
Segunda-feira, Outubro 27, 2008
Conversa e pão branco
Muita conversa não leva a lado nenhum se a conversa não for acompanhada pela acção, na dose certa.
O pão branco é pouco substancial, deixa um buraco na barriga, a pedir mais comida. O povo estava acostumado ao pão preto e apercebeu-se logo da diferença, embora o pão branco beneficiasse da vantagem de ser novidade e de antes estar acessível só às classes mais altas.
Dispenso o pão branco. Gosto do escuro. De centeio ou seja lá do que for. Gosto do pão integral. Do pão de lenha. Do pão de centeio. Do pão preto.
Não dispenso a conversa. Adoro conversar. Gosto de palavras. Gosto de ideias. Gosto de conversas que se constroem sem as pessoas se aperceberem, como um tecido onde todas as linhas têm lugar reservado num tear imaginário.
Mas.
Concordo com o ditado mais velho do que o norte e verdadeiro até ao sul.
Gosto de conversa na medida certa.
Terça-feira, Outubro 14, 2008
Minha avó do Pico Ló
Fez um bolo e comeu só
Não deu nada ao seu netinho
Bem gulosa é minha avó
Repetíamos esta lengalenga mas ela nunca deixava de nos parecer estranha. Como era possível uma qualquer avó fazer um bolo e nada dar ao seu netinho? Esta lengalenga, aprendida e repetida vezes sem fim na infância, era a antítese das avós que tínhamos e de todas as outras que conhecíamos.
As avós dão tudo aos netinhos, preferem ficar sem nada para elas. As avós fazem bolos de propósito se os netinhos gostarem de bolo. Fazem bolos e deixam-nos numa prateleira da cozinha para que o seu cheiro atraia os netos e depois ficam à espera da visita como quem espera por uma festa.
Lembro-me da lengalenga da avó do Pico Ló e vou me ocupando com estes pensamentos, enquanto a avó mais bonita do mundo me mostra o bolo doce feito à noite, na hora das novelas, prevendo que os netos talvez aparecessem no outro dia. A minha mãe faz bolos de propósito para os netos e, tantos anos depois, a lengalenga da Avó do Pico Ló continua a parecer-me absurda.
Terça-feira, Outubro 07, 2008
O enchimento da senhora
Quando nos afastamos, cada uma numa direcção, vou pensando comigo mesma que é surpreendente ela ter tantas rugas. Mas depois lembro-me que talvez ela tenha ficado a pensar a mesma coisa e apetece-me ir a correr para o espelho assim que chegar a casa, afinal somos da mesma idade.
Somos sempre melhores a ver a realidade dos outros: as rugas, os quilos a mais, os cabelos brancos e principalmente os defeitos.
Ocorre-me então este velho ditado, que a minha mãe gosta muito de usar em situações como esta: "Só quem está por fora é que vê o enchimento da senhora."
Quinta-feira, Outubro 02, 2008
O vinho e o vinagre
Deparo-me com este provérbio, por entre muitos outros, numa lista que recolhi e organizei em 1986. Sorrio. Já não me lembrava deste em concreto.
Continuo a olhar para a minha letra pequena e redonda de há vinte anos, a letra pequena e redonda que registou todas as palavras deste provérbio e fico a pensar em como ele é verdadeiro.
Quando mais gostamos é quando mais somos capazes de odiar. Quanto mais qualidades vemos numa pessoa, mais ela nos decepciona quando nos mostra o seu lado obscuro. O povo explicou tudo nestas breves palavras. "Quanto melhor o vinho, mais forte o vinagre".
Segunda-feira, Setembro 29, 2008
de pôr no brinquinho da orelha
Era assim que antigamente as pessoas se referiam a alguém que era "terrível", no sentido de pessoa de má índole, trafulha, desonesta, pessoa a quem não se deve dar credibilidade.
Há muito tempo que não ouço a expressão, será que caiu definitivamente em desuso? Pena e que as pessoas com estas características se multipliquem a uma velocidade estonteante. Hoje em dia as outras é que são a excepção, estas a regra.
Sexta-feira, Setembro 26, 2008
O cambado da romaria
"Ele não faz por mal, percebes?" Mas tudo o que diz ou faz tem piada, ninguém consegue evitar rir-se. "Se visses como ele respondeu ao inquérito, a turma riu bués!"
Sorrio e alimento a conversa, fazendo perguntas e ouvindo atentamente os promenores sobre o novo palhaço da turma. - "Não há romaria sem cambado. Não sabias?"
"- Romaria sem cambado? Não percebi, mãe." E eu explico, adaptando o velho provérbio aos tempos modernos e à situação concreta. "Não há turma sem palhaço". Percebes?
Ela diz que sim mas de imediato passa à narração de outros assuntos, por entre a euforia natural do início de ano lectivo. A minha alusão parece ter passado despercebida, no instante seguinte já falávamos de algo totalmente diferente. Mas eu sei que para alguma coisa hão-de servir as palavras, as expressões, e os ensinamentos que a minha memória conseguiu guardar até hoje.
Quarta-feira, Setembro 24, 2008
Comer e coçar
Alguns minutos depois, decidi não fazer a desfeita e provar um bocadinho muito pequenino. Estava delicioso e apeteceu-me outro bocadinho e depois mais outro, todos muito pequenos, mas fazendo bem as contas o resultado talvez fosse uma fatia maior do que a que me tinham oferecido inicialmente.
Num canto da sala, ouviu-se: - "Comer e coçar, o mais é começar". Bem verdade e bem a propósito, como acontece sempre com as mais sábias sentenças populares.
Sábado, Setembro 20, 2008
A rica e a pobre
Uma das crianças representava o papel de rica, outra de pobre, à volta da qual se colocavam as restantes crianças presentes, no papel de filhas. A pobre era quem começava, dando uma passo em frente. Quando terminava, recuava e a outra avançava para cantar a sua parte.
pobre - "Eu sou pobre, pobre, pobre
de maré, maré, maré
rica - "Eu sou rica, rica, rica
de maré, maré, maré
pobre - "A senhora o que deseja
muito atira, atira rá (repete os dois versos)
rica - "Desejo uma das suas filhas
muito atira, atira rá (repete)
pobre - "A senhora o que lhe dá?
muito atira, atira rá (repete)
rica - "Dou-lhe uma fita para o cabelo
muito atira, atira , rá (repete)
A pobre vira-se para uma das crianças e finge que lhe pergunta, depois responde.
pobre - "Ela disse que não queria,
muito atira, atira, rá (repete)
Então, a rica continua a oferecer objectos (lembro-me de cantarmos, por exemplo, que lhe dava uns sapatos de ouro, uma pulseira, um cordão, um vestido novo, tudo o que quiséssemos....) até que a criança decide aceitar e passa para o lado da rica.
Por exemplo:
rica - "Dou-lhe um vestido novo
muito atira, atira, rá" (repete)
pobre - "Ela disse que lhe agrada
muito atira, atira, rá (repete)
O jogo e as cantigas repetem-se até que a pobre fique sem nenhuma das filhas, entretanto dadas à rica, que as vai atraindo com a promessa de presentes raros.
Domingo, Setembro 14, 2008
meio sobre si
-"Ele é meio sobre si."
-"Ah sim?"
-"Sim, ele anda por aí sempre com um jornal debaixo do braço e falando sozinho."
"Sobre si" é um termo muito madeirense e ainda bastante utilizado na linguagem oral. "Uma pessoa sobre si é uma pessoa que não regula lá muito bem, que não é muito boa da cabeça". Sempre houve pessoas "sobre si" mas antigamente esses casos eram conhecidos de toda a localidade, estavam bem identificados e acho que até beneficiavam de um certo carinho global, um espécie de complacência solidária.
E agora? Como distinguir as pessoas "sobre si" numa sociedade sem rumo, onde tudo se mistura, onde todos se mascaram, onde as valores se baralham, e parece que já ninguém sabe o que é que realmente conta. E agora?
Deitar cuspo na mão
Perante a indecisão, eis que a expressão popular surge naturalmente.
"- Vai ser melhor vocês deitarem cuspo na mão."
A expressão "deitar cuspo na mão" usa-se quando existe uma situação de indecisão perante duas alternativas diferentes. É uma espécie de "Cara ou Coroa", numa versão mais popular e que não sei se é utilizada noutros locais ou apenas no meu sítio.
"Quando se era pequenos, era assim que se escolhia o caminho quando se ia buscar o pão". A certa altura, o caminho dividia-se em dois: podiam continuar pelo caminho passando por detrás da Venda do China, ou podiam subir as passadas do Cassapo. Era aí que as crianças paravam e utilizavam o método do cuspo para escolher o percurso.
Cuspiam para a palma da mão esquerda e depois batiam nela com a mão direita colocada de lado, na vertical. O cuspo voava para um dos lados, ou para a direita ou para a esquerda, e estava assim escolhido o caminho a tomar.
Felizmente, dessa prática antiga só sobreviveu a expressão, que passou a ser usada de uma forma geral para todas as situações que exigem uma escolha. Lembro-me de, certa vez, ter ouvido dizerem a uma rapariga que chorava o fim de um namoro, procurando animá-la: - "Ah pequena não te importes que 'inda te vai parecer mais rapazes e melhores qu'esse. 'Inda vais ter que deitar cuspo na mão."
Sexta-feira, Setembro 12, 2008
Mantigueira
Não era uma crítica, mas apenas uma constatação que me fez retroceder no tempo. Quase já me tinha esquecido desse termo, que antigamente tanto se usava.
Uma pessoa mantigueira é alguém que faz tudo por tudo para agradar aos seus interlocutores. E esse desejo de agradar nota-se em tudo, desde os elogios exagerados ao tom de voz.
Há quem use a expressão "dar graxa". No meu sítio sempre ouvi dizerem "dar manteiga" e é daí que vem o adjectivo "mantigueira". Uma pessoa mantigueira não é necessariamente má pessoa, apenas tem esse feitio (um pouco irritante cá para nós).
Recordando, fico a pensar. Porque será que quase já não existem pessoas "mantigueiras?" Talvez porque hoje o que existem são pessoas hipócritas.
É uma tristeza quando as coisas e as pessoas - sobretudo as pessoas - evoluem para pior.
Terça-feira, Setembro 09, 2008
Bradesoda
Em tempo de poucos recursos e de poucos médicos, a bradesoda vendia-se nas farmácias e também nas mercearias, era um produto de primeira necessidade. "- Lava com bradesoda", dizia a minha avó com voz sábia, para logo acrescentar exemplos de casos em que o produto lhe tinha valido e com bom resultado.
A minha mãe também tem sempre bradesoda em casa, à mão, e utiliza o remédio milagroso nas mais diversas ocasiões. Continua a dizer "bradesoda", como aprendeu, mas sabe que na verdade se trata de "borato de sódio" esse pó branco ainda disponível nas farmácias. O falar popular transformou o borato de sódio em bradesoda, encurtou o termo, transformando três palavras em apenas umas e mudou-lhe o género, tem piada.
Desde tempos antigos que o borato de sódio foi usado como bactericida, mas a minha avó ampliava os seus poderes ao ponto de garantir que uma tia minha se tinha curado de uma perna partida graças à sua persistência em lhe colocar panos de bradesoda na perna. E os achaques da alma, avólita? Também se curam com panos embebidos em bradesoda? Quem me dera!
Segunda-feira, Setembro 08, 2008
Quem se senta numa pedra
- "Quem se senta numa pedra, arrenega".
- "O quê?"
- "Quem se senta numa pedra, arrenega" - repete, em tom de aviso.
- "E o que é arrenegar"?
- "Arrenegar é perder a paciência."
- "Se eu só perdesse a paciência quando me sento numa pedra, era bem bom, acredite que era" - ouço responderem-lhe por entre gargalhadas.
Chegada a casa, a curiosidade leva-me ao dicionário e lá está o verbo arrenegar (ou renegar) , com o sentido de irritar-se, detestar, amaldiçoar, balsfemar contra...
Ninguém me conseguiu explicar a relação entre a pedra e o arrenegar. Haverá alguma justificação, para além da rima? Talvez já tenha havido, no tempo em que era hábito as pessoas se sentarem em pedras, talvez. As ocasiões hoje são poucas e se não fosse o piquenique dos meus anos, provavelmente eu nunca teria registado este provérbio, guardado na memória da minha tia, apesar dos seus quarenta e muitos anos de emigrante.
Terça-feira, Agosto 19, 2008
À paposseco
Que eu saiba a expressão só é utilizada em relação aos homens. Um homem "à paposseco" é um homem bem vestido, bem arranjado, de boa aparência.
O meu tio ouve a conversa e tenta lembrar-se de uma cantiga sobre o assunto, entoa o som, mas as palavras da cantiga estão algures a descansar na memória e a minha mãe também não se recorda no momento, atarefada à volta dos tachos do almoço e com mais em que pensar.
De onde terá nascido a expressão? O meu tio lembra-se de terem aparecido os primeiros papossecos, e de como eram coisa fina, em casa dos meus avós só se comia pão preto. Talvez tenha nascido daí a expressão paposseco para se referir a um homem bem apresentado. Ou teria sido ao contrário?
Segunda-feira, Agosto 18, 2008
história de uma aposta
Um belo dia, o primeiro foi fazer um pagamento ao segundo e deu-lhe mais do que ele lhe pediu. Este aceitou.
O outro pegou então numa viola, subiu para cima de um pinheiro e começou a tocar e cantar o seguinte:
"Dizias que me esganavas
mas eu é que te esganei
pediste-me quatro patacas
cinco patacas te dei"
Nunca tinha ouvida esta história, que há dias veio a propósito a minha mãe contar. Tudo porque eu fui ao sapateiro buscar uns sapatos que lá tinha deixado para arranjar e ele teimou comigo que eu já tinha pago. Eu achava que não, mas ele insistia que sim, e dizia que tinha anotado no papelinho e, portanto, já estava pago. Insistiu até me deixar na dúvida e eu fui embora sem pagar, que remédio. Quando contei a cena, a minha mãe exclamou, rindo: "Isso quer dizer que foste enganada, como o outro da aposta". E pronto. Eis que, sem estar à espera, fiquei a saber mais esta pequena história mais antiga do que o norte.
É assim, de facto. Tudo pode ser olhado de várias perspectivas diferentes.
Quarta-feira, Agosto 13, 2008
A romagem do triguinho
Não cheguei a participar na romagem do triguinho, que antigamente se realizava no sábado da festa do Santíssimo Sacramento, no último fim-de-semana de Julho, no Caniço. Mas tenho esse ritual na memória, guardado através da experiência da minha mãe, que sempre nos contou esses acontecimentos do dia-a-dia do seu tempo como se fossem histórias de encantar.
Na romagem do triguinho participavam praticamente todas as crianças do sítio, cada qual levando um saquinho e trigo à cabeça, destinado às hóstias. Quando havia mais saquinhos do que crianças, eram metidos dentro de um cesto de pão, que era então levado na romagem por dois adultos, cada um segurando numa asa.
A abrir a romagem, à frente, ia um vilãozinho com um molhinho de murta, um com um barrilhinho de vinho, enfeitado com um cacho de uvas e uma folha de vinha e ainda outro com uma bandeira branca, onde estava bordado o cálice e a hóstia. A seguir vinha o grupo das viloas, com saias coloridas feitas para a ocasião, e depois as outras crianças.
