quarta-feira, junho 22, 2005

O patroquês e a vaquinha Vitória

"Conta-me uma história, mãe. Conta." Eu disse que sim e depois enganei-a como me enganavam quando eu, da mesma idade, também pedia uma história mas a pessoa a quem pedia não estava com muita pachorra. "Conta-me uma história, mãe. Conta." Está bem.
"Era uma vez....." Depois do era uma vez, fiz a pausa da praxe, para aumentar o suspense e fazer redobrar a atenção. Ela estava em silêncio, concentrada já no que viria a seguir. Repeti: "Era uma vez.... - nova pausa, aqui - ....um patroquês. Passou-te pelas barbas, não sei o que te fez." O resultado foi o esperado. A mesma exclamação de espanto e desilusão que eu tantas vezes repeti. "Já acabou? Oh!"
"Era uma vez um patroquês. Passou-te pelas barbas, não sei o que te fez." Claro que a minha menina também me fez a pergunta que eu tantas vezes fiz à minha mãe: "O que é um patroquês?" Eu lembrava-me da pergunta mas não me lembrava da resposta. Puxei pela cabeça mas não me lembrei, talvez nunca tivesse havido uma resposta lógica e convincente. Continuei a puxar pela cabeça à procura de palavras semelhantes, que eventualmente pudessem estar na origem de uma deturpação linguística, mas a palavra mais parecida que encontrei foi "português".
"Não sei. Deve ser só para dar certo. Assim rima, reparaste?" Ela riu-se e concordou.
"Era uma vez um patroquês. Passou-te pelas barbas, não sei o que te fez." Repeti a brincadeira e de imediato lembrei-me da outra história-relâmpago com que tentavam satisfazer a minha avidez por histórias. "Vou contar-te outra." Novo silêncio a mostrar que a atenção estava já toda na história que vinha a caminho. "Era uma vez....." Pausa.
"Era uma vez uma vaquinha chamada Vitória. Morreu a vaquinha, acabou-se a história." "Oh, já acabou? "E porque é que a vaquinha morreu?" A mesma pergunta. A pergunta que eu repetia de todas as vezes que tentavam convencer-me de que esta era uma história como as outras. Mas não era. Uma histórias tem mais pormenores, tem muitas peripécias pelo meio. Uma história de verdade não acaba antes de ter começado.
Nenhum destes dizeres, nem o do patroquês nem o da vaquinha Vitória, é uma história como deve ser, mas ontem à noite foi com eles que a minha menina adormeceu. Eram coisas novas para ela, como é possível que em nove anos nunca eu me tenha lembrado delas?
Consigo inventar sempre novas histórias ou transformar histórias já velhas, e adaptar outras bem conhecidas. Penso que esta é a explicação e eu fico contente por nunca antes ter sentido necessidade de recorrer ao patroquês e à vaquinha Vitória. Mas ainda bem que ontem eu estava sem inspiração e sem muita pachorra. Ainda bem que me lembrei destas duas histórias-rápidas-de-enganar-crianças-ávidas-por-histórias. O patroquês e a vaquinha Vitória são histórias minúsculas, nem sequer merecem o estatuto de histórias. São pequenas mas não são dispensáveis. Comparo-as a pequenas gotas, essenciais para completar o balde de alegria da infância.

Comments:
Lília Mata,
desde que assisti a uma palestra sua na UMa, fiquei completamente "apanhada" pelas suas histórias! Elas fazem-me recuar uns anos e trazem à superfície determinadas lembranças de uma infância bem passada! (Isto embora eu não seja muito "crescida"...!!)
Gosto imenso do seu Blog!! Passarei cá muitas mais vezes, quer à procura de novas histórias, quer para reler as antigas!
Um abraço,
Diva Pita
 
Best regards from NY! » »
 
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