segunda-feira, outubro 24, 2005

Cruz de pau, cruz de ferro...

Lembro-me de uma época, algures na infância, em que fazíamos juramentos por tudo e por nada. Vejo três meninas com vestidos de chita, correndo de cabelos ao vento, brincando entre poios e pinhais, ou então mais quietas, segurando com gestos solenes brinquedos invisíveis. Subitamente, a propósito de uma qualquer afirmação ou promessa, uma delas vira-se para outra e ordena: "Jura".A resposta era uma espécie de pequena lengalenga e talvez por isso gostássemos tanto de a repetir: "Cruz de pau, cruz de ferro, se eu mentir vou para o inferno."Jurávamos com uma rima e ficava jurado. Não púnhamos sequer a hipótese de não cumprir o juramento.Mas nesse tempo mentir era a excepção e não a regra. Quem mentia ia para o inferno e o inferno era um lugar para onde as pessoas não queriam ir.Quem mentia, mais tarde ou mais cedo era apanhado e ficava logo com uma fama que mais ninguém lhe conseguia tirar. Eram apontados os mentirosos porque ainda eram menos do que os outros.Nesse tempo longínquo mentir era o desvio à norma e não o contrário. Mentir é que era feio. Quem mentia caia-lhe os dentes. Quem mentia tinha de confessar ao senhor padre no dia da confissão, que vergonha! "Quem mente uma vez, fica por mentiroso toda a vida", dizia a minha mãe, ensinando as três meninas a nunca mentirem. "Mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo", dizia a minha mãe, ensinando às três meninas um dos valores mais importantes para uma vida honrada e conforme aos ensinamentos de Deus.Assim ouvimos, assim aprendemos, assim cumprimos: "Cruz de pau, cruz de ferro, se eu mentir vou p'ró inferno."As meninas cresceram e a fase dos juramentos a torto e a direito passou, como qualquer outra fase. Há que tempo não digo a pequena lengalenga com rima! Mas não foram em vão os ensinamentos da minha mãe. Não repito a lengalenga mas respeito o princípio tal como nesse tempo. Não me adaptei aos tempos em que a mentira é a regra e não a excepção. E quem não se adapta, seja ao que for, sofre sempre.Nunca mais ouvi os ditados que a minha mãe repetia, na sua tarefa de educadora, como o do mentiroso apanhado mais depressa do que o coxo e do mentiro que assim ficava sendo todaa a vida. O ditado mais conhecido agora é "Quem mais jura mais mente." Mas até este vai ficando ultrapassando porque já ninguém jura mas quase toda a gente mente. Já ninguém vai para o inferno por mentir. O inferno é nesta vida e para os que insistem em não se adaptar às novas regras.

Comments:
A geração evolui e a cada dia que passa piora.
Não consigo compreender de onde nascem tantas maldades,mentiras etc.
Antes tivesse que repetir "Cruz de pau,cruz de ferro...." vezes sem conta,do que ter de me adaptar a esta nova realidade...
O mundo poderia ser mto melhor sem estas mudanças.

****
 
Nunca mais me lembrei desse juramento tantas vezes repetido em miúdo, mas depois de lê-lo,recordei-o. Ligeiramente diferente, mas exactamente o mesmo, "cruz de pau, cruz de ferro, se eu mentir vou direitinho para o inferno arder" um pouco mais reforçado talvez.
 
eu acho que também repetia essa expressão,mas parece-me que era: cruz de pau,cruz de pedra e o resto era igual...enfim o tempo passa e as recordações ficam e o teu blog é um manancial inesgotável de recordações dos tempos idos ,aos quais os tempos modernos não condescenderam..è sempre uma lufada de ar fresco ,revisitar-te, Lilia..bem hajas!!!
 
A mim diziam : «Quem mente uma vez mente sempre,ainda que fale verdade todos lhe dizem que mente»
E realmente quem, queria ficar assim marcado? Mentir pesava imenso na consciência, além de me fazer corar fortemente, que os outros logo viam «tás vermelha, tás a mentir»...
Também jurava a torto e a direito«pela minha salvação».Quem era capaz de jurar falso e perder a alma?
Bons tempos...que a Lilia sabe fazer recordar. Obrigada.
 
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Espectacular!
Boas recordações me trouxe este texto. Obrigado.
E é verdade, tens toda a razão... Infelizmente!
 
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