As searas lourejantes
Viva o nosso senhor vigário
É dos sítios mais distantes
O vilãozinho lembrou-se
Vem-se reunidos
Ora viva viva
Digam todos viva viva
Nós viemos com esperança
Segunda-feira, Agosto 11, 2008
A Festa da Poeira
Quase trinta anos depois do tempo em que eu e as minhas irmãs adolescentes éramos quase as únicas a bailar no meio da poeira ao som das músicas da banda, com os nossos vestidos novos e os nossos sapatos novos, a Festa já não tem poeira. A Igreja é nova e o adro e o largo e todos os lugares onde se faz o arraial e por onde se espalham o coreto, o bazar, as barracas e agora um palco para um conjunto, são em cimento.
No entanto, porque os nomes ficam e é a memória que vai construindo todas as histórias, o meu tio do Brasil, que gosta de vir de propósito na altura do arraial, perguntou-me se eu ia à "Festa da Poeira." Eu disse que sim e fui, embora chegando mais tarde devido ao trabalho. Não tem poeira, e eu não tive nem vestido novo nem sapatos novos. Mas aquela festa continua a ter o sabor do que nao muda, mesmo que tudo à volta pareça desabar.
Domingo, Agosto 10, 2008
Aniversário
Sábado, Agosto 09, 2008
Pegar de galho
"- Se isto pegar de galho, vai ser bonito!" Falavam do assunto do momento, do assalto com reféns ao banco em Lisboa. - "Oxalá não pegue de galho!"
"Pegar de galho" é tornar-se habitual, vulgar. Há plantas que se reproduzem com dificuldade, precisam de muitos cuidados, de técnicas apuradas. Outras são exactamente ao contrário: basta meter um galho na terra para que criem raízes, cresçam a bom ritmo e até alastrem mais do que o desejável.
Normalmente são as plantas mais vulgares, as menos valiosas, que mais facilmente pegam. Assim é também em muitas coisas do mundo. As piores são as que pegam de galho. As melhores, as verdadeiamente grandiosas, demoram a cultivar, levam um interminável tempo a crescer, é preciso esperar muito pelos resultados.
A minha alma de jardineira ensinou-me que vale sempre a pena tentar e esperar, não importa quantas vezes as plantações sejam destruídas. Continuo a acreditar que, um dia, os melhores sentimentos também hão-de "pegar de galho".
Sexta-feira, Agosto 08, 2008
Um mamolhão
Nos poucos minutos que agora tenho, aproveito para contar que fiz um mamolhão na cabeça. Dói um bocado, mas até acho piada. Aos anos que não tinha um mamolhão. Em criança eram tantos, não havia criança que não fizesse mamolhões de vez em quando, fruto das brincadeiras de outros tempos, em que ninguém se importava de cair e voltar a cair, e de esfolar os joelhos e de dar topadas. E de ficar com mamolhões de vez em quando.
Para quem não sabe, um mamolhão é uma espécie de alto, um pequeno inchaço provocado normalmente por uma pancada. O meu mamolhão no alto da cabeça foi provocado - podem rir-se à vontade, que rir é das melhores coisas da vida - pela porta do porta-bagagem do carro, que caiu sem aviso quando eu estava a tirar as compras.
Quinta-feira, Agosto 07, 2008
Jogo da correia quente
Começa-se por escolher um objecto para esconder. Um dos jogadores é escolhido para ser o primeiro a esconder, com a garantia de que todos os outros estão bem longe da vista e sem possibilidade de espreitarem. Depois são todos chamados para procurar o objecto - a correia quente - e cabe à criança que o escondeu ir dando orientações sobre a proximidade ou distância da sua localização.
Quando uma das crianças está perto, diz-lhe que está quente. Se estiver muito distante diz que está frio ou gelado. Se estiver mais ou menos, diz que está morno. O jogo vai correndo assim até alguém encontrar o objecto e ficar com o direito de ser o próximo a escondê-lo. E foi assim, com um jogo de antigamente, que passámos uma tarde agradável. Só com um senão: o dito objectivo já foi necessário e nunca mais apareceu.
Quarta-feira, Julho 30, 2008
Estão tarascas...
Não escondo a minha decepção, perante a explicação da minha mãe. - "Oh!" As couves nunca deviam ficar tarascas, digo eu que adoro folhas de couve cozidas, pra comer com um fiozinho de azeite por cima a acompanhar o milho cozido. Só assim. Tal como no tempo da minha avó. A diferença é que nessa altura era por falta de algo melhor e no meu caso é por puro gosto.
Pois bem. Acabo de saber que as couves já estão tarascas; ainda as vejo na roda dos pois, mas já estão duras, e uma vez que o sabor também se altera tornam-se desagradáveis.
Paciência. Respeito os ciclos da Natureza e esperarei calmamente pelo tempo das couves tenras. Só é pena ter sabido que as couves já estão tarascas no mesmo dia em que soube que a carne-de-porco já acabou na cartola, agora só para a Festa se Deus quiser. Duas más notícias gastronómicas no mesmo dia são mais difíceis de digerir do que uma.
Terça-feira, Julho 15, 2008
Que grande Piada
Sabe-se que a cantiga foi trazida para o sítio por um senhor de nome Franklin, que estivera em Lisboa na tropa e a aprendera numa das famosas revistas lisboetas.
Depois da estreia na Festa de Nossa Senhora do Livramento, a cantiga ficou no ouvido e passou a fazer parte do rol de cantigas que ocupavam os tempos livres e as actividades d dia-a-dia, sendo mesmo cantada na debulha do trigo, nas muitas eiras do sítio.
Que grande piada
Eu acho ao passar
Certo rapazito,
Sapato branquito
que vai namorar
A certa rapariga
Que ele adora bem
Diz muito em segredo
Ter um bom emprego
Mas não tem vintém
Raparigas muito cuidado
Com o vosso namorado
Que vos anda a enganar
Dizem ter muito dinheiro
Mas experimentem primeiro
Que tudo vai do falar
Eles andam tão limpinhos
Para quê?
P´ra enganar os corações
Até usam com preceito
Um fatinho bem perfeito
Mas comprado às prestações
Depois de lado a lado
Com a sua pequena
Fatinho engomado e bem penteado
Até metem pena
A calça curtinha
Casaco comprido
Só para agradar
Ou para intrujar
Já está compreendido?
Mas todas as raparigas
Que hoje não vão em cantigas
Devem ter olhos abertos
Não vos deixeis levar
Por ter homens a falar
Porque são muito espertos
Quando eu oiço falar assim
Palavras do coração
Sabem que é tudo intrujices
Até dizem com meiguice
- Meu amor dá-me cá a mão
Sexta-feira, Junho 27, 2008
Ver a sombra na água
Lembro-me de a senhora Maria José me ter contado o caso de uma mulher, que já não me lembro se era sua familiar ou apenas vizinha ou conhecida, para demonstrar que esta tradicional forma de adivinhação não falhava. Na noite de São João, antes de o sol sair, a mulher terá ido até à beira do poço mas não viu a sua sombra. Terá então pegado numa criança ao colo. Olhou novamente para a água e viu apenas a sombra da criança, não conseguia ver a sua própria sombra. Dizem que morreu nesse ano, talvez do desgosto, digo eu porque os desgostos também matam.
Eu gosto de cumprir tradições e ainda este ano voltei a participar numa improvisada fogueira ao São João, desta vez sem o crepitar da folhagem de loureiro verde, e sem faúlha recolhida de propósito para a ocasião, apenas um monte de folhagem para fazer a vez, sempre era melhor do que nada.
Esta tradição de ver a sombra na água, porém, permanece incompreensível para mim e jamais a cumpriria. Qual a vantagem de uma pessoa saber a data da sua própria morte? E o que é que o São João tem a ver com isso, coitado? Mas é uma tradição nossa, um costume popular de que os mais velhos se recordam e que talvez alguns ainda cumpram, quem sabe. Todas as formas de cultura e saber popular merecem um cantinho neste meu trabalho de recolher saberes e memórias.
Sexta-feira, Junho 06, 2008
Enfuguitar um bespreiro
Antigamente, havia muitos bespreiros (com "b" e com "r", era como se dizia), logo identificados pelo movimento de bêspras a sair de um qualquer buraco na terra, muitas vezes nos bardos junto às fazendas onde as pessoas tinham de cultivar a terra, ou à beira dos caminhos onde era inevitável passar.
Ora, nesses locais era preciso passar com cuidado, porque se as bêspras estivessem assanhadas, atiravam-se em bando para cima das pessoas, picando-as em todos os sítios possíveis.
Mas também é verdade que nessa época os divertimentos eram muito poucos, e a imaginação ia se desenvolvendo um pouco ao ritmo da natureza, baseada nos fenómenos e nos objectos com que as pessoas tinham de conviver diariamente.
Vai daí, havia quem se divertisse a "enfuguitar bespreiros", em sítios onde sabiam que passaria gente logo a seguir. Pegavam, num pau, metiam pelo buraco na terra, remexiam e toca a fugir. Enfuguitavam e fugiam a sete pés. As bêspras ficavam furiosas e atacavam os próximos caminhantes, para divertimento do autor da brincadeira. Eram brincadeiras de crianças e os adultos ainda se riam, como era o caso da minha avolita. Dizia: "Uma dentada de bêspra é como uma injecção. Não faz mal nenhum." E ria-se com os dentes todos, na sua forma de rir tão particular.
A minha mãe lembra-se sempre de uma vez em que decidiu experimentar. Estava com a Teresinha, amiga de sempre, e quiseram ver o que acontecia se enfuguitassem o bespreiro que estava ao pé do caminho da levada. A intenção não era pregar partida a ninguém, apenas "ver o passo" dos animais, perceber se era verdade que as vespas se enfureciam com a intromissão e saiam de casa desvairadas, para se vingarem.
Mas acontece que não tiveram tempo de fugir e as bêspras, furiosas, embaraçaram-se-lhes nos cabelos e na roupa e desataram a picar, a picar, e elas aos gritos, a tentar fugir, levando consigo o enxame colado aos corpos franzinos vestidos de chita. A Ti Carolina, que Deus lhe dê o céu, estava no terreiro, avistou a cena, e riu-se. Divertiu-se com a cena, afinal nenhuma das duas morreria daquilo e tão cedo não esqueceriam a lição.
E tinha de tal forma razão que a minha mãe, ao contar esta cena, se ri sempre de um riso com saudades. Resumo da história: Fizeram uma brincadeira, sofreram as consequências, aprenderam, e ficaram com uma bela história para contar aos filhos e aos netos. Havia coisas tão simples e tão eficazes na educação de antigamente, quando não se pensava e repensava filosoficamente nas coisas da educação. Porque é que as pessoas decidiram complicar tudo?
Gosto de ouvir estas histórias do tempo da simplicidade, em que as coisas se tratavam por si, sem médicos nem psicólogos, nem culpados. E gosto da expressão "enfuguitar um bespreiro", com um sentido metafórico tão genuíno. Enfuguitar um bespreiro é fazer algo para enfurecer ainda mais alguém, normalmente de propósito e não ingenuamente como a minha mãe e a Teresinha quando decidiram estudar no local e ao vivo a reacção dos insectos.
Terça-feira, Junho 03, 2008
João Rapado e João Barbado
Mas.
Algumas almas têm dificuldade extrema em praticar estas sabedorias mais antigas do que o norte, mais do que comprovadas por todas as experiências. São as almas sonhadoras, que se agararam a um momento, a uma ideia, a um projecto, e têm dificuldade em o largar, apara abraçar uma qualquer alternativa, seja ela qual for. Essas almas sonhadores e estranhas não conseguem conceber que alguém possa ser feliz com uma alternativa.
Sexta-feira, Maio 30, 2008
Uma dentada de bêspra
No caso das crianças, sei porque tenho várias na memória, seguiam-se de imediato os gritos. E logo um adulto perguntava, talvez de dentro da cozinha, sem espreitar à porta: - " O que foi?" - Por entre gritos: -"Levei uma dentada de bêspra". E a resposta certeira: "-'Inda pensei que era alguma coisa. Anda aqui pôr um dente de alho."
Havia vários remédios caseiros para as dentadas de bêspra, era assim que todos pronunciavam a palavra vespa. O primeiro recurso era sempre colocar sobre a picada um dente de alho esmagado. Às vezes não havia alho à mão e colocava-se uma moeda, ou, em alternativa, a parte metálica de uma faca. Antigamente algumas pessoas também colocavam anil, sabão azul e ainda salsa pisada.
O alho e a moeda foram sempre os remédios mais utilizados na minha família e por isso foram com elas que foram aliviadas as dores de todas as minhas dentadas de bêspra.
Lembro-me de uma em particular numa vez em que fui em missão de exploração ao sótão. As bêspras tinham pequenos favos entre as traves de madeira e o telhado e uma delas apanhou-me desprevenida, entrou pelo meu vestido de chita e mordeu-me precisamente junto ao umbigo. Desatei aos gritos e quase descia as escadas do sotão aos tramolhões.
A primeira coisa que os adultos pensaram quando me ouviram foi que eu tinha caído da escada e quando me viram inteira, suspiraram de alivio e acabaram por minimizar a dor da minha dentada de bêspra, coisa que eu levei muito a peito. Claro que me puseram o milagrosa dente de alho e também a moeda da praxe.
Agora sorrio. Era tão natural uma dentada de bêspra e passava de forma tão natural e havia tantos remédios naturais e simples e no dia seguinte mais não era do que uma pequena memória do quotidiano. Quase me apetece dizer que tenho saudades. A dores da alma não passam com dentes de alho nem com uma moeda colocada por cima.
Terça-feira, Maio 27, 2008
Uma angrinha
- "Olha, eu também."
Era hora de almoço e captei no ar a conversa entre dois colegas. Uma angrinha? A minha curiosidade pela linguagem popular, leva-me, por vezes, a meter-me em conversas para onde não fui chamada, espero que ninguém me leve a mal.
Ficaram espantados pelo facto de eu não conhecer a palavra "angrinha" e até me explicaram tratar-se, obviamente, de mais uma entre muitas influências dos ingleses que passaram ou se fixaram na Ilha. "- Angrinha vem do inglês hungry". Agradeci a explicação e garanti-lhes que na minha zona não se usava esse termo, pelo menos não me lembrava de já o ter ouvido.
Ora pois. Estar com uma angrinha é ter fome. Ora bem.
Mal cheguei a casa, fui confirmar se os meus pais conheciam o termo e conhecem muito bem, eu é que não consigo já ter memória para tudo. O meu pai afiança que o costuma usar. Quando a fome é muita, usa uma palavra mais forte: "Estou com uma angra que não me aguento." É nessas alturas que acrescenta: "Estou capaz de comer um boi."
Conselhos
Como o ouro na balança
Quem tem honra tem virtude
Qu'até no céu tem herança.
Menina comprai o céu
Que bem barato se vende
Quem faz bem neste mundo
No outro não se arrepende
Menina se queres ser minha
põe o pé na segurança
Hás-de andar direitinha
Quema' o ouro na balança
Entre as muitas quadras populares que em tempos recolhi, existem várias que mais não são do que conselhos, passados de geração em geração pelos mais velhos.
