quarta-feira, maio 18, 2005

O olho-de-boi

Um dia destes, à noitinha, numa rua da cidade por onde passo à saída do trabalho, vi um vulto de mulher curvado para o chão. Fiquei espantada com a posição em que se encontrava, com a cabeça baixa, à altura da cintura, e os braços caídos, a alguns centímetros do chão. Reparei melhor. Usava um vestido enramado e na mão direita segurava um olho-de-boi. Um olho-de-boi. Foi a palavra de que me lembrei para identificar o objecto que usava para iluminar o chão, coitada da mulher, o que teria perdido? Com certeza alguma coisa valiosa, se não fosse não estaria a procurá-la de olho-de-boi. Não lhe vi o rosto, escondido por um cabelo grisalho e despenteado, mas devia ter uma expressão algo angustiada, dependendo do objecto em causa.
Continuei o meu caminho, fascinada pela imagem do olho-de-boi, embalada pelas memórias de outros olhos-de-boi.
O meu tio 14, que Deus lhe dê o Céu, tinha um olho-de-boi que sempre atraiu as atenções por ser enorme. Não tenho a certeza, mas talvez lhe tenha sido trazido por algum emigrante da família, da Venezuela, do Brasil ou da Austrália. Era um olho-de-boi enorme, com a parte de cima um pouco desproporcional, o corpo elegante. Tantas escuridões tentou aquele olho-de-boi iluminar!
Em nossa casa também havia um olho-de-boi, que talvez tenha sido trazido pelo meu pai, no seu primeiro regresso da Austrália. Durou tantos anos, esse olho-de-boi. Era de tamanho normal, mas metalizado como o do meu tio. Quantas vezes a minha mãe me foi alcançar ao autocarro levando esse olho-de-boi porque já era noite. Quantas vezes saiu à rua apenas por instantes, acompanhada desse objecto mágico. Para juntar alguma peça de roupa esquecida no arame, para investigar algum barulho estranho, sei lá que mais.
Quando o meu tio morreu, o meu pai ficou com o olho-de-boi gigante, mas ele durou pouco. Avariou-se sem explicação, talvez só conseguisse funcionar com o calor da mão do meu tio, ao lado de quem viveu imensos anos. Depois disso, já lá vão dois. Os olhos-de-boi das lojas dos trezentos são uma porcaria.
E porque se chama olho-de-boi? A minha mãe sorri, e o meu pai também. Os primeiros olhos-de-boi não eram como os de agora, nem como o tal do meu tio, nem como o que me lembro de ver em casa a vida toda. Os primeiros olhos-de-boi eram pequenos, qudrados, e com a parte da frente saída para fora, "tal e qual um olho de boi".

Comments:
Very nice site!
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Best regards from NY! film editing schools
 
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