Estas quadras ouvia-as da boca da minha querida avolita. Curioso é o facto de todos os conselhos se dirigirem às raparigas, encorajando-as a defenderam a honra com unhas e dentes. Não anotei nenhuma destinada especificamente aos homens, talvez por então não se esperar dos homens mais do que trabalharem e trazerem o comerinho para casa e o resto paciência, cada uma que se contentasse com a cruz que Deus lhe dera, leia-se marido.
Anotei também este conselho, que teria então evitado muitas vidas atormentadas, quantas.
Rapariga não te cases
Que tu solteira 'tás bem
Já vi uma bem casada
e a chorar por sua mãe.
Jogo das prendas
Primeiro, cada jogador escolhia três prendas. Bastava olhar à volta e procurar um pouco para colher três pétalas de uma mesma flor, ou três flores se fossem pequeninas, três pequenas folhas, três pequenos paus, três bagas, três pequenas cascas de pinheito, três pedras pequeninas, por exemplo, eram tantas as possibilidades já que crescíamos no meio da Natureza.
Depois, reuniam-se todos os jogadores junto da caixeira, a pessoa que guardaria todas as prendas e mostravam-lhe o que tinham escolhido.
Então, a caixeira dizia: "O padre cura foi de rua em rua e à porta da rosa foi parar..."
A rosa (a pessoa que tinha escolhido três pétalas de rosa) dizia: "- Ai"
A caixeira perguntava: "- Que tem?"
A rosa: - "Saudades."
A caixeira: "-De quem?"
A rosa: "da pedra".
E de imediato a pessoa que tinha escolhido como prendas três pequenas pedras, dizia: " - Ai"
E repetia-se todo o ritual, passando por todos. Se acontecesse de a pessoa estar distraída, porque o nome seguinte era dito de repente, sem se saber quem seria escolhido, e não respondesse logo com o "Ai", tinha de entregar à caixeira uma das suas três prendas.
Este ritual repetia-se durante o tempo necessário, até a caixeira, que se mantinha sentada, recolher na abada do vestido todas as prendas de todos os jogadores.
Chegava então a parte das sentenças. A caixeira ia tirando as prendas da abada, uma a uma. A cada prenda correspondia uma tarefa, destinada ao respectivo dono.
A caixeira dizia assim, por exemplo: "A primeira prenda que daqui sair vai à fonte buscar um aguador de água." Fazia uns momentos de suspense, e depois, devagar, mergulhava a mão na abada formada pelo vestido e retirava de lá a prenda." O dono da prenda escolhida, levanta-se e, perante as garagalhadas dos outros, ia buscar um aguadar e ia mesmo buscar água à fonte.
O limite era a imaginação da caixeira e assim se passavam tardes inteiras, numa alegria saudável, ingénua, feliz.
Segunda-feira, Maio 26, 2008
Jogo da manhã
Nos velórios das crianças que morriam e iam directamente para o céu, brincava-se a noite toda em vez de chorar, era mesmo assim. Nunca assisti a nenhum, no meu tempo já era rarao morrerem bebés, mas ouvi muitas vezes falar desses noites de brincadeira, na sala das casas, com o bebé morto na écia.
Na minha infância jogava-se ao jogo da manhã quando já estávamos cansados de outros jogos movimentados. Um jogadordeita a cabeça no colo de outro, deixando uma mão nas costas, com a palma voltada para cima.
Entre os outros jogadores, alguém lhe bate na mão e cabe-lhe tentar adivinhar quem o fez.
Não é tão fácil como parece, especialmente porque se faz de tudo para o enganar. Por exemplo, a pessoa que bateu afasta-se quando ele vai levantar a cabeça, disfarça, alguns mostram um ar comprometido.
Domingo, Maio 25, 2008
Cantiga de embalar
de cima desse telhado
deixa o menino dormir
o seu soninho descansado
Vai-te embora passarinho
deixa a baga do loureiro
deixa o meninao dormir
o seu soninho primeiro
Dorme, dorme, meu menino
Que a mãezinha já lá vem
foi lavar os teus paninhos
à fontinha de Belém
Foi esta a cantiga que me embalou, na voz maravilhosa da minha mãe.
Que saudades do tempo em que havia um remédio tão bonito, tão simples e tão eficaz para dormir.
Os remédios de agora não fazem efeito nenhum.
Sexta-feira, Maio 23, 2008
O jogo do porco
Toda a gente criava um porquinho para a festa e a família toda ganhava uma grande familiaridade com o animal. As crianças, por exemplo, visitavam-no inúmeras vezes ao dia. Às vezes o porco fugia e era preciso os homens irem atrás dele, para o trazer de volta, lembro-me muito bem de o nosso porco se soltar e a minha mãe ir a correr chamar o meu pai para o levar de volta para o chiqueiro.
O jogo é muito simples: as crianças dão as mãos, fingindo que a roda é o chiqueiro, e o porco a criança que ficou dentro da roda. As mãos têm de ser muito bem agarradas, porque o porco tenta fugir do chiqueiro, fazendo força nas mãos das outras crianças. Fazíamos tanta força que às vezes literalmente nos pendurávamos nas mãos-dadas. Tentávamos separá-las a todo o custo, enquanto as crianças da roda apertavam mais e mais.
Quando finalmente o porco conseguia abrir uma porta, desatava a correr, fugindo, com as outras crianças todas no encalço. Acabam por conseguir apanhá-lo, sempre. A criança que o conseguisse tinha então o privilégio de passar para dentro da roda, para o lugar do porco.
Sexta-feira, Abril 18, 2008
Um quarto de dia
Uma criança que se suja na hora de sair para uma festa, para a qual já estávamos atrasados, é "um quarto de dia". O carro ficar sem gasolina e a próxima bomba estar distante é um "quarto de dia". Todos os dias deparamo-nos com "quartos de dia", os exemplos não teriam fim.
"Um quarto de dia" refere-se a um quarto de dia trabalho e foi a forma encontrada pelo povo para dar relevância a esses imprevistos. Mesmo que seja de resolução fácil e relativamente rápida - como acontece normalmente neste caso - a dimensão do problema é automaticamente ampliada com o uso desta expressão.
Também já ouvi a expressão usada em tom irónico, divertido, denunciando o exagero nela contido.
Terça-feira, Abril 15, 2008
Até já foi ao boi...
O ti Antôine da venda, coitado, ouvia muito mal, podia-se dizer que o pobre do homem estava mesmo ficando mouco.
Certa vez, adoeceu-lhe a vaca e, em simultâneo, a mulher. Claro que se sabia tudo no sítio, e bem mais depressa no que nesta era da internet e dos telemóveis. Por isso, cruzando-se algures no caminho com o ti Antôine da venda, alguém o cumprimenta e pergunta-lhe pela saúde da esposa.
O ti Antôine responde sem qualquer hesitação: - "Já 'tá boa. Hoje até já foi ao boi." Claro que se referia à vaca e não à mulher. O episódio ter-se-à devido à quase surdez do Ti Antôine da venda, coitado. Mas também não me admirava nada que ele estivesse mais interessado na saúde da vaca do que na da mulher, nunca se sabe.
O certo é que aquele episódio se espalhou e foi contado e recontado e tornado anedota talvez para sempre. Ora dizer que a mulher já tinha ido ao boi, ninguém inventaria melhor anedota. O Ti Antôine já há muito deixou este mundo e este pequeno episódio ainda arranca gargalhadas a duas irmãs separadas há quase quarenta anos.. E o curioso é que foi a irmã emigrada a lembrar-se da história do ti Antôine, por vezes quem está longe, à distância de mares e continentes, lembra-se mais deste tipo de coisas.
Sábado, Abril 12, 2008
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai no seu caixão
A quem deixaria ela
O seu bonito cordão?
O seu bonito cordão
Deixou ela à sua tia
Para que ela lhe rezasse
Por alma uma Avé-Maria
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai ela a enterrar
A quem deixaria ela
O estojo de bordar?
O estojo de bordar
Deixou ela à sua mãe
Para que ela lhe rezasse
Por sua alma também.
Já morreu Adelaidinha
Já lá vai ela p'ró céu
A quem deixaria ela
O seu bonitinho véu?
O seu bonitinho véu
Deixou à sua madrinha
Para que ela lhe rezasse
Mais uma Salve-Rainha.
Uma das cantigas da infância e da juventude. Uma cantiga que me faz ter soidades do tempo em que bastava uma cantiga para alegrar a alma, do tempo em que tudo fazia sentido e nada era complicado. Por exemplo, os bens da Adelaidinha foram deixados por ela a quem quis e aceites em paz, suponho, coisa rara nos dias que correm. Hoje em dia não há heranças divididas sem brigas. O estojo de bordar, o cordão, o véu: até os objectos mais simples tinham valor, e isso era tão bonito.
Terça-feira, Abril 08, 2008
Presumida
Parece que estou a vê-la contar, por entre gargalhadas, que era muito presumida quando era nova: gostava de andar sempre com os vestidos à moda, tinha o cuidado de os mandar fazer segundo os ditames mais recentes e tinha adorado a primeira blusa sem manga da sua vida, nos tempos em que ia à missa já com o sentido no meu avolito.
A minha avolita foi sempre presumida e gostava de ver pessoas presumidas, que se arranjassem bem e tivessem gosto nisso, pessoas despachadas e seguras de si.
Lembrei-me agora da minha avó e demoro-me a acarinhar estas memórias simples. Lembrei-me dela por causa da palavra presumida.
É verdade: estou presumida! Afinal, este blogue já tem 450 textos, uma meta cumprida com o post anterior.
Ninguém diga o que não sabe
Onde o penedo caiu
Ninguém diga o que não sabe
Nem afirme o que não viu"
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço
Um mandado
Todas as criança do meu tempo faziam "mandados" a pedido dos adultos. Íamos "fazer mandados" a casa dos vizinhos várias vezes ao dia, se fosse necessário.
Mandavam-nos, por exemplo, pedir uma agulha emprestada, uma tesoura de bicos para recortar o bordado, um qualquer ingrediente de cozinha que faltava para acabar o jantar. Talvez entregar o "modelo" da tela, ou levar as peças já feitas, ou quem sabe trocar linhas ou lãs, ou dizer a alguém que tinha ido com o bordado que regressasse mais cedo a casa por um qualquer motivo, enfim.
Nessa época não existiam ainda telefones no nosso sítio, as crianças eram muito úteis nessa tarefa de "fazer mandados". Uma das quadras que recolhi nos anos oitenta, usada sobretudo no brinco, quem sabe também no Xaramba ou durante a apanha da erva, falava dessa ideia de mandado associada às crianças.
"Se não fosse minha mãe
Já podia 'tar casado
Já podia ter um filho
Que me fizesse um mandado."
Tranquelhento e tracista
Tanto tranquelhento como tracista são adjectivos aplicados a pessoas más, reles, vingativas, que muitas vezes praticam as suas maldades "pela calada", prejudicando os outros sem dar muito nas vistas.
Diz-me uma amiga do centro da freguesia que o primeiro adjectivo seria "trinquelhento" e que derivaria do verbo "trincar", tem toda a lógica. Na linguagem oral as vogais são facilmente substituídas, dependendo da pronúncia característica das diferentes zonas ou até da forma particular de falar de uma determinada pessoa.
No meu sítio sempre dissemos "tranquelhento", pelo menos sempre foi assim que me soou, e continuamos a dizer. Na minha família ainda usamos as duas palavras e eu contribuo como posso para atrasar a morte definitiva destes termos do falar madeirense.
A única forma possível de eu desistir delas seria a certeza de que deixando de as utilzar também deixariam de existir pessoas tranquelhentas e tracistas, que é o que mais há por esse mundo fora.
Peguelhar
Não encontro tradução nem para o verbo, nem para o adjectivo; muitos não precisarão de explicações pois apercebo-me de que são ainda muito usadas as duas palavras. Para os outros, os mais novos e os de fora, aqui fica uma possível descrição.
Uma pessoa peguelhenta está sempre a reclamar, nunca está satisfeita com as coisas, se estiverem de uma maneira, preferia da outra, se estiverem da outra, o melhor seria ao contrário, é uma pessoa que parece inventar pretextos só para poder estar sempre a criticar, a exigir, a reclamar, a dizer mal, a deitar abaixo.
Penso que não será necessário esforçar-me mais para tentar definir o adjectivo peguelhento e, em consequência, o verbo peguelhar. Com certeza todos já identificaram no seu rol de conhecidos, talvez até de familiares, pessoas que têm o hábito de peguelhar.
O que nos vale é que, tirando alguns casos crónicos, o mal é normalmente passageiro. Todos temos os nosso dias de peguelhentos, todos caímos por vezes na tentação de peguelhar, quem estiver inocente que atire a primeira pedra.
Uma resonda
- "Resonda?" Sim, uma resonda. Resondou-me, pois claro. Há pessoas que resondam os outros, precisamente quando lhes reconhecem razão. É uma forma de se protegerem, não é?
- "Resondam?" Sim, resondam.
Nunca deixei de utilizar o substantivo "resonda" e o verbo "resondar". Utilizo-os de forma tão habitual, que quase nem dou por eles, a não ser que o interlocutor reaja assim, como quem não percebeu.
Então lembro-me que resonda e resondar são palavras do léxico madeirense e explico, contente por serem afinal tantas as palavras particulares do nosso falar e ainda mais pelo facto de algumas delas continuarem tão vulgarmente em uso.
"Resonda" é um termo mais forte do que raspanete, do que reprimenda, talvez seja só a força do hábito, talvez, mas para mim "resonda" é a palavra certa. E sorrio, ao terminar a minha pequena lição de madeirense. Afinal, não é todos os dias que uma resonda nos consegue arrancar um sorriso sincero.
Segunda-feira, Abril 07, 2008
Ciranda, Cirandinha
P'ra eu ir ao seu serão (bis)
P´ra fiar a maçaroca
do mais fino algodão (bis)
O Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar (bis)
Vamos dar a meia volta
E outra meia vamos dar
Vamos dar a meia volta
E quem 'tá bem deixa-se estar.
Quem 'tá bem deixa-se estar
Eu não posso estar melhor (bis)
Estou ao pé do meu benzinho
Não há regalo maior. (bis)
A Ciranda quer qu'eu morra
Digo eu que morra ela (bis)
Vai-se fazer um chazinho
Nem que seja de marcela. (bis)
Ó Ciranda, cirandinha
Vamos nós a cirandar (bis)
Vamos dar a meia volta
E adiante troca o par. (bis)
Adiante troca o par
Qu'este meu já está trocado (bis)
O amor que Deus me deu
Trago aqui ao meu lado. (bis)
Dei por mim a trautear a cirandinha, e de repente já não me lembrava de todos os versos, tal como mos ensinaram, tal como os cantava no princípio dos tempos, de repente já não tinha a certeza se me lembrava e fiquei triste. Mas.
Sim, tinha-os escrito em 1986 com a minha letra redonda, igual. E aqui fica a versão que se cantava no meu Sítio durante a minha infância.
A Ciranda é uma cantiga de roda, era em roda que a cantávamos vezes sem fim, mas não só. Cantávamos a Cirandinha em qualquer ocasião, enquanto varriamos o terreiro, ou enquanto bordámos debaixo da ameixeira, ou ao serão junto à luz de petróleo ou enquanto percorríamos a vereda, numa qualquer "volta" a mando dos adultos.
Cantava-se a Cirandinha, num cirandar perfeito de tempo e de gestos, seguros e certos, ambos, e eternos também e no lugar exacto, único, do universo. Cantava-se a Cirandinha sem pensar em nada a não ser na Cirandinha que não se sabia quem era mas queríamos saber, insistíamos por vezes em desvendar os mistérios das cantigas mas depois desistíamos, acho que percebíamos que as melhores cantigas tinham de ter algo de incompreensível.
Chuva de Abril
"Em Abril, águas mil."
Para além de ser normal chover em Abril, a chuva deste mês sempre foi bem vista por quem vive da terra. Veja-se mais dois provérbios, que me habituei a ouvir desde pequenina:
"Chuva em Abril, é alqueire e barril."
"A chuva de Abril é o governo do ano."
Também me lembro de ouvir inúmeras vezes outro provérbio, que é mais uma forma de lembrar que Abril é um mês molhado:
"Em Abril a velha ainda queima o canzil."
Se "a velha ainda queima o canzil" quer dizer que não há lenha para pôr a arder no lar e se não há
lenha capaz de arder é por estar tudo molhado devido à invernia. Nem mais.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
Acarão
Acarão.
" - Não te sentes acarão da frieza. Isso faz um mal desgraçado." Sim. Está bem. Um pequeno tapete de retalhos sobre o cimento e pronto, está resolvido o problema. Alguma razão deve ter a sabedoria popular, confirmada e reconfirmada ao longo dos séculos.
Acarão.
" - Vestiste essa camisola de lã acarão do corpo?" Sim, quer dizer, ora bem. Com outra por dentro, fininha, de algodão, fica bem mais confortável.
Acarão.
A palavra acarão continua a ser muito usada, em vários contextos, para significar directamente sobre uma superfície, sem protecção.
O povo recorda constantemente as regras mais básicas: não tomar medicamenteos, nem determinadas bebidas/comidas acarão do estômago (em jejum), não se sentar acarão da pedra, se estiver fria é prejudicial, se estiver quente ainda é pior, não vestir alguns tecidos acarão da pele, atençãò às alergias.
Eu acrescento outro ensinamento, embora sem o peso das sentenças confirmadas ao longo de gerações, apenas sentida ou pressentida, sei lá, acrescento solenemente que também com o coração é preciso cuidado. Algumas emoção não deviam ser vividas acarão.
Terça-feira, Abril 01, 2008
Porta-me lá
"Porta-me lá" é uma forma de dizer sim. Mas é um sim diferente de um sim normal. É um sim que na verdade significa não me importo, podes fazê-lo (seja lá o que for) que não me faz grande diferença, não me afecta, não me faz mal nenhum e portanto "porta-me lá".
Este "porta-me lá" é na realidade "importo-me lá", mas o povo encurtou o verbo, tornou-o mais curto, mais a jeito de usar, mais fácil de dizer. Por vezes, "Porta-me lá" vai além do tal sim dito de forma diferente, e quer dizer deixem-me em paz, seja o que for que disserem ou fizerem, seja o que for que esteja a acontecer no mundo, não quero saber.
"-Porta-me lá!" Encolhe os ombros, mantém a atenção concentrada no que está a fazer. E eu sorrio. Sorrio para o tempo que às vezes perdura, imóvel, dentro do próprio tempo. As minhas duas avós também teriam dito "porta-me lá". As minhas duas avós, ambas Maria, teriam dito "porta-me lá", e os meus dois avós, ambos José, teriam dito também "porta-me lá." Com essa certeza, sorrio para o tempo que às vezes perdura, imóvel, dentro de nós.
Quarta-feira, Março 19, 2008
Entramelado
O "Sino" vai desaparecer da Rua Fernão de Ornelas, aos poucos vão desaparecendo as lojas que guardei na memória do tempo em que crescia e ia à cidade duas ou três vezes por ano, de olhos esbugalhados para as montras e para as ruas e para as casas e para as pessoas. Mas as lojas também ficam entrameladas, como as pessoas, e nem belo dia de Primavera, apesar de alguns jacarandás já estarem em flor, fecham as portas para sempre e entristecem as pessoas que se ralam com estas coisas e que também gostam de jacarandás, por mero acaso porque uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Eu não sei se a senhora que começou a ir ao "Sino" no século passado, quando ainda era uma menina, também gosta de jacarandás, da palavra redonda e aberta, lilás - quando se diz jacarandá há uma magia que se desdobra no ar, misteriora, quando se diz jacarandá juro que acontece alguma coisa de inexplicável - não sei. Sei que sente antecipadamente a imensa, inexplicácel perda. E sei que ainda utiliza o adjectivo "entramelado/a".
Fecham-se portas, caem cortinas sobre palcos da vida de todos os dias, encerram-se capitulos da história dos lugares como se nada fosse, que tristeza. E. Ali, no meio dos escombros das memórias das histórias da cidade no meio das coisas que vão deixar saudades ora se vão, então não vão, áme não, eis que a senhora Maria - é muito provável que se chame Maria e se não se chamar é como se se chamasse, digo eu - utiliza a palavra "entramelado".
Obrigada.
Sexta-feira, Março 07, 2008
Despique
-Tendes os pezinhos brancos
Branquinhos e cor-de-rosa
Porque não usas tamancos
Cobrindo a carne mimosa?
Rapariga:
-No Campo não se repara
Fui assim habituada
Como posso andar calçada
Custando a vida tão cara?
Rapaz:
- Se tu quisesses, Maria
Receber-me por namoro
Podias calçar um dia
Sapatos com pregos de ouro
Rapariga:
-Aceito para estrear
Vá que seja, vá que seja
Quando nos formos casar
Pela santa madre igreja
Rapaz:
- Casar, Maria, isso não
Quem te fala em casamento?
Pode haver muita afeição
mas não haver sacramento
Rapariga:
-Não sou dessa qualidade
Eu ando de pé descalço
Não darei um passo em falso
Como as fofas da cidade
Rapaz:
- Meu Deus, que cara tão feia
Eu não queria dizer isso
As raparigas da aldeia
Parecem mesmo uns ouriços
Rapariga:
- A gente vive nos campos
Só namora quem se estima
Adeus e adeus sapatos
Assenhora a sua prima
Recolhi este despique em 1986 e soube então que foi trazido para o Sítio por uma mulher que trabalhou no Funchal, no Hospício, onde terá aprendido muitas cantigas com as freiras.
Primeiro, o depique terá sido ensaiado de propósito para ser cantado no bazar, durante as festas mais conhecidas da freguesia, como forma de atrair público. Era cantado por duas crianças, um rapaz e uma rapariga, vestidos de vilões. As pessoas gostaram, a música ficou no ouvido, e o despique passou a ser cantado em muitas outras ocasiões, sobrevivendo na memória até aos dias de hoje.
Quarta-feira, Março 05, 2008
Um ar encanado
Detestei o ar encanado, não o consigo suportar, mas gostei de ouvir esta antiga forma de falar sobre uma corrente de ar.
Era assim que se dizia antes, no tempo em que as pessoas tinham respeito ao ar encanado e o evitavam porque sabiam o quanto podia ser prejudicial. Os mais velhos alertavam: Cuidado com o ar encanado. Fecha a porta. Agasalha-te. Foge desse ar encanado.
Ar encanado porque parece que o ar vai dentro de um cano, todo numa mesma direcção, numa corrente, encaminhado para a outra abertura. Há expressões bem mais difíceis de explicar.
Nos últimos dias tive de me sujeitar a ares encanados por mais do que uma vez. Talvez seja por isso que hoje não me sinto muito bem, sinto um frio estranho.
Domingo, Março 02, 2008
Já tenho as marcas, falta o travesseiro
Domingo, Fevereiro 24, 2008
Renheta
" - Muito bem, uma senhora dessa idade e que ainda se lembra do Dia de São Valentim!" Quiseram saber se ele também lhe ia oferecer uma prenda e ela riu-se outra vez, enquanto finalmente se decidia por uns boxers: - "Ele é velho e renheta."
"- E mesmo assim a senhora compra-lhe um presente, imagine-se se ele não fosse renheta!" Novas gargalhadas encheram a loja e eu anotei de cabeça a intenção de registar o adjectivo "renheta". Renheta é um adjectivo construído a partir do verbo renhir, que segundo o dicionário da Porto Editora significa "combater com denodo, com fúria; altercar; porfiar."
Pensei com os meus botões que antigamente quase todos os maridos eram renhetas, e o pior era que essa característica geralmente se ia acentuando à medida que iam envelhecendo.
"- Ele é velho e renheta", tentei fixar a frase da velhota que aderira ao espírito consumista do famoso dia dos namorados, repetindo-a baixinho algumas vezes.
Olhei outra vez para a mulher e então percebi que ela estava contente, enquanto pagava na caixa os boxers de gosto duvidoso. Afinal, aquela frase estava cheia de carinho e de ternura, estava sim senhora. E o amor também é isso, aceitar as fragilidades do outro como quem estende a mão para aceitar uma flor.
Terça-feira, Fevereiro 12, 2008
Duas facas cruzadas
Sempre ouvi dizer e é bem mais compreensível do que a superstição das duas luzes acesas. As facas encerram um simbolismo negativo bastante evidente.
O pior é que a violência anda por aí, em todos os cantos, mesmo sem facas cruzadas ao acaso sobre uma qualquer mesa de cozinha, por entre a azáfama de um qualquer cozinhado.
Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008
Duas luzes em cima da mesma mesa
Mal começava a aproximar-se a noite, era preciso confirmar se havia petróleo suficiente no velho candeeiro, com a sua barriga de vidro transparente com desenhos em relevo e o seu vidro também com barriga e pequeno rebordo em cima, em jeito de folho. Era preciso também confirmar se a torcida estava bem, às vezes era preciso aparar a parte de cima com uma tesoura.
Não sei bem como nem quando, mas a partir de certa altura passámos a ter em casa uma luz especial, um petromax, à volta da qual havia todos os inícios de noite um verdadeiro ritual. Era uma luz em metal, alta e elegante, com uma barriga de metal que também se alimentava a petróleo. Para funcionar precisava de uma espécie de pequeno saco de seda, fino e mágico, que devia estar muito bem colocado ao meio. Havia uma série de procedimentos que era preciso seguir cuidadosamente, era uma autêntica arte conseguir que os serões fossem tão luminosos. Nunca me esqueci do barulho que o petromax fazia, um barulho de fundo que acompanhou muitas cópias, ditados, contas, tabuadas e numeração romana, os deveres da minha escola primária.
Duas luzes em cima da mesma mesa não é coisa boa. Dizem que dá azar. Pois dá, ora se dá. Como compreendo a antiga e sábia expressão. Duas luzes acesas em cima da mesma mesa fazem mal, sobretudo à conta da electricidade. As luzes já não são de petróleo, mas o petróleo continua a mandar no mundo.
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Nós num colar de ouro
É uma superstição cujo resultado eu não posso afiançar, já que nunca tive colar de ouro.
Em vez de um colar, os meus padrinhos de baptismo, os meus queridos avolitos, deram-me uma pulseira, da qual muito se orgulhavam.
Quiseram dar-me algo diferente, provavelmente a pulseira até custou mais do que o tradicional colar com cruz, mas durante toda a minha infância eu perguntava à minha mãe porque é que não tinha um colar, como todos os meus irmãos. Dizem que a galinha do vizinho é sempre melhor do que a nossa, ora aí está.
Inzoneira
Há poucos dias, numa roda de amigos, alguém me colocava no topo das pessoas da sua lista de conhecimentos que têm por hábito fazer comida a mais nas festas. Do género de chegar para todos e para mais alguém que apareça e de ser mais do que suficiente para todos repetirem e ainda ficar para o dia seguinte e para os outros também, graças a Deus.
Com um sorriso, recordando subitamente o velho conselho da minha mãe, respondi: "- Isso é porque não sou inzoneira."
De entre os presentes, ninguém conhecia o termo "inzoneira", ou "inzona", como se diz nalgumas zonas da Madeira. Uma pessoa inzoneira é uma pessoa que poupa na comida, que faz tudo à rasquinha quando tem convidados. O povo diz "que mais vale sobrar do que faltar" e foi isso que sempre me ensinaram. Felizmente, não sou inzoneira.
Nota:
Depois de ter escrito este texto, fui alertada para a existência da palavra "onzeneiro", que significa usurário: aquele que empresta com usura; agiota; avarento.
Segunda-feira, Janeiro 28, 2008
Raspou-se!
Não é caso para rir, bem pelo contrário, mas eu deixei escapar um sorriso porque não ouvia este verbo há muito tempo. "Raspou-se!" era antigamente utilizado como sinónimo de fugir, escapar. De tal forma se foi perdendo a expressão na linguagem mais moderna, que julguei tratar-se talvez de um regionalismo.
Estava enganada. O verbo "raspar-se" com este sentido está no dicionário de português e isto vem provar uma ideia que sempre me atormentou. O nosso vocabulário tem vindo a empobrecer, aos poucos vai se encurtando em vez de se alargar.
O ladrão que visitou a casa da pobre senhora, no Monte, raspou-se. Hoje sou eu que tenho vontade de me raspar, não faço ideia para onde, se alguém souber onde se apanha o autocarro para outro planeta que me avise, por favor.
Sexta-feira, Janeiro 25, 2008
Cantiga
Que é, que é, que é
Quebrastes a caneca
Já não bebes mais café
Ah Júlia, ah Júlia, ah Júlia
O que tens dentro da caixa
Uma garrafa de vinho
P'ra se levar à Camacha
(Recolhida em 1986)
Sempre gostei do nome Júlia. Antigamente havia muitas, hoje não conheço nenhuma. Ainda não se lembraram de o recuperar, tal como fizeram com outros "nomes de velha", como diz a minha mãe com muita graça.
O cantar e o bailar
O bailar das pernas vem
O cantar e o bailar
Não tiram nada a ninguém
Quem canta seu mal espanta
Quem chora seu mal aguenta
Eu canto para esquecer
Uma dor que me atormenta
Hei-de cantar e bailar
E hei-de dar palmas à toa
O cantar e o bailar
Não me tiram d'eu ser boa
Eu hei-de morrer cantando
Já que chorando nasci
Eu agora vou cantar
Já que eu cheguei aqui
Ah Maria canta e baila
E abana o teu panasqueiro
Qu' os que não cantam nem bailam
São os que morrem primeiro
(Quadras recolhidas no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço)
Na altura em que se cantavam estas quadras e na altura em que as recolhi, ainda não tinha sido editado "O Segredo". Mas o povo sabia.
A unha e a calçada
à porta da minha amada.
Rapaz, eu gosto de ti
com a unha da calçada".
Quando cantou esta quadra, a minha avolita, que Deus lhe dê o céu, fez questão de me explicar que esta é uma forma de dizer o quando não se gosta.
Não fui do tempo de andar descalça, a não ser por brincadeira. Mas quem foi desse tempo, como a minha avó, os meus pais, e os meus tios, percebe bem a metáfora e não precisa de explicações.
No Verão, tinham de correr o mais que podiam porque a calçada ardia debaixo dos pés, era impossível estar parado nela. No Inverno, era preciso tentar contornar o lameiro, as poças de água, as pedras caídas no caminho, as pinhas e os paus, era praticamente impossível evitar magoar-se. Fosse em que estação fosse, as topadas eram o pão nosso de cada dia. Unha e calçada não conseguem entender-se em situação nenhuma.
Está explicada a comparação: "Rapaz, eu gosto de ti, como a unha da calçada". Resposta nua e crua, mas clara e directa. Uma virtude de que hoje em dia muitas pessoas não se podem gabar. A covardia de nada dizer é mais confortável e as pessoas, cada vez mais, vivem apegadas à ilusão do conforto, fabricada seja à custa do que for.
Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Uma frescalhada.
Fixei a expressão mas já não me lembro qual era o manjar alvo da frescalhada.
Uma frescalhada é um grande entusiasmo, uma euforia. Talvez se tratasse de uma verdadeira sopa de trigo, uma sopa de trigo à moda antiga. Ou talvez de um fruto delicioso maduro, devidamente preparado e coberto com uma fina camada de açúcar. Ou talvez se tratassem de tomates ingleses ou de araçás. Talvez.
"- Fazem uma frescalhada e depois...." Mas a quantidade não interessa. Não é preciso muito para matar saudades do gosto da infância. Esses sabores merecem sempre uma frescalhada, e nunca perderão a magia ainda que deles provemos apenas um belisco.
Segunda-feira, Janeiro 21, 2008
Varrer dos Armários



Domingo, Janeiro 20, 2008
Isso é mato!
Esse calorzinho que me faz sorrir leva-me ao tempo em que "ir ao mato" era uma tarefa diária. Ainda crianças, saíamos de casa para "ir ao mato" e daí a bocado já tinhamos regressado com um pequeno molho, normalmente destinado a acender o lume no lar da minha avó, ou a deitar no chiqueiro do porco. O meu avô também usava mato para deitar nos regos, quando cultivava os poios à volta da casa.
Era fácil ir ao mato porque havia mato por todo o lado, o que não faltava nesse tempo era pinheiros. Aquilo a que chamávamos mato eram as folhas finas dos pinheiros, as faúlhas, que iam caindo ao chão à medida que secavam. Para as apanhar, usávamos uma forquilha, uma alfaia com dois ganchos, que arrastávamos no chão para reunir a faúlha aos montinhos. Depois juntávamos os vários montinhos num molho e regrassávamos a casa, contentes por estar feita a volta que nos tinham mandado fazer nessa tarde.
Havia pinheiros em todas as direcções e nós íamos variando os locais onde íamos ao mato, tal como variávamos as brincadeiras feitas entretanto. Ir ao mato era uma tarefa séria e útil mas também era uma espécie de brincadeira, porque tinha um gosto a liberdade, a despreocupação. Era um daqueles gestos que significava acreditar. Acreditar nos ciclos da natureza e nas pessoas e nas tardes e nas manhãs.
Apetece-me ir ao mato mas já não existe mato, porque já não existem pinheiros, meu Deus, já não pinheiros nem atrás, nem à frente da casa, nem aos lados, desapareceram todos. Já não existem esses locais mágicos, refúgios escuros e verdes, cheirando muito a verde, com sombras desenhadas na faúlha pelos raios de sol que se escapavam por entre as copas das árvores tranquilas.
Sinto os cheiros, sinto a aspereza da faúlha bem seca, sinto os pequenos ruídos, de pequenos ramos que se partiam sob os nossos pés, sinto a leveza dessa tarefa que podia ser também uma brincadeira. Mas tenho de fechar os olhos porque nada está lá, nada. E de repente alguém diz, com a sua sabedoria noutros tempos aprendida "Isso é mato" e eu acordo desse quentinho que parece uma lareira acesa mas não de uma pequena memória. Sorrio então. Sorrio e digo que sim, é verdade: "Isso é mato."
Sábado, Janeiro 12, 2008
Decerto que vai apaixonar.
Estávamos a falar de um cão. O Rufa vive sozinho, amarrado por uma corrente, junto à casa do meu tio Catorze e da minha Tia Salomé, que Deus lhes dê o céu.
Um dia destes, soltou-se. Não cabendo em si de contente, veio às carreiras até a casa dos meus pais juntar-se ao irmão, Rafa. Saltou, correu, fez piruetas no ar, atirou-se às visitas à procura de mimos.... Foi uma autêntica festa, que só durou um dia, até ao meu pai ter resolvido o problema da corrente rebentada.
No momento em que foi amarrado junto à sua casota, no terreiro da casa abandonada onde não passa quase ninguém e que ele guarda com tanto esmero, dando sinal à menor aproximação, o Rufa calou-se. Meteu-se dentro de si e não emitiu um som.
Ali ficou, quieto. Simplesmente, deixou de ladrar e essa foi a forma que encontrou de entristecer.
- "Decerto que vai apaixonar" - exclamou a minha mãe, fazendo acordar em mim a memória desse verbo de antigamente. Apaixonar, usado assim, na forma de um verbo intransitivo e não reflexivo como se usa no caso da paixão amorosa, significava entristecer de morte.
A minha avó, sempre que via alguém muito triste, de uma tristeza sem tamanho e sem fundo, exclamava, numa pergunta que não exigia resposta: " Será que ela/ele vai apaixonar?"
E se estivesse de pachorra, contava casos de pessoas que tinham apaixonado e acabaram por morrer. "- Apaixonou, criou uma postema e morreu." Eu sempre acreditei nos saberes da minha avó. Desde essa altura, sei que é possível morrer de tristeza.
Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
Levantada
Nunca ouvi o adjectivo no masculino. Ora bem.
Quarta-feira, Janeiro 09, 2008
Acervada
Uma pessoa acervada era, sobretudo, uma pessoa sossegada.
Mas no caso dos rapazes, ser acervado não era um adjectivo tão elogiado como no caso das raparigas, acho até que acabava por ser um pouco pejorativo. Os rapazes queriam-se mais extrovertidos, despachados, talvez até um pouco atrevidos; se fossem quietos demais, se escolhessem o aconchego do lar em vez das idas à venda ou aos arraiais com os amigos, em breve alguém começaria a "fazer pouco" e nenhuma rapariga o aceitaria.
Há muito tempo que não ouço o adjectivo "acervado/a" ser utilizado na linguagem corrente. É um facto. E não foi só a linguagem que caiu em desuso, foi também o comportamento.
Sexta-feira, Janeiro 04, 2008
Burricar ou dizer burridades
As pessoas divertiam-se a burricar. E sabia tão bem! Sabia bem o calor humano à volta da mesa ainda com migalhas de pão preto já duro e com os pratos a cheirar à massa com couves que servira de ceia.
Burricar é dizer asneiras. E tudo, tudo mesmo, mesmo tudo, servia de pretexto para garantir o entertenimento necessário à vida, nessa altura em que não havia televisão, nem livros, nem computador, nem telemóvel, nem leitor de Mps nem nada do que existe agora.
Eu lembro-me de não termos luz eléctrica em casa. De não termos televisão. De não termos giradiscos. De não termos nenhum livro, à excepção dos livros da primeira e da segunda classe, sendo que o da primeira tinha sido meu no ano anterior e estava a ser usado pela minha irmã do meio e no ano seguinte, quando eu tivesse o da terceira, passaria para a minha irmã mais nova.
Lembro-me de ver os adultos, depois de um longo dia de trabalho e de inúmeras dificuldades, a rirem muito com as burridades que inventavam para dizerem uns dos outros.
Num tempo anterior, na juventude dos meus pais e dos meus tios, altura em que as famílias eram muito mais numerosas, burricava-se muito mais. As burridades eram o pão nosso de cada dia, e era isso que tornava a vida mais fácil de ser vivida, essa alegria gerada pelas coisas mais insignificantes e impensáveis.
Às vezes metiam-se com os namoricos uns dos outros, jurando a pés juntos que certa rapariga estava interessada em determinado rapaz ou vice-versa e que os tinham visto olhar um para o outro no adro da igreja ou numa qualqquer encruzilhada de caminho. Às vezes limitavam-se a imitar formas de falar, sobretudo se a pessoa fosse fanhunga ou tivesse outra qualquer característica fora do normal, formas de andar ou certos jeitos. Às vezes peguilhavam com pequenos episódios insólitos, ou recordavam coisas passadas há muito ou há pouco tempo.
Fosse sobre o que fosse, burricar sabia bem.
Hoje em dia não há tempo, nem pessoas suficientes, para ocupar os serões a dizer burridades. A única excepção é quando os emigrantes da família regressam por breves períodos e nos sentamos à volta da mesa do jantar, e de repente somos mais, e dá jeito recordar episódios insólitos e características estranhas e peguilhar com isto e com aquilo. Nessas alturas, sim burricamos. E sabe tão bem e tenho tantas saudades.
Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
O Biquica
Quando se diz que alguém é "como o Biquica", usa-se sempre um tom reprovador.
Ora bem. Não é nada bom ser como o "Biquica": "Não sei qual é o gosto de ir para lá, de biqu'aberto." Aqui a critica aumenta de tom: "Como o Biquica."
A mulher irrita-se mas o homem não se importa de ser "como o Biquica". Indiferente à resonda, abala para o seu destino, uma casa qualquer, de um qualquer conhecido, onde há uma festa de anos ou uma matança de porco ou uma prova de vinho novo ou apenas um convívio familiar, para o qual não foi directamente convidado. Vai a reboque de outros. Não se importa de ser "como o Biquica", seja quem for esta personagem, cuja história não conheço.
Segunda-feira, Dezembro 31, 2007
Volta e meia
"Volta e meia" quer dizer de vez em quando e é uma expressão ainda muito utilizada.
Nesta véspera de ano novo, pareceu-me a expressão ideal para colocar neste meu cantinho de memórias e de palavras.
Que em 2008 os sorrisos enfeitem os rostos. Volta e meia. Digo volta e meia porque às vezes chorar também é importante, por vezes é até mais importante e mais difícil de conseguir.
Que os sonhos se multipliquem à medida de cada um e que tornem o mundo melhor.
Volta e meia. Porém. Porque às vezes, muitas vezes, sem os pés bem assentes na terra, os sonhos perdem-se no ar, são sonhos "mal empregados" e os sonhos não se devem desperdiçar.
Que os amigos e as familias se encontrem, que se visitem, que partilhem. Volta e meia. Porque os silêncios são tão importantes como as palavras e porque estar sozinho é por vezes ainda mais importante, ainda mais necessário, do que estar acompanhado.
Que viajem muito, muito. Volta e meia. Porque às vezes as viagens devem ser interiores, apenas. Essas viagens dentro de nós serão tão importantes como as outras, as viagens mundo além.
E o Amor. Sempre, sempre. Sempre o amor.
Mas. Volta e meia.
Que o amor de cada um se dirija em primeiro lugar a si mesmo. Para que se reflicta no outro com a intensidade do sol refectido no mar e com a beleza da lua refectida num lago.
Volta e meia.
Porque. Afinal. Mais facilmente se reconhecem os melhores momentos se também conhecermos os poiores.
Um bom Ano. Volta e meia.
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
Um ananás e um queijo
E ainda hoje o natal só é verdadeiramente natal se a minha mãe comprar um queijo inteiro e um ananás para a salada de fruta que serve de sobremesa ao almoço do dia de Festa e que todos ajudamos a fazer.
Este Natal vai ser mais pequenino, eu tenho este feitio de medir o Natal pelas presenças das pessoas de quem gosto. E quando algumas pessoas que estão longe continuam longe, apesar de ser dia de Festa e de a mesa estar posta como sempre, com a carne de vinho-e-alhos do porco que o meu pai tratou durante o ano, o natal não pode ter o mesmo tamanho, o tamanho que sempre teve.
Porém.
A minha mãe comprou um ananás inteiro e um queijo inteiro. A minha mãe fez broas de coco e fez broas de mel e fez licor de maracujá e fez tin-ta-ton. E o almoço voltará a ser carne-de-vinho-e-alhos com salada de fruta para a sobremesa. E os que cá estão estarão reunidos e contentes.
É natal.
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
O que é que eu vou fazer?
- Descoser a saia e tornar a coser.
Uma safatinho da França
Perguntava a minha mãe
Como é que se nascia
Como é qu' eu nasci também
Minha mãe me respondeu (?)
Quando tu eras pequeninha
Quando eras menor criança
Apareceste nesta casa
num safatinho da França
A propósito de Natal, logo de nascimento, lembrei-me destas quadras que recolhi no meu sítio. São quadras de um antigo tempo, antes do meu tempo, e anteriores também à infância da minha mãe, quando eram as parteiras que traziam as crianças escondidas.
Nesse antigo tempo, era dito às crianças que os bebés vinham num "safatinho da França". Escrevi "safatinho" porque cresci onvindo esta palavra mas quando a ouvia era mesmo assim, sem nenhum "a" no início. Só depois vim a descobrir que a palavra correcta, sinónima de cesto, é "açafate".
Tenho a cantiga anotada assim, toda de seguida, mas separei o verso do meio porque me pareceu que talvez falte qualquer coisa para termos várias quadras, ou talvez seja assim mesmo. Também não sei o som da cantiga, nem sequer sei se isto era uma cantiga ou se eram versos apenas ditos, tipo história. Aguardo contributos para esclarecer o mistério.
Quadra sobre a Festa
Deita fora o que não presta
Isto é que é uma alegria
Chegarmos todos à Festa!
Recolhida em 1987
Domingo, Dezembro 16, 2007
Cheiros da Festa
Voltámos a casa e cheirou-me novamente a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro de uma pequena lata de tinta branca que o meu pai estava a dar nas velhas portas dos quartos.
A semana passada também me cheirou a Festa. E o cheiro da festa era o cheiro do grão-de-bico e do bacalhau temperado com muita salsa e com muito alho e com muito azeite, que é desde sempre o prato servido aos homens que vêm ajudar a matar o porco.
A meio da semana também me cheirou a festa. E o cheiro da festa era o cheiro dos torresmos que estavam sobre a mesa em duas grandes taças, ainda fumegantes, depois de ter sido extraída e guardada em frascos a banha de porco.
Cheira-me a Festa. E o cheiro da Festa é sempre um cheiro que apetece guardar dentro dos bolsos para os momentos em que a vida não cheira a nada.
Sexta-feira, Dezembro 14, 2007
O jogo da laranjinha
O jogo da laranjinha
É feito assim ao lado
Matilde sacode a saia
Matilde levanta o braço
Deita os joelhos à terra
Fica tudo admirado
Matilde dá-me um beijinho
Qu'eu te darei um abraço
Caranguejo não é peixe
Caranguejo peixe é
Vamos dar duas voltinhas
Lá de roda da maré
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
Reles como trevisco
Ora bem.
Foi devido à característica de venenosa que esta planta passou a ser utilizada como metáfora para o povo se referir às pessoas más. Bastava dizer: "Aquilo é um trevisco". E mais explicações não eram necessárias.
Por vezes era utilizada a forma comparativa: "É reles como trevisco."
Hoje em dia já não sei identificar a planta que dizem ser venenosa e também deixei de ouvir a expressão que me habituei a ouvir na infância e adolescência.
A única coisa que não desapareceu, nem está previsto que desapareça, que eu saiba, ( pelo contrário aumenta a olhos vistos ) são as pessoas com a característica dessa planta selvagem que nasce entre as outras ervas e podia matar um animal doméstico, se acontecesse de, indvertidamente, ser colhida no molho da "comida".
Quarta-feira, Dezembro 05, 2007
Quando a palha larga o trigo
É da sua natureza
Quando um amor larga outro
É da sua má firmeza
Uma simples quadra do brinco, à volta da qual se podia escrever um tratado. As coisas da natureza. Os problemas da má firmeza. Tanta filosofia em meia dúzia de palavras, o povo é mestre na arte de dizer tudo em quase nada.
Mas deixo-me disso, por ora.
A quadra vale por si. Tal como noutros exemplos que aqui tenho deixado, também neste caso, os dois primeiros versos podem ser usados com outro final, desde que rime. Tenho registado outro exemplo, que ouvi da minha avolita, por alturas da visita do filho mais novo, depois de bastante tempo ausente.
Quando a palha larga o trigo
é da sua natureza
Ah mê filho que 'tás aqui
Tu és a minha beleza
Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Deita no chão
Fui apanhada de surpresa por esta expressão que não ouvia há bastante tempo.
Afinal, ainda se utiliza, ainda bem! É uma forma popular de reagir a alguém que esteja a cramar. As pessoas por vezes cramam dizendo: - "Não posso."
A resposta surge prontamente: "Não podes, deita no chão".
Antigamente, as pessoas fartavam-se de carregar coisas às costas. Carregavam molhos gigantescos de erva para os animais e de lenha para alimentar o lar, carregavam pedras e outros materiais para construírem as casas em sítios inconcebíveis, carregavam os aguadores de água da fonte. As pessoas carregavam tudo, durante longas distâncias e por caminhos estreitos e íngremes.
Quem foi desse tempo, não pode deixar de responder assim perante alguém que diz "não posso" e não carrega nada, afinal. Não tem peso físico nenhum sobre os ombros e os pesos morais ou existenciais parecem ridículos aos olhos de quem já passou por dificuldades sem conta possível.
- "Não podes, deita no chão." A expressão é acompanhada por um encolher de ombros, seguido da continuação precisa daquilo que estava a ser feito.
E este desimportado "Não podes, deita no chão", assim sem mais nada, obriga-nos a reflectir. Talvez não seja necessário. Talvez não haja realmente nada para deitar no chão.
Terça-feira, Novembro 27, 2007
Daqui até amanhecer
Os dois primeiros versos servem para arrematar quantas cantigas se queira no brinco, no despique, ou no xaramba.
"Quantas horas se não vão daqui até amanhecer." O início está feito, agora é juntar-lhe dois versos com a métrica adequada, sete sílabas, e no final uma palavra que rime com amanhecer. Claro que o processo é sempre ao contrário: sabendo o que quer dizer, o cantador ou cantadeira procura na memória algo que encaixe ali bem e eis que encontra esta frase tão antiga como os avós de todos os avós.
A quadra que por vezes me aparece do nada, no meio de um qualquer distracção, talvez por me ter sido dita com um carinho extremo, pela minha querida avolita, é assim:
"Quantas horas se não vão
Daqui até amanhecer
Todo aquele que faz bem
Nunca s' há-de arrepender."
A minha avolita acreditava piamente naquilo que me disse, em jeito de conselho, na cantiga inventada de repente, num dos momentos em que cheguei junto dela, na sua cadeira de vimes estrategicamente colocada junto da janela, de caderno e caneta na mão, e lhe pedi para se lembrar de algumas cantigas.
Ela acreditava e eu também ainda acredito. Embora tenha perdido a conta às muitas vezes em que a vida já me tentou ensinar o contrário. Na verdade, a vida não tem culpa de nada. São as pessoas com quem nos vamos cruzando, porque todos os caminhos se cruzam com outros caminhos, formando encruzilhadas às vezes com aparência de nenhum sentido, na verdade são as pessoas que às vezes nos fazem duvidar.
Mas a minha avolita acreditava e ela tinha um sorriso tão imensamente luminoso e terno, era tão bonito acreditar. Na cara da minha avolita o acreditar mostrava que tinha razão e era tão bonito."Todo aquele que faz bem/nunca se há-de arrepender." Eu vou teimar, avolita.
Quarta-feira, Novembro 21, 2007
Em casa onde não há pão....
A crise está em toda a parte e não cuida de nós. Cuida é de nos atormentar a todos. Além das poupanças em casa, dos cêntimos contados todos os meses, das opções que nem sempre agradam a todos os membros da família, existe essa outra poupança, com regras que nem sempre são compreensíveis, com opções que muitas vezes são no mínimo espatafúrdias, porque ninguém percebe o critério.
"Em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão." O velho ditado, curvado e de barbas compridas, muito brancas, rejuvenesce. A crise mantém-no como novo, cada vez mais novo.
Terça-feira, Novembro 20, 2007
Adivinha
Cada dia três
Uma vez cada ano
Quatro cada mês
Recolhida a 09-07-1986
Solução:
Refeições
Benzer-se
Confissão
Missa
Assobiar o São João
Este é o mesmo João da história anterior, aquele que não sabia se devia comprar um carro ou um olho-de-boi.
Um certo dia, alguém perguntou-lhe: - "O que estás assobiando?" Ele não demorou a responder. Decidido: " - O São João."
Acontece que tais assobios nem de perto nem de longe faziam lembrar a popular cantiga e o caso voltou a ficar na história.
Pessoa que assobie mal, não se livra, no meu sítio, da possibilidade de alguém a interrogar? "- Estás assobiando o São João?" Por vezes, como há tempos ouvi num diálogo entre uma tia minha e o meu pai, que assobiava enquanto cavava, vão mais ao pormenor. - "O que estás assobiando? É o São João?"
Eu nunca tive voz afinada para cantar nem jeito para assobiar. Mas às vezes apetece-me tentar só pelo prazer de talvez ajudar a preservar uma expressão que com o tempo inevitavelmente acabará por cair no esquecimento, como todas as outras.
Segunda-feira, Novembro 19, 2007
Um carro ou um olho-de-boi?
Não cheguei a conhecer o autor desta frase que ficou na história e ainda hoje é usada no meu sítio. Era um rapaz com problemas de desenvolvimento intelectual, uma dessas figuras de quem a sorte se esquece e que sobrevivem num mundo à-parte, sem autonomia e sem a percepção da realidade que os envolve.
Por ser assim - as pessoas da altura chamavam-lhe "tontinho", de forma natural e sem qualquer desmerecimento ou descriminação, aceitando a diferença - João não trabalhava nem tinha dinheiro.
Mas tendo num belo dia alquidado alguns trocos, terá exclamado, na indecisão do que fazer com o dinheiro: - "Não sei se compre um carro ou um olho-de-boi!"
O rapaz não tinha a noção do valor do dinheiro e sentia um grande fascínio por olhos-de-boi, adorava esses objectos mágicos capazes de, ainda que de forma tão ténue, vencer a escuridão do mundo.
A fase sobreviveu-lhe. É utilizada para ilustrar situações de indecisão, mas bizarras, por ser demasiado óbvio aquele que deve ser o objecto da escolha, quando a questão nem se deveria colocar.
Sábado, Novembro 17, 2007
Ponto dado.
- "Mas ele estava cavando no poio, mesmo indágora, onde será que se meteu?" Após mais alguns chamamentos e um investigação muito sumária, ficou provado que o homem se ausentara para a venda com um amigo, que entretanto lhe passara à porta. Tinham caminhado, sorrateiramente, sem ninguém dar por isso.
A mulher atormenta-se com a ideia de o marido ter saído de casa sem lhe dizer nada, ofendida como se fosse a primeira vez. Atormenta-se com a ideia de ele ter caminhado para ao pé de gente com a roupa de trabalho, num terriço. Atormenta-se sobretudo com a ideia de lhe chegar tarde a casa e com uma bebedeira pela certa.
Comentam o caso, as três mulheres. Um pouco angustiada, um pouco resignada, a dona da casa exclama. "- Decerto que já estava ponto dado." - "Àme não!" - Concordam as outras duas.
"Estar ponto dado" é as coisas estarem previamente combinadas, haver um acordo, uma intenção específica por detrás de uma acção, ao invés de as coisas acontecerem por mero acaso.
Sexta-feira, Novembro 16, 2007
Embeiçado
"Estar embeiçado" é cada vez mais o pão nosso de cada dia, para um número cada vez maior de pessoas. O dinheiro rende cada vez menos, não rende nada, desaparece como num número de ilusionismo. Com a diferença de que no ilusionismo as coisas voltam a aparecer.
O velho, cansado, repete: " - Estou embeiçado!" E di-lo com a naturalidade com que diria que está sol, ou que a chuva seria bem-vinda, ou que lhe doem as canelas e as arcas mas vai fazer o possível para ir à missa no domingo.
Ia dizer-lhe que também estava "embeiçada" mas. Mas. Sabendo o valor da mísera reforma do homem, não tive coragem.
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
Milho cozido com bacalhau assado
A moda estava de tal forma na moda que durante um único dia talvez repetíssemos a expressão dezenas de vezes. E não era necessário que os olhos da outra pessoa se demorassem em nós mais do que alguns segundos.
Na juventude dos meus pais, contaram-me, tinha havido a mesma moda. Mas a resposta é que era diferente. " - Nunca me viste? Não sou milho cozido com bacalhau assado."
A quadra que coloquei no último post é precisamente dessa altura. "Não olhes p'ra mim não olhes /qu'eu não sou milho cozido..."
Eram tempos extremamente difíceis e a alimentação baseava-se no milho cozido, às vezes com peixe para acompanhar, muitas vezes sem nada, às vezes com ameixas ou um bocado de cebola a servir de conduto. Era o comer dos pobres e ainda assim muitos nem isso tinham e andavam pelas casas a pedir. Milho cozido com bacalhau assado era uma rica iguaria para a época, uma iguaria de fazer crescer água na boca. E assim está explicada a expressão mais antiga, substituída pela outra na geração seguinte, numa época em que as pessoas, em geral, viviam já com bem menos necessidades em matéria da alimentação.
Milho cozido
Qu' eu não sou milho cozido
Eu não sou do teu agrado
Nem tu és do meu sentido
Quadra recolhida na Ribeira dos Pretetes, no dia 25-01-1987
Moquenca e conenga
Mas há uma pequena diferença - que eu considero grande - entre elas.
"Moquenca é uma pessoa quieta mas ranhosa, fechada consigo mesma" - explicam-me.
Conenga também é uma pessoa quieta mas, ao contrário da primeira, o sentido não é negativo.
A minha mãe sorri. Lembra-se de que a chamavam "conenga" quando era criança. Era uma espécie de alcunha: "De repente, iam ver onde é que eu estava, e encontravam-me num canto, agachada, toda metida dentro do vestido de chita. Estava ali, enconengada."
Sorrio também. Conenga. Imagino-a dentro do seu vestido de chita, escondida num canto, dentro do seu pequeno mundo, e sorrio. E o meu sorriso é de uma ternura sem tamanho.
Quem ao longe vai casar....
A conclusão resulta do senso comum, e de uma época em que as comunicações se faziam com dificuldade. Aquilo que existia era aquilo que se via. A realidade era o que estava à volta das pessoas.
Sendo assim, nada mais natural do que os casamentos acontecerem entre pessoas que se conheciam desde sempre. Muito raramente se realizava um casamento entre um rapaz e uma rapariga de freguesias diferentes. Normalmente, aliás, nem saíam dos limites do seu sítio.
E isso é claro que tinha as suas vantagens. Todos conheciam os vícios e as virtudes de todos. Sabia-se se a rapariga era sossegada ou levantada. Sabia-se se olhava para todos nos arraiais e, aos domingos, no adro da igreja.
Sabia-se se o rapaz era amigo de trabalhar ou se gastava tudo na bebida. Sabia-se se tinha mania de namoradeiro. Sabia-se se era ajuizado.
Sabia-se tudo e isso era mais de meio caminho andado para o relacionamento resultar.
Como saber se os de longe eram honestos ou vadios? Como saber se tinham casamento apalavrado na sua terra? Como saber se tinham algo de seu? Como saber se eram amigos de ir à missa? Perante tantas dificuldades, a solução estava bem à vista: namorar, noivar e casar com alguém de perto.
Na era da internet, do telemóvel, do automóvel e das low coast, já não se pode falar em dificuldades de comunicações. O que é raro, hoje em dia, é namorar com alguém do mesmo sítio, alguém que se conhece desde sempre. Talvez seja mais arriscado. Talvez. Mas no que a relacionamentos diz respeito, é tudo tão complexamente complexo que vai dar ao mesmo. Pode dar e pode não e às vezes o que parece mais certo é o que dá mais errado, ora aí está. Como diria a minha querida avolita: "É um acerto".
Terça-feira, Novembro 13, 2007
À hora da ceia
Chegou era nove e meia
É o costume qu' ele tem
De chegar à hora da ceia
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço
Casamento demorado, casamento do diabo
Mas é claro que o tempo é muito subjectivo e o que hoje parece ser muito, naqueles tempos podia parecer pouco.
Questiono os antigos sobre o período considerado ideal para o noivado. A mulher responde: "Andámos para casar oito anos, mas eu gostava de ter andado mais tempo."
E o homem: "Andava-se para casar tantos anos mas guardava-se o respeito, não era como agora."
"Casamento demorado, casamento do diabo." Insisto em encontrar uma lógica para o ditado, mas não progredimos muito. Falam-me de um homem que "andou para casar a vida toda e nunca de casou." E perdemo-nos, embrenhados noutras histórias verdadeiras.
Segunda-feira, Novembro 12, 2007
Quem boa cama faz....
Lembrei-me deste ditado porque de certa forma é parecido com "rompe-se o pano ao gosto do seu dono". Ambos nos falam da responsabilidade pelos nossos actos. Ambos nos lembram que tudo o que fazemos tem consequências. Que mesmo demorando muito, às vezes demora, o que fazemos acaba por a nós retornar.
Quem boa cama faz, em boa cama se deita. É claro. Simples. Óbvio.
Mas na teia das inúmeras injustiças do mundo, há quem nem sequer mexa um dedo para fazer a cama e tenha sempre uma boa cama onde se deitar. Até.
Até ao dia em que.
Domingo, Novembro 11, 2007
Amarrar o sol à lua
Fazia o dia maior
Amarrava o sol à lua
C'as pontas do meu lençol
S' eu quisesse bem podia
Fazia o dia pequeno
Amarrava o sol à lua
C'um baracinho de feno
Quadras recolhidas no Sítio da Ribeira dos Pretetes
Quando os galos tiverem dentes
Toda a gente sabia que os galos não têm dentes e por isso toda a gente entendia esta frase, que é apenas uma forma mais complexa e figurada de dizer "nunca".
Gosto muito mais desta expressão do que da outra que lhe é sinónima: "no dia de São Nunca à tarde".
Gosto de dizer e gosto de ouvir dizer: "Quando os galos tiverem dentes". É verdade que ninguém sabe o futuro, mas há coisas em relação às quais posso usar, com toda a convicção, a velha expressão popular, que toda a gente percebia na perfeição no tempo em que era normal ter um galinheiro junto à casa.
Sábado, Novembro 10, 2007
Rompe-se o pano ao gosto do seu dono
Trata-se de um antigo ditado sobre o nosso poder de escolha, sobre o poder de tomarmos decisões que mudam a nossa vida. Este ditado refere-se a algo tão simples como isto: somos responsáveis pelas nossas acções.
Embora muitos factores já lá estejam, é claro que muitas coisas não dependem de nós, há sempre uma parte que nos cabe tecer com as nossas acções. Rompe-se o pano ao gosto do seu dono. Aquilo que sucede nas nossas vidas depende em grande parte daquilo que dela vamos decidindo fazer em cada momento que passa. E ainda bem!
Eu andava p'ra casar
Roubaram o meu rapaz
Paciência, não me importa
Que no mundo há-de haver mais
Eu andava p'ra casar
Roubaram-me a rapariga
Paciência, não me importa
Tenho outra mais minha'amiga
Cantigas do brinco, recolhidas em 1986
Pelo mar abaixo
Pelo mar abaixo
Vai um tentilhão
Abanando o rabo
Dizendo que não
Pelo mar abaixo
Vai um tintonegro
Abanando o rabo
Dizendo que tem medo
Pelo mar abaixo
Vai uma papinha
Abanando o rabo
Fazendo caquinha
Pelo mar abaixo
Vai uma panela
S' ela leva caldo
Vamos atrás dela
Pelo mar abaixo
Vai um tabuleiro
S' ele leva bolo
Leva o meu brindeiro
Sexta-feira, Novembro 09, 2007
C'o balaio da graça!
Durante muito tempo não soube o significado de balaio, mas nunca tive dúvidas de que seria algo grande. Traduzindo poderia ficar assim: "Que grande piada!"
Um balaio é um cesto grande, com feitio de alguidar, é então o tamanho que justifica a metáfora.
Dizer "c'o balaio da graça!" é uma forma de dizer directamente à pessoa que aquela graça, seja ela qual for, afinal não é assim tão engraçada. Mas também não é nada de negativo, não há aqui qualquer drama, não senhor.
É simplesmente uma pequena ironia, clara e óbvia porque do conhecimento de todos. Ficaria eu bem contente se tudo o que nos é dito o fosse desta forma. Com subtileza de uma metáfora, mas ao mesmo tempo com a clareza característica da tradição mais genuinamente popular.
Quinta-feira, Novembro 08, 2007
Lavar a cabeça a burros
Lembro-me de como este dito me fazia confusão quando eu era criança. Não percebia o seu alcance. Imaginava um burro de verdade e uma pessoa a lavar-lhe a cabeça com sabão azul, que era o que então se usava para lavar a cabeça, e ficava confusa.
Aprendido o significado à custa da experiência, considero a expressão uma espécie de desistência. É utilizada para ilustrar a perda de tempo que é tentar fazer com que algumas pessoas compreendam determinadas coisas, normalmente óbvias.
"Lavar a cabeça a burros é perder tempo e sabão." Porque algumas pessoas se recusam a tentar compreender e não admitem a hipótese de mudar de ideias, mesmo quando lhes é demonstrado por todos os meios e mais alguns que não têm razão.
Dentes ralos
Não sei em que se terá baseado o povo para chegar a esta conclusão. O certo é que o método é seguido há muitas gerações e deve ter algum fundamento.
"Quem tem dentes ralos, é mentiroso."
Só tenho pena é que esta regra não delimite de forma clara e definitiva todos os mentirosos. Nada, na tradição popular, garante a não existência de mentirosos entre as pessoas de dentes perfeitamente juntos e alinhados.
Segunda-feira, Novembro 05, 2007
Mentir como sete sapateiros
Acontece que nessa época os sapatos eram feitos de encomenda nos sapateiros e estes não tinham mãos a medir. A pessoa ia fazer a encomenda, tirava as medidas, escolhia o modelo e depois o sapateiro dizia-lhe que fosse buscar os sapatos ou as botas em tal dia. Mas muitas vezes, chegado dia marcado, a caminhada por veredas e levadas até à casa do sapateiro revelava-se em vão.
Foi assim que os sapateiros ficaram com fama de mentirosos. E assim terá surgido a comparação. Hoje há uma sapataria em cada esquina e os sapateiros não tiveram remédio senão desaparecer. O que não falta, bem mais do que um por esquina, são mentirosos. Gente a mentir como sete sapateiros é o que mais se vê por este pobre mundo.
Ramos de peste
Nem na camisa qu'eles veste
Por onde eles vão passando
É como ramos de peste"
Recolhido no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço, em 1987
Desbragalhada
- "Estás toda desbragalhada, pequena!"
Desbragalhada é mal arranjada, explicou a avó, enquanto a neta se distraía com a paisagem, pouco ralada com o comentário, melhor dizendo com a crítica. Deste pequeno confronto de gostos e de gerações, retive o adjectivo. Debragalhada. Talvez venha da palavra braga, que significa calções largos. Talvez, não sei.
Achei piada ao termo, tal como acho piada a estas diferenças de gosto, às vezes mais subtis, às vezes mais marcadas, entre avós e netas. Lembro-me de ter passado pelo mesmo com a minha avó e das memórias que tantas vezes evocava. memórias do tempo em que era proibido ir à missa "de maga curta", pior ainda se fosse"de manga rolada" ou de cabeça destapada, ou de saia curta.
Piorno e fel
Piorno é um erva que, para sincera, não sei reconhecer. Também a verdade é que aos poucos até o verde das ervas daninhas nos vão roubando. No lugar das ervas, cada vez há mais cimento, de modo que o mais certo é um dia as pessoas deixarem de reconhecer seja que erva for.
Perante esta dupla possibilidade, o piorno ou fel, hesito. Não sei qual a comparação mais acertada para classificar alguns sentimentos a que ninguém consegue escapar, vá lá que chega a todos, mais dia menos dia. Por isso, uso as duas: Amargo como piorno. E. Amargo como fel.
Domingo, Novembro 04, 2007
Faiscando!
Uma parte estava ainda cheia de matagueira, na maioria silvado e corriolas bravas, tudo emaranhado. Mas a parte que já estava limpa, dava gosto ver.
O lavrador sorria com satisfação: "'Tá faiscando!" Faiscando vem de faísca e usa-se precisamente para algo que faz faísca. Mas no caso que agora relato faiscando tem o sentido de limpo, bem arranjado. Talvez tão limpo que até brilha, talvez se justifique assim a aplicação do adjectivo.
Talvez. Por agora não posso pensar mais no caso, preciso de deixar a casa faiscando.
Insulto
Antes de lavar o rosto
Olho p'ra tua cara
E até me dá um desgosto
Quem fez a tua cara
Com certeza se esqueceu
Que uma cara igual à tua
Faz sucesso no museu
Ó...Ó....Ó
Que cara de mal feita
Quem fez a tua cara
Já perdeu a receita
Ó....Ó.....Ó
Que cara de medonha
Quem fez a tua cara
Já perdeu a vergonha
Há muito, muito tempo, antes mesmo da era da rádio, esta cantiga era tocada pelas bandas filarmónicas nos adros das igrejas em todas as festas e mais algumas.
Até que a igreja decidiu que esta cantiga era pecado, afinal insultava o criador, e proibiu que fosse tocada junto aos templos. A ordem foi cumprida mas a cantiga continuou na boca do povo. Até hoje.
Faz-se uma molhelha....
A molhelha é feita a partir de uma saca de pernil enfiada na cabeça. Enrola-se o que sobra da saca à altura dos ombros e aí se assenta a carga. A molhelha é uma espécie de base para colocar o molho, talvez a origem da palavra seja mesmo molho.
Ora bem. Uma das ironias mais engraçadas que ouvi recentemente socorre-se deste antigo costume. Em causa estava fazer uma tarefa bem simples e leve, acho que era desligar o rádio ao algo parecido. Perante a demora e a relutância em cumprir uma coisa tão fácil, eis que surge a expressão: "Faz-se uma molhelha e vai-se lá desligar o rádio." Perante a evidência, a pessoa não tem remédio senão aperceber-se do exagero.
Há pessoas que parecem precisar de molhelhas sempre, porque tornam pesadas as coisas mais leves, complicam o que não é complicado, transformam em difíceis as tarefas mais fáceis. "Faz-se uma molhelha e vai-se lá...." Ter presente a ironia talvez ajude muito boas almas que por este mundo andam.
Sábado, Novembro 03, 2007
Nossa casinha, nossa brasinha
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
O baile conforme o toque
Está muito bem pensado, sim senhor. A sabedoria popular tem coisas destas, tão óbvias que às vezes as esquecemos. Complicamos tanto aquilo que até podia ser bem simples; fazia-nos bem a todos umas aulas na escola da tradição popular feita deste tipo de saber empirico.
Em vez de decidir por entecipação, de sofrer por antecipação, de tentar adivinhar aquilo que vai acontecer, porque não seguir o velho ensinamento mais velho do que o norte e bailar conforme o toque?
"Isso depois vê-se. Conforme o toque, conforme o baile". Traduzindo: depois decide-se, reage-se de acordo com o que acontecer realmente. Bom-senso. Reagir conforme a situação com que nos deparamos, ora bem. A ver se não me esqueço.
Domingo, Outubro 21, 2007
Palhetes
Na casa dos meus pais, os fósforos também ainda são palhetes. Antigamente, dizíamos sempre palhetes, sempre. Nem sei quando ouvi pela primeira vez a palavra fósforo, mas deve ter sido na escola, e permaneceu durante muito tempo como uma simples curiosidade. A palavra certa era a que ouvira desde que nasci: palhetes.
A propósito, conheço um senhor que tem a alcunha de Palhete, por ser muito alto e magro, nesta caso a razão da alcunha é uma semelhança física com o objecto, é tão engraçada a arte popular de atribuir alcunhas.
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Um barco no mar e pregos na nogueira
"- Também queres pregos para pregares na nogueira, queres? Se quiseres eu vou buscar..."
Usamos ainda outras expressões para reagir às baboseiras mas estas são as de que gosto mais. Todas elas se devem a um miúdo do nosso sítio que era tão baboso, tão baboso que chorava porque queria um barco que via no mar. Era mesmo muito baboso e parece que lhe faziam sempre as vontades, até lhe davam pregos e um martelo quando ele entendia que queria pregar pregos numa nogueira que supostamente existia junto à casa. Onde é que já se viu maltratar assim uma pobre árvore? Mas o menino queria, que se havia de fazer? Queria e tinha de ter, desse por onde desse, e ainda bem porque assim ficámos com estes exemplos exagerados, espécie de espelho para mostrar às crianças e aos adultos quando tentados pela arte da baboseira. Resulta sempre.
Quarta-feira, Outubro 17, 2007
A pastora
A cantiga da pastora tem um ritmo que fica no ouvido e nunca mais se esquece. Eu nunca me esqueci desta cantiga da infância e por vezes surpreendo-me a cantarolar baixinho a história da pastora que matou o seu gatito e depois foi confessar o pecado ao senhor padre.
Era uma vez uma pastora
larau larau larito
Era uma vez uma pastora
que matou o seu gatito
Ela foi se confessar
larau larau larito
Ela foi se confessar
ao senhor padre de Machico
- Senhor Padre, eu me confesso
larau larau larito
Senhor Padre eu me confesso
que eu matei o meu gatito
- A penitência que te dou
larau larau larito
a penitência que te dou
é me dares um beijito
- Beijos eu não dou
que eu cá sou mulher de bm
Nunca vi um senhor padre
pedir beijos a ninguém
Esta parte final fazia-nos muito confusão, lembro-me muito bem. Não percebíamos a propósito de quê é que um senhor padre haveria de pedir um beijo a alguém que fosse confessar-se. Parecia-nos absurdo, sem sentido. Na nossa inocência, perguntávamos à minha mãe e ela então explicava que a música era assim para rimar, estava explicado. Muito bem pensado, sim senhora. Fosse tudo tão fácil de explicar e seria uma alegria sem nome viver neste mundo.
A criada
Adorávamos cantá-la devido à sonoridade, alegre, cheia de ritmo, mas também por falar de uma realidade que nos era totalmente desconhecida. Esta cantiga fazia-nos entrar noutro mundo.
Mandei a criada
ir buscar a pá
P'ra juntar o lixo
que estava acolá
- Oh minha senhora
eu não sei varrer
mande-me outra coisa
que eu saiba fazer
Mandei a criada
acender o lume
- Oh minha senhora
não é de costume
Mandei a criada
ir lavar os pratos
entrou na cozinha
sujou-me os guardanapos
Valha-me Deus
com esta criada
Sai p'ró meio da rua
não sabes fazer nada
Perguntávamos à minha mãe o que era uma criada e ela explicava que era alguém que fazia as coisas nas casas de gente rica.
Nós não conhecíamos ninguém que tivesse criada e ficávamos de boca aberta, muito espantadas, a pensar em como seria ter alguém para nos fazer as coisas em casa.
Mas logo voltávamos a concentrar a nossa atenção na cantiga e a cantá-la mais uma vez e outra ainda e mais uma, até nos cansarmos .
O facto de a cantiga ter um final e ainda por cima um final justo, era tranquilizador. A criada não fazia as coisas bem, logo era posta na rua. Acreditávamos que tudo funcionava assim no mundo e nesse pressuposto acreditávamos que viver era uma tarefa simples. A inocência é uma idade bonita, seja ela em que idade for.
Domingo, Outubro 14, 2007
Quadra
Todos dizem bem na vi
Todos falam e murmuram
Ninguém olha para si
Quadra recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes, Caniço
Sexta-feira, Outubro 12, 2007
Lambareiro
O significado popular de lambareiro é ser incapaz de guardar um segredo.
Gosto de pimenta, graças a Deus.
Quinta-feira, Outubro 11, 2007
Atentar, condenar e cegar
"Não me condenes mais, pequena." "Tu atentas-me muito, eu não atentava minha mãe assim." "Pára de me cegar com essa história." Era assim que as mães ralhavam com os filhos.
Os filhos atentavam as mães. Mas as mães também se atentavam quando os filhos adoeciam, por exemplo, e neste caso atentar tem um significado ligeiramente diferente, de se preocupar.
Condenar era talvez mais utilizado pela minha avó do que pela minha mãe, o que me faz presumir que pertença a uma forma de falar mais antiga, mas não posso jurar. É possível que tenha a ver com o resultado. Afinal, quando uma pessoa se enerva ou irrita muito, pode ter reacções condenáveis.
Quanto a cegar, penso que terá a ver com a ideia de uma pessoa ficar cega de raiva, de não conseguir ver nada à frente num momento de extrema irritação. Este caso continha uma especial ambiguidade: cegar era o mesmo que atentar e tinha sempre uma carga negativa. Mas quando transformado em adjectivo - cegueiro ou cegueira, referindo-se à pessoa que realiza o acto de cegar - passava a implicar uma certa desculpabilização. Era um olhar condescendente e até carinhoso, o olhar da mãe que muitas vezes acaba por achar graça às traquinices dos filhos e quem sabe um certo orgulho disfarçado porque para cegar também é preciso ser inteligente e ter ideias.
"Aquilo é um/uma cegueira!" A minha mãe dizia isto dos filhos e às vezes diz o mesmo dos netos. Eu também já o disse, tanto da minha filha como dos meus sobrinhos. E disse-o com uma espécie de orgulho. Para cegar como deve ser é preciso uma imaginação fértil e um espírito inteligente e atento.
Sexta-feira, Outubro 05, 2007
O camalhão da levada
O camalhão da levada é referido nas cantigas espontâneas, inventadas na hora - no brinco ou no xaramba - num daqueles inícios-tipo, que se usam para facilitar algumas rimas e de que já aqui deixar alguns exemplos.
Para ilustrar este caso, deixo a seguinte quadra, também recolhida no Sítio da Ribeira dos Pretetes:
A cama do levadeiro
é o camalhão da levada
Pequena canta mais eu
Qu'o cantar não tira nada
Sábado, Setembro 29, 2007
Chapéus que atrasam a vida
Os chapéus dos meus avós, os chapéus de que me lembro e que eram os melhores, os "da missa", eram pretos. O meu avô materno costumava pô-lo mais ao meio da cabeça, era o jeito dele. E foi precisamente o chapéu preto desse meu avô que eu um dia pedi emprestado no dia de Carnaval para uma pequena brincadeira, porque na verdade eu nunca gostei de disfarces, na verdade sempre detestei disfarces.
Eu achava lindo aquele chapéu, com um jeito na copa, ligeiramente amolgada para dentro, e a sua fita de seda. Fizeram-me muitas recomendações, afinal aquele era o chapéu melhor, e não lhe aconteceu nada, evidentemente, porque eu trato as memórias como autênticas preciosidades. Guardo esse episódio com um carinho especial, não poderia ser de outra maneira.
Ora bem, seguindo a lista de superstições que fui recolhendo ao longo do tempo, duas linhas abaixo da que fala dos girassóis (texto anterior), encontro esta: "Atrasa a vida" uma mulher pôr um chapéu de homem na cabeça. Basta que sim! Soubesse eu disto e teria, ao longo da minha vida, poupado todo o tempo que passei a tentar procurar explicações para o inexplicável.
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
Girassóis
As flores maiores do mundo, pelo menos do meu mundo, pareciam não encaixar bem em lado nenhum. Eu compreendia. Compreendia muito bem esses girassóis que não sei a que propósito, um belo dia surgiram como grande novidade, plantados no poio à frente do jardim, do verdadeiro e primeiro jardim, o jardim de sempre.
Foi um Verão diferente, aquele Verão de girassóis. Poucas novidades aconteciam no nosso pequeno universo, não acontecia quase nada de verdadeiramente diferente. Por isso aquela novidade dos girassóis foi vivida e sentida de uma forma única.
Tivemos girassóis durante mais alguns verões, não sei precisar quantos, mas na minha memória houve mais verões com esses sóis amarelos polvilhando o poio à frente do jardim que ficava à frente do terreiro que ficava à frente da casa.
Misteriosamente, tal como apareceram, um dia os girassóis desapareceram do poio e das nossas vidas e nunca mais voltaram. De vez em quando lembro-me. Tenho saudades de ver girassóis e apetece-me não ver nenhum, para que aqueles sejam sempre os únicos girassóis do mundo (nosso).
Um dia destes, num daqueles momentos em que me ponho silenciosamente a esgravatar memórias, folheando cadernos amarelados com anotações avulsas, encontrei algo sobre girassóis. Numa lista de superstições que, com o tempo, com certeza abordarei neste blog, encontrei esta: "Não se deve ter girassóis, porque atraem as feiticeiras". Está assim explicada a raridade dos girassóis nos jardins e a consequente estranheza com que acolhemos aquelas flores, por nunca as termos antes visto. Quanto às feiticeiras, não me apercebi de que tivessem aparecido, atraídas pelos girassóis. Mas quem sou eu para pôr em causa a antiga sabedoria popular.
Domingo, Setembro 23, 2007
A laranjinha da China
Não sei porque razão me lembro mais desta do que das outras cantigas que antigamente se cantavam aos domingos e dias-santos, nos terreiros, ou nas eiras durante a debulha do trigo.
Sempre gostei desta em especial, talvez por me parecer com mais necessidade de ser lembrada. É que nunca a ouvi recriada por nenhum dos grupos que se dedicam às recolhas da tradição musical da nossa terra.
A laranjinha da China
É doce e sabe bem (bis)
Gostava de dar um beijo
No par que dança bem
No par que dança bem
Agora, agora, agora (bis)
Voltinhas, meninas voltinhas
Amores vamos embora (bis)
Amores vamos embora
para a serra da estrela (bis)
Apanhar a rosa branca
escolhida pela açucena (bis)
Então porque não, porque não
Então porque não hei-de ir (bis)
As muralhas do castelo
são bem altas de subir
São altas de subir
São baixas de abaixar (bis)
Já lá vai o meu amor
Para a vida militar (bis)
Segunda-feira, Setembro 17, 2007
Cura de olhado ou inveja (2)
No dia 30 de Novembro de 2005 coloquei neste blog uma cura de olhado ou inveja. Esta é outra versão e muitas ainda devem existir, conforme as freguesias e até os/as curandeiros/as.
A oração deve ser repetida nove vezes, como todas as "coisas de Nossa Senhora", usando uma cruz de alecrim.
No final, deve-se experimentar (a forma de experimentar também está registada neste blog, com a data de 2 de Dezembro de 2005) a ver se a pessoa ficou boa ou se continua com olhado. Se ainda o tiver, deve ser curada novamente mas não de imediato. Se a primeira cura for feita de manhã, uma segunda só deve ser feita à noite ou no dia seguinte.
Também é importante dizer que para serem eficazes a pessoa que cura deve receber pagamento em dinheiro pelo trabalho. Não põe preço mas deve ser paga, é o que dizem os antigos.
Domingo, Setembro 16, 2007
À espera do sarampo
O meu Tio José Manuel não foi atingido pela doença, mas não desanimou. Durante oito dias, esperou calmamente os sinais do sarampo, sem acreditar que não chegaria a vez dele.
A cada dia que passava, sentia uma nova desilusão. Os outros tinham sarampo, mas ele nem sinais. O meu tio José Manuel achava que tinha igual direito a ter sarampo "para beber leite como os outros."
Nesses oito longos dias de espera, um dia ele amanheceu com tremores de frio e pensou que tinha chegado a hora, finalmente. Sentindo o tilintar das folhas do leiteiro quando ele passou no terreiro, gritou-lhe da cama: "Deixe mais um litro de leite."
Mas o meu tio José Manuel, vai-se lá saber porquê, nunca chegou a ter sarampo.
Do que não se livrou foi do registo deste episódio na memória colectiva da família. E da sua utilização em situações engraçadas: "- Vais ficar oito dias à espera do sarampo?" Ou então: " - Porque não pedes ao leiteiro para deixar mais um litro de leite?"
Erva-doce e outras ervas
Em todas as casas com bebés pequenos cheirava a erva-doce mas também se sentia, mal se chegava à porta, um cheiro de aguardente. A aguardente era servida às visitas, mas também era usada na confecção de uma infusão a que se juntavam ervas, obrigatória para todas as parturientes.
Para além da aguardente, essa infusão especial era composta por madre de louro, canela, botões de arruda, erva-doce e botões de cravo da índia.
Algumas destas ervas - a arruda e a madre de louro - eram das mais utilizadas nas doenças relacionadas com o útero. Mas para esses padecimentos também se usavam chás de lombrigueira, losna, alfinetes de senhora, artemija, cuidados, marroios, poejos, salva e ainda acelgas, alfavaca e amor-de-burro.
O alecrim de Nossa Senhora e a alfazema serviam para banhos. Sobre o útero colocavam uma cataplasma de arruda, alfazema ou rosmaninho pisados, um ovo batido e um pouco de farinha. Para acalmar as dores menstruais também era costume as jovens tomarem meio cálice de aguardente.
Chás para o coração
É com grande pena que me apercebo que hoje em dia já não reconheceria a boliana. A minha avó falava tanto neste chá, provavelmente tem outras aplicações e eu terei anotado apenas esta, a de fazer bem ao coração.
Tantos chás para o coração físico e nenhum chá para o outro coração, o coração que às vezes tem desgostos de amor.
Remédios para as dores de cabeça
O primeiro: colocar folhas de limoeiro na testa e amarrar um pano por cima.
O segundo: colocar na testa um pano molhado em leite de cabra "quente do mojo".
Durante muitos anos, tivemos uma cabra num pequeno curral e lembro-me de o meu pai entrar na cozinha de manhã com um jarro cheio de leite a fumegar, acabado de tirar. Mas há anos que a cabra foi vendida, não sei por quê nem me lembro a quem.
Sobra a solução das folhas de limoeiro. Temos ainda o limoeiro de sempre, embora esteja muito velho e já nem sequer dê limões. Quem sabe? Às vezes basta acreditar em milagres para que eles aconteçam.
Sábado, Setembro 15, 2007
Cura de frio
Transcrevo a cura tal como ma deram, por especial favor, escrita numa folha de linhas arrancada a um caderno.
"Com o santíssimo nome de Jesus Cristo em quem eu creio e adoro verdadeiramente, que há-de julgar os bons e a glória e castigar os maus penas eternas, Maria (ou outro nome) todos estes ares maus constipados que neste corpo tens, nesta cabeça, nestes miolos, nesta testa, nestas fontes, nestes olhos, nesta cara, nestes ouvidos, neste pescoço, neste peito, neste coração, neste bofe, neste fígado, neste ventre, neste uter, nesta carne, nestas veias, nestas pernas, nestes pés, se é ar de porta, se é ar de janela, se é ar de ribeiro, se é ar de ribeira, se é ar de algum mal invejado naquele mar seja deitado que é um mar tão poderoso que pode com o bem e com o mal. Agora eu te curo de ar frio, de ar de quente, se é ar deste corpo. Quem te cura não sou eu que é o Santíssimo Sacramento com todos os santos que na corte do céu estão lá a ti querem curar com a sua santíssima Mãe que tem esse poder, eu não. Ámen, assim seja."
Foi o meu tio José Isidro Nóbrega, que Deus lhe dê o Céu, quem me prometeu arranjar esta reza e um dia chegou a casa dos meus pais com o tal papelinho para me dar, lembro-me que fiquei contente, e lhe agradeci com um sorriso grande. E a cura resultava? Ele respondeu que sim, mas isso não posso saber. Mesmo que ainda existisse alguma curandeira especialista nesta cura de frio, duvido que me conseguisse tirar o frio que sinto na alma, tenho a certeza que não.
O Chorar
Às penas do coração
Chorar eu tenho chorado
E as penas de mim não vão."
Recolhido na Ribeira dos Pretetes - Caniço
Terça-feira, Setembro 11, 2007
Emantada
Uma pessoa anda emantada quando está, por exemplo, a chocar uma gripe. Resumindo: uma sensação de apatia, de um certo cansaço dolorido, de um não saber o que se passa mas não ser nada agradável, uma espécie de frio, misturado com algum desânimo e fraqueza.
Normalmente, sentimos necessidade de vestir mais roupa, de nos agasalharmos, e talvez seja por isso que uma das minhas tias dá a emantado/a também esse significado.
Emantado/a é um adjectivo que se refere normalmente a um estado físico que parece anunciar uma doença. Mas pode ser também aplicado a estados de espírito, e talvez tenha passado a sê-lo porque muitas vezes as duas situações se misturem.
A minha recorda, a propósito, uma velha cantiga, que eu não conhecia.
"À porta de meu pai passa
Um frangaínho emantado
Vai-te embora, frangaínho
Que tu andas enganado."
Na cantiga, frangaínho é uma forma de designar um rapaz novo (Não é a primeira vez que ouço chamarem "frangaínho" a um jovem rapaz) e claro que "emantado" neste contexto significa triste, pela esperança ou pela dor de algum amor não correspondido.
Não sei qual é o meu caso. Não sei se é físico, se é espiritual, se é uma mistura dos dois. Sei apenas que estou emantada.
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Senhora do Livramento
Não sei como foi este ano, porque estive a trabalhar e não consegui ir nem à Festa religiosa nem ao Arraial. Recordo o acontecimento com uma quadra popular que integra as minhas recolhas.
"Senhora do Livramento
Tem uma pereira à porta
Senhora dê-me uma pêra
Quero ser sua devota."
Domingo, Setembro 09, 2007
Intejar
"Intejar" significa aborrecer-se para sempre, enfastiar-se. Intejar é deixar de gostar de algo, e usa-se normalmente para falar de comida. Tenho a ideia de já ter ouvido o verbo utilizado noutros contextos, mas não posso jurar.
É um pouco aquilo que acontece com as cascas dos ovos, que mencionei no texto anterior.
"Intejar" é o resultado de as pessoas por vezes não conseguirem dosear as coisas, de perderam a noção do equilíbrio.
Não me lembro de já ter intejado alguma coisa. Talvez tenha intejado queijo quando era criança, não sei se é verdade ou se me lembrei disso devido ao meu receio de que tal possa suceder com a minha menina.
Sábado, Setembro 08, 2007
As cascas dos ovos
A ideia desse procedimento antigo era levar as galinhas a se aborrecerem de comer cascas de ovos. Ora, se elas comessem tanto até se aborrecerem de vez, as pessoas podiam estar descansadas: nunca mais na vida lhes passaria sequer pela cabeça tentarem comer os ovos que punham.
Hoje em dia já quase ninguém tem galinheiros como antigamente e por isso esta técnica simples de prevenir que as galinhas comessem os ovos, caiu provavelmente no esquecimento.
Nós também não temos já o velho galinheiro com rede de maia e com poleiros lá dentro, com muitas galinhas e alguns galos. Mas de vez em quando se fala na história das cascas dos ovos. Isso acontece sempre que alguém , por gostar muito de um particular manjar, o come em demasia. Logo surge a voz da experiência a alertar para que tenha cuidado, porque lhe pode acontecer como às galinhas com as cascas dos ovos. Pode enfastiar-se e nunca mais na vida conseguir comer esse alimento.
"- Olha as cascas dos ovos..." e não é preciso dizer mais nada.
Embora com nostalgia desses gestos antigos, com pena do seu desaparecimento, alegra-me que tenham, ao menos, ficado perpetuados sob a forma de dizeres.
Sexta-feira, Setembro 07, 2007
A crena e a catrapilha
Crena era o nome que dávamos a uma grua e catrapilha a uma escavadora. As duas palavras ainda são bastante usadas no nosso madeirense. Catrapilha é uma espécie de tradução da marca das primeiras máquinas do género: Caterpillar. É um fenómeno linguístico interessante, em que o nome de uma marca passa a designar um objecto. Acontece o mesmo com gilete, por exemplo. Aqui acresce ainda o aportuguesamento da palavra original. Em relação a crena não faço ideia da origem.
O que sei é que já fui uma criança fascinada com essas novidades, tão estranhas, tão raras, quase mágicas. Hoje há crenas e catrapilhas em todos os bocadinhos de terreno, onde eu queria ainda ver o verde dos pinheiros e sentir o rumor da brisa nos ramos das árvores e subir e descer pequenas veredas e subir bardos e descobrir ninhos e ouvir pássaros entre as folhas mais altas. Envergonho-me daquele sentimento infantil de admiração pelo novo. Mas o tempo não volta atrás e as crenas e as catrapilhas multiplicam-se todos os dias e daqui a dias não restarão poios, não restarão bardos, não restarão jardins, não restarão caminhos ladeados de erva rija, nem ribanceiras cheias de silvados com amoras.